Menu
Brasília

A infância e suas diferenças digitais

Arquivo Geral

12/10/2013 9h00

Somente dois anos os separam. Gabriel tem três anos de idade, Mikael tem cinco. Ambos pertencem a uma geração que nasceu plugada. Contudo, mesmo em meio a tantos pontos em comum, eles vivem em universos bem distintos. Enquanto Gabriel tem performance em jogos de videogame capaz de causar inveja em muito adulto, Mikael jamais manuseou um mouse de computador e, muito menos, se aventurou em um jogo da web. Mas, afinal, quais são as consequências desse abismo tecnológico que separa muitas crianças do DF?
 
Gabriel (foto ao lado) mal conseguia ficar de pé sem perder o equilíbrio, e os olhos já brilhavam quando via o celulares dos pais. “Ele é muito inteligente. Para colocar os jogos que deseja, nem precisa de ajuda. Ele domina   muitos mecanismos desse mundo digital. Vai mexendo e descobrindo tudo sozinho”, conta com orgulho a mãe, Thaysa Nardelli Nogueira.
 
Segundo ela, o filho sempre demonstrou interesse pelos recursos tecnológicos. “Eu o deixava assistindo vídeos no computador dos desenhos que ele gostava. Com o tempo, ele   aprendeu a ligar e desligar”, relata. 
 
Thaysa destaca a diferença entre as crianças da era digital e das gerações passadas: “Na minha época, as brincadeiras eram com patins, pique-esconde. Hoje, tudo é direcionado à informática”, conta. De acordo com a mãe, a informática também é uma aliada para manter o filho sob controle. “Quando ele está muito agitado, acabo recorrendo aos aparelhos tecnológicos”.  
 
Ponto de Vista
 
Para a psicopedagoga Angélica de Abreu, o abuso da tecnologia já é tem chamado a atenção de especialistas da área. “Existem casos em que adolescentes ficam mais de 24 horas ininterruptas no computador, sem comer nem levantar para ir ao banheiro. Para evitar esse tipo de excesso, é importante que os pais acompanhem de perto os acessos dos filhos”, declara. Ela destaca que cabe aos pais impor os limites necessários. “A tecnologia faz com que as crianças se sintam estimuladas por diversas fontes de conteúdo, adquiram senso crítico para selecionar o que é relevante e o que não é, além de oferecer  a opção de se aprofundar nos temas de interesse”, reconhece.
 
Habilidade
 

As gêmeas Isabela e Sofia, 3 anos, (foto ao lado) são fãs dos aparelhos eletrônicos. O pai delas, o servidor público Roberto Nascimento, relata que a duplinha demonstra habilidade. “Elas sabem manusear, tirar foto com o celular e têm uma memória visual gigantesca”, observa. Para ele, essa parece ser uma característica comum a crianças dessa idade. “Essa geração tende muito para esse lado. A alfabetização delas, por exemplo, teve início quando eu comprei um computador que  ensinava  as vogais e seus respectivos sons”, disse.
 
No vaivém de informações, é preciso estabelecer limites para as crianças, afirma o pai: “No meu caso, elas dão o limite sozinhas. Tem momentos que elas viram e falam que não querem mais mexer no computador e partem para outras brincadeiras”, relata.
 
Sem laboratório em 33% das escolas
 
No DF, uma em cada três  escolas públicas   não tem laboratório de informática. De acordo com a Secretaria de Educação, o ensino de informática não é obrigatório, mas a disciplina é introduzida em algumas escolas e adaptada conforme o Projeto Pedagógico da unidade.
 
O Jornal de Brasília percorreu algumas escolas  e constatou um cenário precário. Nas unidades que contavam com laboratório de informática, além do mobiliário defasado, a quantidade de computadores era insuficiente. Na Escola Classe 66, no Sol Nascente, existem apenas dez  computadores para atender a demanda de 1,4 mil alunos. Para o vice-diretor da instituição, Robson Gomes,  a área de informática carece de uma atenção maior. “Dos computadores que temos, somente seis estão funcionando. Acredito que a tecnologia deva ser usada a favor da educação, como uma aliada”, relata.
 
Na Escola Classe 2 do Guará, a realidade é semelhante. Segundo a  vice-diretora Claúdia Nunes,  durante as aulas os alunos precisam dividir os computadores. “Mantemos o laboratório com recursos próprios da escola”, comenta.
 
Mikael
 
Aos cinco anos, Mikael (foto abaixo) ainda não frequenta a escola, por falta de vaga, e nunca viu um computador de perto. Sua diversão é brincar no  quintal de casa com a irmã, Amanda, de um ano. “Nós não temos internet nem computador. O ponto máximo da tecnologia para a gente é a televisão. Eu, por exemplo, não tenho e-mail”, diz a mãe, Adriana Mendes, dona de casa.
 

Apesar de confessar o desejo de ter acesso às tecnologias, a mãe reconhece que mesmo se a situação fosse diferente, não permitiria que o filho mergulhasse no mundo virtual tão cedo. “Criança tem que brincar na terra, se sujar e se divertir no mundo real”, aponta. Mas assume que podem haver consequências ruins: “Ele vai acabar ficando em desvantagem em relação às outras crianças. E eu não vejo como isso pode mudar na prática. Eu não trabalho e meu marido é pedreiro. Sobrevivemos com R$ 400”, diz.
 
A faxineira Marcilene da Luz, mãe de Cauã Júlio, 4 anos, e Kaylany, 5, revela que os filhos também nunca tiveram contato com aparelhos eletrônicos, muito menos com a internet. “Eu cuido dos meus filhos sozinha. O que ganho é muito pouco e mal dá para comer. Por isso, internet é um sonho distante”, relata.
 
Ela ressalta que não há incentivo para a inclusão digital. “A escola seria o lugar ideal para  o primeiro contato, mas não há um laboratório que atenda a todos”.
 
Benefícios incontáveis em sala de aula
 
A tecnologia é alvo de estudos sobre maneiras eficazes de inserir o computador nas salas de aula. De acordo com a psicopedagoga Thaís Sandré Ribeiro, a informática deve servir como estímulo à criação, ao desenvolvimento do raciocínio lógico e auxiliar no processo de interação. “O uso da tecnologia no aprendizado infantil possibilita desenvolver diferentes estratégias, permitindo aos alunos que aprendam de maneira lúdica, dinâmica e prazerosa”, explica.
 
Ela ressalta que a forma ideal de utilizar os recursos digitais é recriando os meios de aprendizado dos conteúdos transmitidos em sala de aula. “O conteúdo da escola regular pode ser ensinado de inúmeras maneiras. Por exemplo, ao contar uma história para crianças em processo de alfabetização, uma ideia é fazer uma lista de palavras on-line e pesquisar seus usos e significados. São estratégias simples que motivam, atraem e enriquecem o aprendizado”, ilustra.
 
Para o diretor de imprensa do Sindicato dos Professores (Sinpro), Cleber Soares, a situação dos laboratórios de informática é preocupante. “Muitas vezes,  a rede não está instalada. Outras, não tem o profissional especializado”, diz.
 
Segundo ele, não existem projetos pedagógicos para a área. “Sem a tecnologia, não se potencializa o aprendizado, não desperta o interesse do aluno e isso afeta diretamente a qualidade do ensino”.
 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado