É uma reação em cadeia: a visível falta de policiamento e de iluminação propicia a criminalidade e, consequentemente, a sensação de insegurança e vulnerabilidade. O cenário é a 711 Norte, e os protagonistas desta história são os comerciantes e moradores da região. A situação piora à noite, mas isso não significa que a população se sinta segura ao menos à luz do dia.
No Plano Piloto mais de 1,2 mil estabelecimentos fecharam as portas em razão da insegurança. Levantamento da Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF) mostra que apenas na 711 Norte, aproximadamente dez lojas já encerraram as atividades. As queixas são, na maior parte das vezes, as mesmas: a presença de criminosos, o tráfico de entorpecentes e a prostituição sem qualquer intervenção da polícia.
Ao cair da noite, moradores de rua, usuários de drogas e traficantes e garotas de programa invadem as redondezas. A falta de serviços públicos básicos – iluminação eficiente e policiamento ostensivo – em uma das áreas mais privilegiadas da capital impõe à comunidade mais que um sinal de alerta: a sensação de que a segurança, que deveria ser fornecida pelo próprio Estado, passa a ser de responsabilidade de cada um.
Muitos comerciantes e moradores da quadra chegam a fazer investimento pesado para tentar garantir a integridade deles mesmos e de seus patrimônios. Compram grades, portões, cadeados, refletores de iluminação e circuito interno de televisão. Mas o aparato nem sempre intimida os criminosos. Embora as principais ações aconteçam quando o céu já está escuro, a claridade não é motivo de inibição para chantagens, ameaças e ofensas por parte de pessoas mal-intencionadas.
Pedidos
Durante a manhã e a tarde, o vaivém de pessoas suspeitas é grande na região. Segundo o relato de comerciantes, elas entram nos estabelecimentos para pedir comida ou dinheiro, mas nem sempre aparentam ter simplesmente essa intenção. Então, o problema começa quando a resposta não agrada. Trabalhadores dizem que são intimidados com ameaças de roubo e até de morte.
O tráfico de drogas também acontece à luz do dia. O uso dos entorpecentes ocorre sem nenhum pudor. Lojistas e empresários se tornam vítimas de um esquema que aos poucos ocupa a região central do Distrito Federal.
Luz
À noite, as condições se tornam ainda mais propícias ao crime. A ausência de iluminação pública na W4 Norte, local onde se concentra a maior parte dos comércios, faz com que muitos empresários precisem instalar refletores na área externa do estabelecimento.
Apesar de ser área pública quem custeia a iluminação por ali são os próprios comerciantes. Isso porque, caso contrário, a vulnerabilidade aumenta.
“Aqui é um point de crack”
Há cinco meses, Felipe Louly, 32 anos, e Thiago Roquete, 30, abriram uma distribuidora de bebidas e conveniência na quadra. Em pouco tempo, os sócios identificaram a onda de violência. O estabelecimento, que fecha as portas por volta da meia-noite, se torna atrativo para suspeitos. “Aqui é um verdadeiro point de crack. A prostituição também favorece a vinda de pessoas mal-intencionadas. Essas quitinetes são verdadeiras pensões disfarçadas”, conta Thiago.
Como precaução, a dupla tenta fechar a distribuidora mais cedo, quando pode. Outra forma de manter a segurança é evitar que apenas um dos dois fique sozinho no local. “Instalamos refletores na parte externa da loja porque simplesmente não existe iluminação pública. Investimos em quatro câmeras de segurança, grades e planejamos contratar mais dois funcionários. O problema é que mesmo assim, a sensação é de que qualquer hora alguém vai chegar e nos assaltar. Estamos vulneráveis”, aponta Felipe.
Empresários pedem socorro ao governo
Dono de uma padaria na quadra há 11 anos, Geraldo Magela, 43, já foi assaltado cinco vezes. O comerciante aponta que os usuários de drogas são violentos e chegam a ameaçar funcionários quando alimentos são negados. “É um transtorno psicológico diário e imenso. Eles agem com intimidação, vêm aqui e saem com os bolsos cheios. Quando a gente intervém, falam que vão voltar para roubar”, diz.
Magela investiu em quatro câmeras de monitoramento e grades. Ao todo, foram gastos mais de R$ 4,8 mil com o esquema de segurança. Todos os dias, o autônomo fecha o estabelecimento às 22h. Ele destaca que à noite a situação fica ainda mais preocupante.
