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Brasília

Antes de brigar com o vizinho, conte até dez

Arquivo Geral

28/05/2013 11h30

Muitas vezes conturbado, o relacionamento entre vizinhos é algo que pode causar problemas a muita gente. Não é difícil encontrar, por exemplo, quem tenha dificuldades para lidar com quem mora ao lado. A exemplo do que aconteceu em São Paulo, quando um homem – indignado com o excesso de barulho que vinha do apartamento acima – matou dois vizinhos e cometeu suicídio, os desentendimentos são frequentes, mas, felizmente, nem sempre chegam a agressões tão graves.

 

Em situações assim, moradores e síndicos precisam colocar o diálogo em primeiro lugar para não deixar desentendimentos banais virarem caso de polícia.

 

Há quase dois anos, por exemplo, um cachorro late do outro lado do condomínio de Alberto*, incomodando até moradores de outros prédios. Quase todas as noites, o bicho interrompe o sono dos vizinhos, sem que o dono tome providência. “As pessoas sabem que existe o problema, mas evitam o conflito. Muita gente deve querer fugir do problema que é reclamar, mas acham mais fácil não tomar atitude”, confessou o condômino, que mora há mais de 40 anos no mesmo prédio, no Cruzeiro.

 

Até mesmo o síndico do condomínio evita repreender o dono do cachorro por temer atitude violenta. “Já falamos com ele, mas não sou eu que vou reclamar. A gente precisa colocar numa balança pra ver o que pesa mais: o incômodo ou uma possível reação violenta. Não quero tomar um tiro”, disse.

 

Desentendimentos

 

Hoje em dia, a artesã Amauzi Fernandes de Castro não tem problemas onde mora. Nem mesmo quando Luna, sua cadela da raça Maltês, late. Mas ela já passou por desentendimentos quando morava em outro condomínio. “Tinha uma vizinha que reclamava de um barulho de bolinha de gude que dizia ser dos meus filhos. Uma vez viajei pra Caldas Novas e o ruído continuou. Ela descobriu que eram os  vizinhos ao lado”, lembra, sorrindo. A mulher a encontrou por acaso, anos depois, e pediu desculpas. “Ela disse que tivemos boa convivência, que eu era uma boa vizinha e reconheceu que foi grossa.”

 

Para o presidente do Sindicato dos Condomínios do Distrito Federal, José Geraldo Pimentel, a falta de educação gera os conflitos. A postura firme do síndico, porém, pode impedir situações extremas. “As pessoas não se respeitam, aí começam a ter atos contrários às normas do condomínio”, fala. “O síndico é a autoridade máxima e quem impõe o cumprimento das regras. Ele deve saber punir aquilo que está errado, para evitar situações como o ocorrido em São Paulo”, recomenda.

 

Pimentel lamenta que muitas vezes falta disposição dos condôminos em cumprir regras. “A falta de humanidade tem levado a grandes problemas. Parece que os limites do ser humano acabaram.”

 

 

A hora certa de o síndico agir

 

 

A briga entre vizinhos acaba sobrando para quem não tem nada a ver com o problema em si, mas ao mesmo tempo é a autoridade do condomínio e precisa intervir. O síndico é quem deve agir quando os moradores não se entendem. O papel de conciliador muitas vezes evita consequências graves, relatam algumas pessoas que ocupam este cargo.

 

“Em duas situações, sentei com os dois moradores no salão de festas para resolver uma desavença relacionada a barulho. Nunca tinha feito isso antes, mas tive sucesso nas duas vezes. Muitas vezes a pessoa que faz barulho não sabe que está incomodando”, contou  Marco Aurélio Barros, o militar da reserva e síndico de um prédio no Setor Sudoeste.

 

Demandas

 

Em cinco anos à frente do condomínio, ele teve que enfrentar situações no mínimo curiosas. Uma  moradora criou problemas por achar que as bombas d’água do condomínio estavam   incomodando. 

 

“Ela também quis baixar uma regra de que os moradores não poderiam fumar nos próprios apartamentos. Um dia estava em um dia ruim e fui ríspido. Ela se ofendeu e entrou no Juizado de Pequenas Causas, mas ainda bem que o juiz me deu razão”, lembrou.

 

O aposentado Gerardo Gama está à frente de um condomínio na Asa Norte há 15 anos e já viu de tudo um pouco. Após uma queda de energia, comunicada pela CEB, uma adolescente ficou presa no elevador. O resgate foi feito por um dos porteiros, mas o pai da menina não ficou satisfeito. “Ele me ligou aborrecido, dizendo que se a energia não tivesse voltado, a filha poderia ter morrido. Chegou a falar um monte de coisas para os porteiros. A moça estava apavorada”, relembrou.

 

Diante de situações difíceis, Gerardo acredita que o síndico deve tomar partido do lado que está com a razão. No entanto, a intenção deve ser conciliar o desentendimento. “Eu avalio qual a parte “mais rebelde” e tento convencer de que o que ela está fazendo é errado. Geralmente, a pessoa ofendida está disposta a ceder, perdoar. Então, podemos resolver o problema na conversa”, explicou.

 

 

Histórias de porteiros

 

 

Os porteiros dos residenciais também presenciam conflitos. Duas situações chamaram a atenção do porteiro Edimar Furtado. Segundo ele, as brigas entre casais acabam causando muitos constrangimentos.

 

“Uma vez, uma mulher discutiu com o marido e foi parar de calcinha e sutiã embaixo do bloco. Mas nem assim eu me intrometo. Não posso chamar atenção de ninguém. O máximo que eu posso fazer é ligar para o síndico e registrar a queixa no livro de ocorrências”, contou.

 

Recentemente, Edimar foi surpreendido por outro episódio curioso, quando um condômino deixou o som ligado e foi trabalhar. “Ele saiu à tarde e só voltou às 23h. A polícia chegou por volta das 21h e ficou esperando ele chegar. Não deu para escutar embaixo do prédio, mas os vizinhos se incomodaram com o barulho”, relembrou.

 

O barulho também tira o sono do empregado público Maurício Machado, 37 anos. Em menos de três meses morando em um prédio no Cruzeiro, ele já se indispôs com os vizinhos por conta de ruído excessivo. “Não tenho problema com barulho de criança brincando, nem nada disso. O problema é que fazem barulho perto da minha porta de madrugada. Também já aconteceu de arrastarem móveis de madrugada”, reclamou.

 

Por enquanto, a solução amigável tem sido tentada, mas Maurício não descarta ir à Justiça. “Mas primeiro, vou levar o problema à reunião”.

 

 

Joana (nome fictício) ouvia com frequência as batidas do salto de uma vizinha. Até que resolveu tomar providências, já que se sentia incomodada. A primeira medida foi mandar uma carta,   pedindo silêncio, mas a investida não teve êxito. “Comprei um par de chinelos e deixei na porta da vizinha, para que ela calçasse quando ela chegasse em casa”, contou. Hoje, a mulher do sapato de salto mora em outro apartamento,   no mesmo prédio. Não houve mais reclamações.

 

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