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Especialistas dizem que suspender Coronavac não é erro técnico, mas criticam politização

Para a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, Isabella Ballalai, o mais grave neste episódio é a comunicação truncada por parte dos envolvidos

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Especialistas não veem erro técnico na suspensão dos testes da Coronavac, diante de um “evento adverso grave”, no caso a morte inesperada de um voluntário, cuja causa mais provável é suicídio. No entanto, a politização de todo o processo, dizem, presta um desserviço, pois acirra os ânimos e provoca mal-entendidos, além de criar um clima de desconfiança na população.

Segundo o Instituto Butantã, que conduz a pesquisa da Coronavac, os técnicos da Anvisa decidiram suspender o estudo sem pedir esclarecimentos aos pesquisadores. O procedimento causou estranheza e suspeita de que o órgão estaria sofrendo interferências políticas do governo Jair Bolsonaro. A Anvisa diz que recebeu a documentação incompleta.

“O posicionamento da Anvisa de suspender o teste é algo que pode acontecer. A morte em qualquer circunstância de uma pessoa participando da pesquisa é um alerta. Mesmo em um caso de suicídio, poderia ser causado por uma depressão provocada pela vacina? É algo raríssimo, mas poderia. Como estamos testando uma vacina para ser distribuída para milhões de pessoas, um produto que vai ser entregue a pessoas que não estão doentes, esperamos que ninguém adoeça em função do produto”, afirmou Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

“Dentro do protocolo, a suspensão pode ocorrer por precaução, mas poderia ter tido um pouco mais de diálogo. Não vejo dificuldade de o diretor da Anvisa ligar para o diretor do Butantã. Eu dialogaria, porque sou do diálogo. Mas olhando apenas tecnicamente, na dúvida, tem de suspender. E isso é normal no processo dos ensaios clínicos. É para isso que existe a fase três da pesquisa. Não deveria estar sendo tratado dessa forma, como se fosse um acidente inesperado”, acrescentou Vecina, fundador da Anvisa e colunista do Estadão.

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“Essa briga Doria-Bolsonaro prejudica olhar com a distância adequada todos esses eventos. Nem a Anvisa nem o Butantã estão olhando de uma forma muito tranquila sobre os eventos, o que não é bom para a produção da vacina, não é bom para a ciência”, complementa o médico.

A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) também foi informada sobre a morte de um voluntário. Decidiu, porém, manter os testes do imunizante depois de pedir esclarecimentos extras ao Butantã. Na avaliação do órgão, as evidências disponíveis indicam que o óbito não teria relação com a vacina.

“Acho um absurdo essa suspensão unilateral por parte da Anvisa; isso teria que ser feito em conjunto com o Butantã”, afirmou o virologista Flávio Guimarães, do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Num estudo de fase 3, qualquer problema de saúde deve ser comunicado, mas para o Butantã estava claro que a morte não estaria relacionada à vacina. Para mim, parece claro que é uma decisão política.”

Para a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (Sbim), Isabella Ballalai, o mais grave neste episódio é a comunicação truncada por parte dos envolvidos. “A população nunca viveu de perto uma pesquisa de vacina, mas esses eventos são esperados. Os voluntários não estão vivendo numa bolha, eles podem ter um câncer, ser atropelados, se suicidar, independentemente da vacina. Mas num estudo de fase 3, temos que determinar se há relação causal entre a vacina e o evento, tudo tem que ser comunicado e estudado”, explicou.

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Segundo a especialista, o “cuidado para comunicar” os eventos é “crucial”. “O que parece é que tudo está sendo feito para gerar ruído”, afirmou. “O que faz a população confiar em vacina é a confiança nas autoridades; essa disputa de informação gera insegurança.”

O infectologista Renato Kfouri, diretor da Sbim e membro da câmera técnica que assessora o Programa Nacional de Imunização (PNI), concorda com a colega. “Algum ruído aconteceu, houve uma comunicação mal feita, inadequada, que fez com que os processos não fossem seguidos como deveriam”, disse Kfouri. “Mas essa tem que ser uma discussão técnica. Qualquer evento adverso grave tem de ser avaliado com rigor, é isso que garante o licenciamento seguro de uma vacina”, diz ela.

“Quando se fala de Anvisa, não se trata só dos quatro diretores. A agência é um corpo funcional de 3 mil trabalhadores muito sérios. Espero que eles sejam os guardiões do que a Anvisa significa para o País e não permitam um uso político. Não acredito que esteja sendo feito uso político da Anvisa”, afirma Vecina. “Espero que esses técnicos cumpram seu papel na defesa da Anvisa. Que não olhem para a questão pela ótica da briga política entre São Paulo e Brasília. O que está em jogo é a crença na Anvisa.”

Flávio Guimarães, da UFMG, lembra que a ciência deveria ser soberana em todo o processo. “Estamos vivendo um momento crítico, e a solução para o que está acontecendo está na ciência”, disse o especialista. “Não tem mágica, não tem decreto, não tem política que vá tirar a gente da epidemia, só a ciência.”

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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo




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