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Alerta para a saúde mental de policiais

Nesta sexta-feira (10), é celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. O dia tem como objetivo a promoção de iniciativas que encorajam o bem-estar da população

O suicídio é a quarta principal causa de morte no planeta. Diversos são os motivos, mas todos encontram um mesmo denominador comum: a desestabilidade emocional. Entre oficiais de segurança pública, grupo que se dedica no salvamento e proteção de cidadãos, também não há isenção da possibilidade de desgaste mental – pelo contrário: as pressões vivenciadas no dia a dia dentro das corporações, além dos riscos da profissão, são fatores que desencadeiam o adoecimento dos agentes.

Nesta sexta-feira (10), é celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. O dia tem como objetivo a promoção de iniciativas que encorajam o bem-estar da população, além da valorização da vida.

De acordo com levantamento enviado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) ao Jornal de Brasília, foram 15 policiais entre ativos e aposentados da corporação que tiraram a própria vida entre 2010 e 2020 – não houve mortes com esta causa em 2021. Dessas vítimas, 14 eram do sexo masculino e uma era do sexo feminino. O ano de 2014 registrou a maior quantidade de falecimentos, sendo três oficiais – dois ativos e um aposentado.

O Corpo de Bombeiros Militar do DF preferiu não se pronunciar a respeito e afirmou que “os dados referentes a suicídios de militares na Corporação são restritos ao Centro de Assistência do CBMDF”. Este é um braço da corporação que tem por finalidade cuidar da saúde mental dos bombeiros militares e seus dependentes, de acordo com a corporação.

A Polícia Militar do DF não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre dados e apoio psicológico aos servidores até o fim desta edição, mas a corporação oferece  o Centro de Atendimento Psicológico e Social – CAPS, que presta atendimento em saúde mental para os servidores que precisarem.

Estereótipo que adoece

Dentro das corporações policiais, os motivos para a desestabilidade emocional podem ser dos mais diversos. Para aqueles que estão, frequentemente, atendendo a ocorrências de homicídios e acidentes fatais, lidar com a morte tantas vezes pode desencadear um processo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TSPT). Além disso, há a coerção social quanto 

“O primeiro fator para o adoecimento mental do servidor é o tipo de atividade que o policial exerce, que gera muita pressão, e o estereótipo de que precisa ser mais másculo, mais competente, aquele policial que prende e não aceita desaforo. Toda aquela fantasia que a mídia coloca em cima da condição policial”, analisou o chefe do departamento de psicologia da Policlínica da PCDF, Roberto Vinuales, que recebe membros da corporação frequentemente para atendimentos psicológicos relacionados à vida no trabalho e às relações pessoais.

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Segundo ele, a atividade dos agentes de segurança pública está diretamente ligada à imprevisibilidade dos acontecimentos e, consequentemente, da requisição para proteger a sociedade. “Ela [imprevisibilidade] acaba afetando o processo cognitivo dos servidores, porque não há uma rotina igual a de muitas profissões. Na profissão do policial, é preciso estar sempre em prontidão – e essa dedicação exclusiva faz com que eles fiquem de prontidão o tempo inteiro. Isso psiquicamente é muito adoecedor”, afirmou o psicólogo existencialista. “É sempre uma situação de vigilância.”

Nos primeiros anos, segundo o especialista, as experiências e a adrenalina de prestar serviço nas operações é algo considerado animador e bem visto por quem chega e é recente na corporação. Mas, depois de cinco, dez, ou vinte anos vivendo nessa condição diariamente, há grandes chances de adoecimento mental pela exigência do tipo de serviço, de estar sempre alerta para atividades criminosas, sem momentos plenos de descanso.

“Muitos, por se envolverem muito no trabalho nas ruas, começam a deixar a estrutura familiar de lado, porque a Polícia não tem hora. Em um momento se está em um lugar, mas no outro é chamado para ir em uma operação na fronteira, por exemplo, ou tem um mandado para prender uma pessoa no shopping. E assim, a vida social e particular ficam de lado. Mas isso tem um preço e um peso”, continuou Vinuales. Todos esses aspectos podem ser motivadores para o rompimento de laços e causadores de desavenças.