“Já pensei até em sair daqui. Perigoso é, mas a gente precisa trabalhar. Falta apoio do governo para retirar usuários de droga, moradores de rua e garotas de programa daqui. Para eles, tanto faz ter ou não câmeras. Eles agem do mesmo jeito e não estão nem aí. A segurança é mais para os funcionários, caso aconteça alguma coisa”, ressalta.
“Calamidade”
O presidente da Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF), Cléber Pires, classifica a situação da 711 Norte como um estado de calamidade. O empresário ressalta que praticamente todas as lojas já foram abertas por ladrões em razão da falta de segurança, do tráfico de drogas e da ausência de iluminação e policiamento. Ele conta que o comércio de drogas é explicito principalmente entre os blocos D, C e E.
“Já houve diversas reclamações ao governo, mas ninguém faz nada nem resolve nada. A área está tomada pela prostituição. Os comerciantes estão em estado de desespero, fechando as portas, e nada é feito pelo GDF”, reclama.
Pires deve protocolar hoje um ofício na Secretaria de Segurança Pública, solicitando providências na falta de segurança. “Já fiz alguns apelos pessoalmente e solicitei socorro ao secretário de Segurança Pública. Essa situação causa terror e desespero aos empresários, que pedem socorro. Muitos estão esperando os contratos dos aluguéis acabarem para sair da região. Outros já baixaram as portas. Os comerciantes não têm um minuto sequer de paz e nada é feito”, relata.
Situação de vulnerabilidade
Funcionários de um loja de ferramentas, instalada há cerca de 30 anos na quadra, também se sentem vulneráveis. A comerciante Tatiana Lima, 35 anos, destaca que nos últimos meses precisa fechar o estabelecimento pontualmente às 18h. Isso porque depois deste horário, a região se transforma em um verdadeiro caos. “Faltam segurança e iluminação. Com isso, começa a aparecer a prostituição. O número de usuários de droga, atrelado aos moradores de rua, só aumenta. Depois das 18h, fica ainda mais perigoso porque não tem iluminação pública”, ressalta.
Para Tatiana, o governo esqueceu de investir em serviços básicos de infraestrutura. A loja dela já foi alvo de pequenos furtos, que por sorte não se transformaram em um grande prejuízo. Como forma de minimizar os efeitos da insegurança, há três meses a autônoma investiu no reforço de travas e mais três grades com oito cadeados. “O público que passa por aqui nos intimida, mas eu acabo enfrentando. Apesar do medo, eu preciso encarar. Aqui é o meu patrimônio”.
Uma moradora da quadra, de 43 anos, revela o medo de sair de casa. “Tenho receio de eles forçarem a porta, empurrarem, ou mesmo de avançarem e tomarem a chave para entrar”, explica.
Certa vez, ela procurava a chave dentro da bolsa quando foi surpreendida por um homem. Para se esquivar da situação, a mulher começou a caminhar, mas percebeu que foi seguida. “Comecei a gritar e foi quando ele saiu correndo”, diz.
Versão Oficial
O secretário de Segurança, Sandro Avelar, garante que existem policiamento ostensivo e atuação presente da Polícia Militar na região. Mas, segundo ele, a situação dos usuários de drogas é tratada com a devida cautela. O chefe da pasta afirma que eles são abordados e levados para a delegacia, mas em pouco tempo voltam às ruas. “A legislação não prevê prisão para usuários. Eles são levados à delegacia, onde é formalizado um termo circunstanciado”, explica. No caso do tráfico de drogas, o secretário alega que as denúncias contribuem para que a polícia aja com maior rigor e prenda os criminosos, quando o delito for comprovado. “Há o planejamento de investir em postos de polícia para a segurança ser cada vez mais acentuada na região”, acrescenta.
Luz só em 2014
De acordo com a Administração Regional de Brasília, está prevista a instalação de 20 postes de iluminação de 250 watts, e mais 187 postes com luminária de 400 watts. O problema é que, segundo o órgão, a benfeitoria está programada para ocorrer apenas 2014. Além disso, a administração garante que há contrato junto à Coordenadoria das Cidades para reposição de iluminação ou postes que são queimados ou retirados. Entretanto, a assessoria de imprensa explica que isso depende da relação da comunidade com o órgão ou visita de equipes da administração ao local.