De hoje (1°) a 7 de agosto é comemorado a semana da amamentação no Brasil. Iremos apresentar uma série de reportagens especiais onde a repórter Estela Monteiro relembra sua experiência pessoal de amamentação, ponto de partida para puxar o fio da meada das histórias de outras mães.
Quando criança achava que todas as mulheres amamentavam seus filhos. Era uma questão natural. A lógica era simples: quando o bebê nascia, o seio materno se enchia de leite e ele se alimentava guiado pelo instinto de sobrevivência. Toda mulher seria capaz de produzir leite o suficiente para o seu filho. Achava também que o bebê saberia a hora de parar e partir para a mamadeira.
Parecia-me muito corente também a ideia das propagandas de incentivo ao aleitamento materno. Oferecer o leite materno exclusivamente até o sexto mês do bebê, e continuar a amamentação até os dois anos ou mais. Se alguém se colocava contra, eu logo argumentava: é recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), na qual o Ministério da Saúde se respalda.
Porém, amamentar não é tão simples quanto mostrava o sorriso de Luiza Brunet nos cartazes das campanhas de incentivo, em 1999. Na foto, em preto e branco, Luiza amamentava seu segundo filho, Antônio. O slogan dizia: Amamentar é educar para a vida. Vamos reaprender!
Estabelecer e manter a amamentação não foi tarefa fácil para mim. Também não foi fácil para muitas mães que conheço. A amamentação exige uma certa técnica. O bebê tem que estar posicionado corretamente em relação ao corpo da mãe. Ele deve abocanhar grande parte da aréola, com os lábios virados para fora e o queixo deve encostar no seio da mãe. A língua também tem que estar projetada para frente. Isso é chamado de “pega correta”.
Mitos
Além disso, existem mitos e crendices em torno do ato de alimentar um bebê. Privar a mãe de alguns alimentos ? que nessa época da vida necessita de uma dieta reforçada, porém equilibrada ? é muito comum na cultura ocidental. Acredita-se que certas iguarias ? embora não exista comprovação científica sobre isso ? causem gases no bebê.
Feijão, leite e derivados, couve, cebola são os preferidos dos palpiteiros de plantão e até de alguns pediatras. As mães que consomem estes alimentos se sentem culpadas quando o filhote tem crises de cólicas. Alguns especialistas afirmam que os gases no bebê são apenas reflexo da adaptação do sistema digestório à realidade fora da barriga.
Existem também os mitos em torno do seio da mãe. Parece que só existe um tipo de peito capaz de alimentar um bebê: ele deve ser grande, ter as aréolas escuras e o mamilo tem de ser grande e protuso. Qualquer mulher que tenha dificuldade em amamentar e cujos seios não se encaixem nessa descrição, ouvirá, em algum momento: seu bico que é pequeno, o bebê não consegue pegar. Ou que: peito pequeno não dá muito leite. E até: sua pele é muito clara e sensível, por isso está machucada.
Ciência
Na realidade, a ciência refuta todas essas afirmações. Um seio pequeno pode produzir tanto leite quanto outro mais volumoso. Mães com mamilo invertido conseguem amamentar tão bem quanto as outras e, se a pega está correta, amamentar não irá machucar e nem doer.
Acredito que muitas mulheres conseguiriam amamentar seus filhos mais e melhor se não estivessem envoltas por tantas críticas, mitos e pressões. Qual animal na natureza muda sua dieta quando está amamentando? Será que as mamães chimpanzés se preocupam se têm pouco leite ou se este é fraco? Nunca vi uma vaca andar com relógio para controlar as mamadas dos filhotes: 15 minutos de duração, a cada três horas.
Informação
Por outro lado, a maioria das pessoas possui informações úteis sobre os benefícios da amamentação, mas não sobre as dificuldades que irão enfrentar neste processo.
Passei a gravidez da minha primeira filha consumindo, em grande quantidade, informações sobre parto, amamentação e cuidados com o bebê. A internet era a maior aliada na busca incessante de saber tudo. Sabia que a mamadeira e a chupeta eram as inimigas do seio. Por estimularem a zona da boca responsável pelo reflexo de mastigação, o palato duro, esses utensílios causam a confusão de pega. O seio estimula o palato mole, que induz ao reflexo de sucção.
Eu sabia também que a natureza prepara o seio para dar de mamar. Sabia como era feita a pega correta. E que eu produziria tanto leite quanto o bebê demandasse. Só dependia de estimular a mama. Para isso, bastava que o bebê sugasse sempre que quisesse.
Demora
Quando Melissa veio ao mundo ? em um rápido parto normal em um hospital particular de Taguatinga ? pesando 2,740 kg e medindo 46 cm, percebi que tudo que sabia sobre o assunto não me ajudava muito na prática. Ela sugava o seio fraca e desinteressadamente. Apesar do parto normal sem complicações, Melissa não mamou na primeira hora de vida, uma recomendação da OMS. Por uma confusão do hospital, só a reencontrei cerca de 40 minutos após seu nascimento.
Depois de acomodadas no quarto, somente 20 minutos depois apareceu alguém que me orientaria na amamentação. Acredito que, no tempo em que ficamos separadas, ela recebeu alimento no berçário ? geralmente são oferecidos água glicosada ou leite artificial. Por isso a falta de interesse em mamar.
Dificuldades
Esse primeiro contato não foi nada como imaginei ao longo dos nove meses de gestação. A enfermeira ? uma loira de olhos verdes na casa dos 40 ? não parecia muito empolgada em me ajudar. A bebê estava sonolenta, o que é comum, já que recém-nascidos chegam a dormir até 20 horas por dia. No quarto, meus familiares observavam curiosos. Além disso, eu também acabava de nascer como mãe. Ainda tinha muito aprendizado pela frente.
Apesar do conforto do hospital ? tinha botão para tudo: subir e descer a cama e reclinar o encosto, controlar a televisão e até um que chamava uma enfermeira para o que eu precisasse, mesmo que fosse só para me ajudar a mudar de posição ? e da boa vontade da maior parte da equipe, sentia que muitos não possuíam o preparo necessário no manejo da amamentação.
Por conta da falta de interesse da bebê pelo peito, elas passaram a oferecer leite artificial em copinho a cada três horas. Era um ciclo inacabável e ela queria cada vez menos o peito. Lembro-me que algumas enfermeiras olhavam perplexas: Melissa com a boca no seio, a pega correta, e ela paradinha, sem sugar, olhando para mim. Hoje eu sei que ela esperava que simplesmente o leite caísse na boca dela.
Nos primeiros dias, a amamentação foi muito mais trabalhosa do que passar noites em claro. Eu passava estas noites ordenhando leite e oferecendo-o a minha filha em um copinho de café. Isso porque a insistência em fazê-la mamar no peito foi tanta que o momento se tornou estressante para ela, que passou a recusar o seio.
Na verdade, oferecer o leite no copinho exige certa técnica. Tem que dar de maneira que o bebê possa buscar o leite com a língua, como se fosse um gato. Se não, ele perde o reflexo de busca. Foi o que aconteceu conosco. Ela perdeu esse reflexo de busca pelo alimento, que acompanha todos os animais. O que fazíamos era derramar o leite aos poucos na boca dela. Foi assim que me ensinaram no hospital.
A matéria é uma publicação do trabalho de conclusão de curso da repórter Estela Monteiro.