Para o especialista, que realiza palestras de conscientização dentro da corporação, pedir ajuda, se abrir, falar o que pensa ou ainda chorar e gritar dentro de um ambiente com um psicólogo, porém, permanece sendo um tabu. “Muitos policiais acabam vendo o serviço de psicologia como algo para pessoas fracas – o que é um dos fatores que leva ao adoecimento mais grave também. Policiais, antes de serem profissionais, são seres humanos, e o organismo vai se manifestar de alguma forma quando algo está desestabilizado”, reforçou.

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Índices globais

Todos os anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), há mais suicídios acontecendo no mundo do que mortes por HIV, malária ou câncer de mama, além de mortes em guerras e homicídios. As taxas globais caíram, em média, entre 2000 e 2019, 36%. Na Região das Américas, no entanto, os índices aumentaram em cerca de 17% no mesmo período, sendo mais frequente entre pessoas do sexo masculino.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de morte depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal em 2019, segundo último relatório “Suicide worldwide” – “Suicídios pelo mundo” – da OMS, lançado em 16 de junho deste ano. Trata-se de 700 mil pessoas no dado geral – representando uma a cada 100 mortes no planeta. Ademais, para cada perda, existem ainda as tentativas.

Diante da pandemia, período no qual os índices de quadros depressivos aumentaram no mundo, no DF, houve uma queda de casos de suicídios em 2020 e em 2021. No ano passado, foi registrada uma redução de 17,7% – são 158 mortes em 2019 e 130 em 2020, segundo dados da Secretaria de Saúde da capital. Até setembro deste ano, a diminuição é ainda maior. Atualmente, 2021 registra 70% menos casos de suicídio que em 2020, com 39 registros.

Dos casos registrados neste ano, 2,5% foram acidentais. E, ainda com base no número geral de 2021, 80,74% das vítimas são do sexo masculino, segundo a pasta. “A faixa etária entre os 20 e 34 anos é a que mais registrou óbitos em função de lesões, mutilações ou intoxicações autoprovocadas”, completou em nota à reportagem.

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Entretanto, há o problema da subnotificação dos casos, quando os números não são registrados por motivos diversos. Em boa parte das vezes, isso ocorre devido a pedidos de familiares de vítimas pelo momento difícil, mas é uma questão que compromete a construção de estatísticas confiáveis, conforme explicou o psicólogo.

Justamente para minimizar a omissão dos casos, foi criada a Lei nº 13.819, de 16 de abril de 2019, que torna compulsória a notificação por parte dos estabelecimentos de saúde públicos e privados às autoridades sanitárias, além também dos estabelecimentos de ensino públicos e privados ao conselho tutelar, especificado no artigo 6º.

Onde achar ajuda?

No Brasil, o movimento do Setembro Amarelo foi criado em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Juntos, os órgãos criaram uma cartilha sobre a prevenção ao suicídio, com diversas informações para conscientizar a população. Ela pode ser acessada pelo site.

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O CVV, um dos braços da campanha, é uma organização que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária e gratuita aqueles que necessitam de apoio e precisam conversar. Todas as conversas acontecem sob total sigilo, podendo ser feita por telefone, e-mail, chat e voip, 24 horas por dia, todos os dias.

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Como ajudar?

De acordo com o psiquiatra e conselheiro do Conselho Regional de Medicina do DF (CRMDF), Ulysses Rodrigues de Castro, é primeiro preciso entender que uma pessoa que está em risco precisa, prioritariamente, “ser acolhida e ouvida com muita tranquilidade”. “Essas pessoas geralmente estão passando por uma doença mental grave – 99% das vezes – e temos que orientar e encaminhar à um profissional de saúde. Não é só escutar e aconselhar; precisamos ter um profissional para poder ajudar uma pessoa que esteja em risco de suicídio”, disse.








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