“Eu estava nos penúltimos bancos do ônibus. Tinha até três pessoas em dois assentos. No corredor havia gente em pé e até sentada em algumas cadeirinhas no meio do ônibus. O som estava muito alto e as pessoas até dançavam no corredor do veículo”. A narrativa é de Enayra Alves, 23 anos, uma das sobreviventes do acidente com um ônibus em Luziânia (GO), Região Metropolitana do DF. A jovem deslocou o osso do cotovelo e não tem previsão para retirar o gesso.

Ontem ela foi até a 1ª delegacia distrital de Luziânia prestar depoimento e retirar a mochila e a barraca que foram recolhidas pela Polícia Civil de Goiás após o acidente. Ainda abalada e com um dos olhos inchados, a jovem revela que sempre frequenta festas raves, mas esta tinha sido a primeira vez em que a skatista teria embarcado em ônibus junto com amigos para o evento.
O veículo em que ela estava levava, ainda, outros 62 passageiros. Segundo a polícia, o ônibus estava superlotado. Duas jovens morreram. Uma delas, Gleycianne Chaves Martins, 17 anos, foi enterrada ontem no cemitério de Taguatinga. Cerca de 150 pessoas entre amigos, familiares e os professores da escola onde ela estudava prestaram as últimas homenagens.
No fim da tarde de ontem o corpo da segunda vítima do acidente, Letícia Augier de Figueiredo, 22 anos, foi reconhecido no Instituto Médico Legal (IML) de Luziânia pelo pai da menina, o primeiro-sargento do Corpo de Bombeiros do DF Giovanni Boscoli, 44 anos. Ele só soube do acidente e da morte da filha por volta das 13h30 de ontem. “Ela costumava passar o fim de semana fora, mas ligava e avisava. Letícia era corretora de imóveis”, conta. O corpo será enterrado hoje, no Cemitério Campo da Esperança, às 16h30.
Motorista deve se apresentar hoje à polícia
Segundo testemunhas, o motorista do veículo, Eli Rodrigues Pereira, teria parado entre três e quatro vezes para comprar bebida alcoólica. A expectativa é de que ele se apresente hoje à Polícia Civil de Goiás. A princípio, o indiciamento do condutor seria pelo crime de homicídio culposo – sem intenção de matar. “Não necessariamente o uso de bebida alcoólica configura um homicídio doloso”, esclarece o delegado da 1ª delegacia distrital de Luziânia, Cleber Martins.
O delegado destaca que o veículo passou por perícia e apenas o tacógrafo pode aferir a velocidade correta em que o ônibus estava no momento do acidente, mas passageiros relataram à polícia que o veículo estava a pelo menos 120 quilômetros por hora. O ônibus estava com o letreiro de escolar, mas o delegado destaca que não há confirmação se de fato o veículo estava sendo utilizado para o transporte de alunos da rede pública de ensino. “Um dos organizadores disse que tinha o hábito frequente de alugar ônibus para esse tipo de fim. Ele ainda relatou que noticiou sobre o aluguel em redes sociais e os interessados pelo transporte fizeram uma espécie de vaquinha para arcar com as despesas. Eles contrataram o ônibus de forma verbal diretamente com o atual dono e de seguiram para Luziânia”, conta. Até o fechamento desta edição, o JBr. não conseguiu falar com Eli.
Bebidas e alta velocidade
O motorista do ônibus, que, segundo alguns passageiros, dirigia em alta velocidade, teria perdido o controle da direção ao passar por uma rotatória e invadiu o terreno da fazenda Palmital, próxima à estrada que dá acesso ao local da festa. O ônibus percorreu 200 metros, desgovernado, até virar. Com o impacto, a cerca foi destruída.
Segundo Vítor Itaquê, organizador da excursão Vibes For Vision, no embarque o motorista não tinha sinais de embriaguez. No decorrer da viagem, porém, ele teria parado e pedido que um passageiro comprasse bebidas alcoólicas para ele. Em seguida, teria ocorrido uma discussão em função da parada não prevista. A partir dali, o motorista teria passado a dirigir acima da velocidade da via.
A festa, Goa Gil, foi nos arredores do Lago da Enseada e organizada pela empresa Forest Family, especializada em raves. A previsão era que o evento fosse até as 16h do dia seguinte, mas terminou às três da manhã.