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Brasília

A aflição e a incerteza de quem os procura

Arquivo Geral

13/08/2013 10h00

A aflição da procura, a lembrança do último momento e a incerteza do retorno são só alguns dos sentimentos que acompanham os familiares de uma pessoa desaparecida. De acordo com a  Secretaria de Segurança, apenas  de janeiro a abril deste ano, foram 1.151 registros desta natureza  no Distrito Federal. 

 

O mistério do desaparecimento do estudante Fellipe Dourado Paiva, de 22 anos, continua. Há quatro dias, família e amigos não têm notícias dele. A cada momento, são feitas novas tentativas  por informações concretas que levem à localização do aluno de educação física. Na tarde de ontem, a irmã dele, Priscila Dourado Paiva, 26 anos; a advogada da família, Patrícia Torres; e colegas de Fellipe prestaram depoimento na 2ª DP (Asa Norte).

 

 

Telefonema

Na manhã de ontem, a família atendeu mais uma das diversas ligações recebidas até o momento. Um morador    da 707/708 Norte disse que entre a madrugada e o início da manhã de sábado um jovem gritou pedindo socorro próximo ao seu prédio. No entanto, não se sabe se essa pessoa era Fellipe. 

Após ter conhecimento do fato, policiais da 2ª DP estiveram no edifício e coletaram as imagens do circuito de câmeras que podem ter flagrado o   jovem, mas até o fechamento desta edição, Fellipe ainda não havia sido localizado. 

Alunos de educação física do UniCeub, onde ele estava antes de desaparecer, também foram procurados pela família. Os parentes também queriam saber se alguém avistou o estudante no Colégio Militar de Brasília (CMB) na manhã de sexta-feira, para onde ele teria ido.

 

“Passei em todas as salas das turmas de educação física, mas ninguém se manifestou de ter visto o Fellipe durante as palestras de esporte e saúde. Estamos contando com a divulgação das fotos dele como meio de conseguir encontrá-lo, pois ele saiu sem celular e não tinha nem cartão de crédito”, explica Priscila, irmã do jovem. 

 

A bancária ressalta que Fellipe foi deixado de carro pelo pai para o primeiro dia de aula no UniCEUB na sexta-feira, por volta das 7h50. Ele voltaria para a casa, no Guará, de ônibus. O jovem aparece em uma das imagens  saindo do local às 8h10. “A minha mãe ainda perguntou se ele queria algum dinheiro além da passagem, mas o Fellipe disse que não precisava, pois almoçaria em casa. Só que ele não voltou mais”, aponta.

 

Família pensa em várias possibilidades

 

Embora tenha esperanças de encontrar Fellipe dentro das próximas horas, a família imagina que algo grave possa estar acontecendo. “Ele toma remédio controlado, mas, além disso, Fellipe pode estar impedido de alguma forma de manter contato com a família. Ele pode estar transtornado ou ter sido vítima de algum mal. Passa tudo pela nossa cabeça”, explica a irmã.

 

Abalada, a mãe dele, Marília Dourado,   48 anos, destaca as características do filho. “Ele é muito quieto e tímido. Fellipe é saudável,  é atleta, pratica esportes e luta. Algo de muito grave está acontecendo, pois nunca deixou de se comunicar com a família”, aponta.

 

O delegado-chefe da 2ª DP (Asa Norte), Rodrigo Bonach, esclarece que desde sábado equipes de investigação estão em diligências nas buscas pelo jovem. A polícia ainda não descarta nenhuma possibilidade. O UniCeub tem colaborado com as investigações.

 

Motivos que levam o sumiço 

 

Dos 1.151 casos de desaparecimento registrados no DF, 383 continuavam sem solução até maio, segundo o último levantamento realizado pela Secretaria de Segurança Pública. 

 

Segundo a pasta, grande parte das pessoas desaparecidas são crianças e adolescentes que fugiram de casa por conflitos familiares, violência doméstica, uso de drogas ou ainda perda por descuido dos pais. Entre os adultos, o sumiço geralmente está ligado ao uso de drogas ou a hospedagem na casa de namorados ou amigos. 

 

O delegado-chefe da 31ª DP (Planaltina), Érico Mendes, diz que depois de um desaparecimento, o primeiro passo recomendado é registrar o boletim de ocorrência na delegacia mais próxima. “Para ajudar nas investigações, é bom que o denunciante apresente descrições do último contato, como o lugar onde a pessoa foi vista pela última vez, a roupa que estava usando”, diz.

