O sonho da casa própria para os brasilienses pode se tornar um pesadelo, principalmente se as condições para acessar condições de crédito se transformarem em um obstáculo. Uma pesquisa da Loft em parceria com a Offerwise, apontou que a dificuldade de conseguir financiamento imobiliário é o principal motivo de desistência na compra de imóvel em Brasília. De acordo com o levantamento, 28% dos consumidores abandonaram uma negociação nos últimos seis meses devido às negativas.
Em relação ao cenário nacional, o percentual na capital federal é quase o dobro da média, número que chegou a 16%. Esse dado diferencia o Distrito Federal das demais cidades analisadas pela pesquisa, onde o custo do crédito – e não o acesso a ele – lidera os motivos de desistência.
A enfermeira Daniela Barros da Silva faz parte dessa estatística. Segundo ela, as tentativas de financiar um imóvel foram diversas, mas sempre recebia uma negativa. Nem mesmo pelos programas sociais as condições de crédito foram aprovadas. “É muito frustrante, porque parece que a gente faz tudo certo, corre atrás de documentos, junta comprovantes, organiza tudo o que pedem, e mesmo assim o sonho da casa própria fica sempre distante. A cada tentativa que dá errado, vem uma sensação de desgaste e de desânimo, porque não é algo simples, envolve expectativa, planejamento de vida e até organização financeira da família”, desabafa.
A sensação, depois de tantas negativas, é de cansaço. “Em alguns momentos chega a passar pela cabeça até desistir, porque parece que nunca vai dar certo. A gente vai perdendo um pouco a esperança, principalmente quando vê outras pessoas conseguindo e você fica sempre na mesma situação, sem aprovação e sem resposta concreta que explique o motivo”, diz.
Para o especialista em mercado imobiliário Daniel Claudino, existem algumas características que ajudam a explicar o motivo desse comportamento ser diferente das outras capitais. Uma delas é o valor dos imóveis.
“O metro quadrado da capital está historicamente entre os mais caros do país, o que empurra o valor médio das operações para cima. Ticket mais alto exige entrada maior, renda comprovada maior e enquadramento mais apertado nas linhas de crédito”. De acordo com ele, há também o fator do perfil de renda. “Ao lado do funcionalismo estável, existe um contingente relevante de comissionados, prestadores de serviço e autônomos, cuja comprovação de renda tende a ser mais difícil na régua atual dos bancos”, acrescenta.
Na visão de Nathalia Costeira, gerente de comunicação da Loft, há também um terceiro elemento que influencia no cenário: a demanda por imóveis menos sensíveis à oscilação do ciclo econômico. “Brasília se destaca pela atratividade do segmento de alto padrão. Isso pode fazer com que os compradores não enxerguem os juros ainda em patamar elevado como um impeditivo para iniciar a busca por um imóvel. Eles avançam nessa jornada de compra, entram com o pedido de financiamento e acabam encontrando dificuldades justamente nessa etapa de aprovação de conseguir o crédito. Por isso que em Brasília o acesso ao financiamento aparece com uma barreira mais relevante do que o custo do crédito em si”, explica.
Mas afinal, o gargalo na hora da aprovação está relacionado às taxas muito altas ou o perfil cadastral que não se enquadra nas exigências atuais do banco? Na avaliação dos especialistas, os dois fatores se somam, pelo menos na maioria dos casos observados no mercado imobiliário, mas há outros elementos no quadro nacional.
“A poupança, principal fonte tradicional do crédito imobiliário, teve captação líquida negativa de quase R$ 63 bilhões em 2025. Com funding mais escasso, os bancos ficaram mais seletivos. São cotas de financiamento menores, entradas maiores, critérios mais duros. E é razoável supor que o cenário de endividamento e inadimplência elevados das famílias brasileiras também esteja tornando a análise de crédito mais rigorosa na ponta. Quem chega ao banco com renda já comprometida tem a aprovação dificultada, e o próprio banco, diante do risco, aperta a régua para todos”, avalia Claudino.
Para Costeira, uma parcela significativa das negativas ocorre por problemas operacionais como inconsistência no preenchimento dos formulários de documentação. “Às vezes é por uma informação que está divergente do documento e do que é colocado no formulário. Esse processo ainda é bastante manual. Esses pequenos erros podem gerar retrabalho e até a reprovação do crédito. Além dos critérios de crédito dos bancos, a qualidade da documentação que a pessoa envia também tem um peso importante na reprovação ou na aprovação”, argumenta.
No entanto, o cenário não é dos piores. Há a possibilidade de reverter esse quadro de forma gradual e condicionada, a depender do ciclo econômico que o país deve passar nos próximos meses. Com a queda da Selic – taxa básica de juros da economia brasileira – prevista para encerrar o ano na casa dos 13% a 13,5%, o crédito tende a ficar mais barato e, com o tempo, mais acessível na aprovação.
“O que eu não faria é prometer uma virada rápida. A inflação segue acima da meta e o Banco Central tem sinalizado cautela. Para quem pretende comprar em Brasília, o caminho prático é preparar o cadastro desde já: organizar a comprovação de renda, reduzir comprometimento com outras dívidas e simular em mais de um banco. E lembrar que a decisão de compra pode ser separada da decisão de taxa, graças à portabilidade”, defende Claudino.