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Brasília

A água do DF é pouca e, para piorar, é maltratada

Arquivo Geral

05/06/2013 9h12

A má gestão dos recursos hídricos do Distrito Federal compromete o futuro do abastecimento da região. Daqui a 20 anos é possível que os brasilienses sofram com a escassez de água, além, também, da falta de vegetação nativa. Ou seja, o caos pode se instalar na capital do Brasil caso nada seja feito, como tem mostrado uma série de reportagens do Jornal de Brasília. Para analistas, a culpa é do governo, que pouco prioriza a questão nos seus debates e projetos, além de não fiscalizar os poucos mananciais e córregos na área, como mostra hoje a segunda reportagem da série. 

 

Atualmente, de acordo com dados da Caesb, o consumo de água dos moradores é de 7,2 metros cúbicos por segundo. Contudo, esse número chega a 8,47 metros cúbicos durante o período de seca, quando a oferta disponível é pouco maior: 8,5 metros cúbicos por segundo. 

 

Nos últimos anos, em virtude do forte crescimento populacional e da intensificação das atividades econômicas nos setores agropecuário, industrial e de serviços no Distrito Federal, verifica-se uma forte pressão sobre os recursos naturais. Por isso, a água disponível para o uso humano no DF é ainda 20 vezes menor do que a média brasileira. Na região metropolitana de Brasília são apenas 1.338 metros cúbicos porano para cada habitante. Para a Organização das Nações Unidas (ONU), a situação é considerada um estresse hídrico. 

 

“A água de boa qualidade, que pode ser ingerida, está se tornando cada vez mais rara por aqui”, apontou o professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), Oscar Cordeiro Netto. Para o especialista, o governo, junto à população, deve tomar uma série de atitudes que podem evitar a escassez do recurso. “A gente pode pensar em educação em vez de gestão. Além disso, a preocupação individual, dos produtores rurais e industriais, também pode reverter o quadro atual”, avaliou. 

 

Nova estação causa polêmica

 

A resposta definitiva para a falta de abastecimento de água, que pode gerar problemas ainda maiores, seria construir mais uma estação de captação no DF. A possibilidade mais  atual vem do Lago Paranoá e, segundo a Caesb, está perto de se tornar realidade, a partir da licitação e dos recursos liberados de quase R$ 550 milhões, vindos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do GDF. Para a deputada Liliane Roriz (PSD), a ideia é absurda e lesa um bem dos brasilienses. 

 

“Quando a gente pensa no Lago Paranoá abastecendo parte da população, esquecemos do tratamento que aquela água precisa receber e isso é mais custo. Hoje, temos esgotos clandestinos indo direto para aquela água. Fora que o Lago já tem um objetivo próprio, que é de mudar a umidade do ar na seca, quando o brasiliense mais sofre. Quero entender como isso vai ser possível”, argumentou a parlamentar. 

 

Para a deputada, o abastecimento não é prioridade. Pensar em uma solução rápida seria manobra política. “Temos licitação e projeto, mas o Lago tem capacidade?”, questiona. O defensores da proposta apontam que seriam beneficiados mais de 600 mil habitantes, sendo 300 mil só em Sobradinho, cidade que hoje carece de abastecimento. 

 

 

Consciência ambiental

 

 

Em vez de pensar em abastecimento imediato, como medida paliativa, e gestão de recursos hídricos, o governo deveria priorizar a conscientização ambiental, sobretudo das águas. A opinião é da fundadora do projeto Escola da Natureza, no Parque da Cidade, Vera Catalão. O local, simples e sem grandes investimentos, mostra a falta de ação do GDF no que diz respeito à educação para futuro sustentável. 

 

“Não recebemos recursos do governo para nada aqui, nem a manutenção da escola. Queríamos, por exemplo, fazer uma cisterna para captação e reaproveitamento de água da chuva, mas estamos impossibilitados porque falta verba”, desabafa Vera. Tudo o que escola fez até agora foi com o apoio de parceiros do projeto, que recebe, pelo menos, 50 alunos de escolas públicas semanalmente. 

 

Ela diz que a integração das crianças com a água é essencial. “É necessário que a Secretaria de Educação priorize o tema nas escolas. Mas vivemos de modismo nesse aspecto. Estudos mostram que a oferta de água doce está acabando, mas ninguém toma consciência para que, no futuro, isso seja evitado”, avalia. 

 

Como parte do processo de poupar água, Vera mostra aos alunos a técnica do gotejamento nas hortas. Porém, isso ainda é feito na escola com água potável e a fundadora lamenta. “Poderíamos ter o reaproveitamento aqui, mas o projeto não é prioridade do governo”, disse. Antigamente, em 2005, ainda existia no local a Casa D´Água, que mostrava aos estudantes o quanto se gasta diariamente de água. A ideia era conscientizar os alunos. Porém, por falta de investimento, a área acabou virando um refeitório. 

 

ADASA

 

O diretor da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), Diógenes Mortari, acredita que o governo tem feito a gestão correta dos recursos hídricos da região. Para ele, a agência, junto ao GDF, tem se debruçado em cima da questão, o que vai na contramão da realidade observada pela reportagem. “Temos um sistema de gerenciamento de águas que prioriza o abastecimento, o controle e qualidade da distribuição no DF.”

 

 

O diretor do órgão ressalta o controle quantitativo e qualitativo das águas. “Estabelecemos metas de qualidade para as 40 bacias do DF e estamos cobrando que isso seja obedecido”, garante. Para ele, nos próximos anos, se os projetos de captação de água no Bananal, Corumbá e Lago Paranoá saírem do papel, com investimentos de mais de R$ 3 milhões, a oferta de água na região deve dobrar. Será? 

 

 

Córregos deixados ao deus-dará

 

 

Na data em que comemora-se o Dia do Meio Ambiente, a natureza do DF pede socorro, especialmente as águas, já tão escassas na região. Há três anos,  uma pesquisa do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB mostrou que 45% das microbacias da região estavam em situação degradante. A reportagem do Jornal de Brasília foi a algumas delas e constatou que nada foi feito desde então. Ao contrário, a situação está pior e causa danos diretos às comunidades próximas.

 

Onze córregos foram analisados na pesquisa. As imagens são fortes. Cinco deles tinham Índice de Sustentabilidade de Bacias Hidrográficas (ISBH) muito abaixo do recomendável, o que aponta para danos ambientais irreversíveis. O indicador levou em consideração aspectos como a qualidade da água, as políticas de controle e manutenção das bacias e a situação econômica da região onde estão localizados.

 

Piores

 

No topo da lista dos piores estava o Córrego Currais, próximo a Ceilândia. Por lá, a realidade das águas remete a um cenário de guerra. É lixo acumulado por toda a parte. E os restos incomodam moradores do Núcleo Rural, que sofrem com insetos, ratos e o forte cheiro de esgoto. “É triste vivermos assim. Antigamente, as crianças podiam tomar banho lá. Agora, nem pensar. Não dá para chegar perto”, desabafou a dona de casa Domingas Francisco, 58, que vive com a família numa chácara próxima aos entulhos jogados no córrego.

 

 

Antiga fonte de captação de água, o Córrego Currais deixou de ser utilizado por conta da degradação de suas águas. A poluição inviabiliza o reaproveitamento de suas fontes. Mais à frente, próximo a Brazlândia, o Córrego Barrocão, de propriedade da Caesb, tinha sacos plásticos jogados no início do manancial. “A questão da proteção das águas e abastecimento da população claramente não está no topo da agenda de prioridades políticas do governo. O resultado é esse”, salientou o docente da UnB, Oscar Netto. 

 
 
 

 

 

 

 

 

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