 

Drogas


Há cinco meses, Cessi Coátio, 32 anos, sumiu de casa. O drama familiar começou com o fim do relacionamento dela com o pai do filho mais novo. “Ela teve depressão, chegava em casa bêbada e depois começou a usar drogas. Antes de tudo ela possuía um cargo de confiança em um ministério e amava os filhos”, relata Janieire Cóatio, 33, irmã da desaparecida. Por ser usuária de crack há dois anos, a família acredita que a mulher esteja envergonhada e, por isso, decidiu não voltar mais para a casa. 

 

“No início, ela entrava em contato para perguntar sobre os filhos, eu avisava que estavam bem, mas fui recomendada a não informar mais para que ela retorne para casa por amor aos filhos”, aponta a irmã. 

 

A ideia de procurá-la foi de dois filhos de Cessi, o garoto, de 14 anos, e uma menina, de 12. Eles divulgaram em uma rede social a foto da mãe antes e depois das drogas. “Todos nós temos sofrido com o sumiço dela, sentimos muita saudade”, revela a menina. “Tenho pedido ajuda para compartilharem a foto da minha mãe, até agora foram 370 mil compartilhamentos, mas ainda não encontramos”, lamenta o menino. Cessi ainda tem um filho de 10 anos que agora mora com a madrinha. A irmã acolheu os dois sobrinhos. A mulher foi vista pela última vez no Gama.

 

A angústia por não ter notícias


Já se passaram oito meses desde que Artur Paschoali, 20 anos, desapareceu. No dia 22 de dezembro de 2012, ele sumiu no distrito de Santa Teresa, no Peru, depois de sair para tirar fotos. Segundo os pais, ele foi visto pela última vez em um restaurante no hotel onde estava hospedado e também trabalhava para cobrir as despesas da viagem.

 

Os pais do jovem, o administrador de empresas Vanderlan Vieira, 43 anos, e a arquiteta Susana Paschoali, 52 anos, confirmam que continuam com as buscas. Mas devido aos gastos, até agora estimados em R$ 80 mil, eles têm se sentido limitados. “Recebemos doações financeiras de grupos envolvidos com o Artur”, informa a mãe. 

 

A família acredita que Artur está sendo vítima de tráfico de pessoas e pede orações para que o jovem seja libertado. “Ele está vivo, temos certeza, mas estamos impotentes para encontrá-lo”, ressalta a mãe. 

 

Sobre os desaparecidos, a família sugere que haja um banco de dados inteligente com as informações de vítimas. “Corremos contra o tempo. É preciso estratégia para agir com rapidez, mas no Brasil não há, deveria haver pelo menos uma norma sobre como agir, a obrigação de fazer contato com a comunidade, divulgar na mídia nacional com cartazes e informações, acompanhamento de processos, auxílio financeiro para as buscas e investigações e cobrança de resultados. Afinal, são vidas”, avalia o pai. 

 

Vanderlan diz que eles pretendem lançar um livro sobre a história do filho e, assim, arrecadar dinheiro para continuar investindo nas buscas.

 

Fugiu de casa


A adolescente Lethicia Scarlet, 13 anos, fugiu de casa há 21 dias. A mãe, a brigadista Solange Rodrigues Ferreira, 37 anos, está desesperada à procura da menina, que apresenta graves problemas de saúde. “O pulmão dela não está bom, ela possui anemia, déficit de atenção e asma. Inclusive, ela parou de tomar os remédios controlados. Estou muito preocupada porque ela requer muita atenção devido a estes diagnósticos”, explica a mãe.  

 

A família mora no setor P Norte, em Ceilândia. Lethicia fugiu de casa depois de uma briga familiar. “Eu a proibi de fazer certas coisas erradas que vinha fazendo, mas para o seu próprio bem. Ela, infelizmente, não entendeu e agora está correndo risco de vida”, lamenta.

 

O Jornal de Brasilia pediu à SSP a lista dos desaparecidos no DF e disponibilizou a capa do jornal para publicá-la, mas não houve interesse do governo Agnelo na divulgação.

 

Ponto de Vista


A psicóloga e professora na Universidade de Brasília (UnB)  Eliana Mendonça relata que qualquer família está vulnerável a ter um parente desaparecido. “Observamos que a presença de alguns fatores de risco podem agravar a situação, como a dependência química e o alcoolismo não tratados, conflitos familiares e conjugais, violência física e verbal,  segredos pesados associados a mecanismos defensivos. Ressaltamos que os não-ditos familiares podem se tornar em malditos”, acredita. 

 

Para a especialista, quando a família nega problemas evidentes, “os círculos viciosos aprofundam a escalada da droga e o desaparecimento pode representar uma estratégia desesperada de solução dos problemas, mas infelizmente acarreta uma cisão intransponível na história e no sistema familiar”, explica. 

 

Segundo a psicóloga, o desaparecimento de um membro da família inaugura um ciclo de grandes sofrimentos associados a um luto e  a impossibilidade de acesso a uma verdade.

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