O turismo brasileiro fechou 2025 no melhor nível de atividade dos últimos 14 anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o setor cresceu 4,6% no acumulado anual, quinto ano seguido de alta.
Mais brasileiros viajaram, mais hotéis foram preenchidos, mais assentos de avião foram ocupados. O que não mudou, na maior parte dos roteiros, foi a lista de destinos considerados.
Quem pesquisa sobre turismo em Rondônia costuma se surpreender. O estado registrou crescimento de 18,7% no número de turistas internacionais em 2024, conforme dados do Ministério do Turismo e da Embratur.
Ganhou títulos ligados ao ecoturismo e passou a figurar em feiras turísticas na Europa. Mesmo assim, para a maioria dos brasileiros que planejam uma viagem, o estado permanece fora da lista.
O que Rondônia tem a oferecer é suficiente para mudar esse quadro.
Um estado que cresce enquanto poucos olham
Rondônia fica na Região Norte do Brasil, faz fronteira com o Acre, o Amazonas, o Mato Grosso e a Bolívia, e tem Porto Velho como capital. O estado abriga parte expressiva da floresta amazônica, com rios de grande volume, unidades de conservação ambiental e uma biodiversidade que figura entre as mais ricas do planeta.
O crescimento no turismo internacional em 2024 não foi resultado de uma coincidência. A Superintendência Estadual de Turismo de Rondônia investiu em participação em feiras internacionais, capacitação de guias e estruturação de roteiros voltados ao ecoturismo.
Portugal, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e França estão entre os principais países de origem dos visitantes estrangeiros que chegaram ao estado, o que aponta para um perfil de viajante que busca experiências em ambientes naturais preservados.
Para o viajante brasileiro, o destino ainda carece de visibilidade. Não por falta de atrativos, mas porque Rondônia raramente aparece nas campanhas de turismo direcionadas ao público nacional.
Rios com 800 espécies de peixes
Porto Velho foi reconhecida como Capital Nacional da Pesca Esportiva em 2025, com a aprovação do Projeto de Lei nº 4959/2025 pela Câmara Municipal.
O reconhecimento parte de um dado concreto: o rio Madeira, que corta a cidade, concentra mais de 800 espécies de peixes catalogadas, o que faz da região um dos maiores polos aquáticos para a prática esportiva em todo o país.
Pousadas com estrutura para pesca já operam no estado há anos. A oferta inclui barcos, guias especializados e roteiros com espécies como tucunaré, pirarara, jaú e pirarucu. A política de pesque e solte é incentivada como prática sustentável, alinhada à preservação dos ecossistemas fluviais.
Nos rios Mamoré, Madeira e Guaporé, a temporada de pesca esportiva funciona praticamente ao longo do ano inteiro, com variações de espécies conforme o período. Para quem viaja em busca de experiências fora do circuito convencional, esse é um dos atrativos mais sólidos da Região Norte.
700 espécies de aves em uma única cidade
Pela mesma câmara que aprovou o reconhecimento da pesca esportiva, Porto Velho também recebeu o título de Capital do Turismo de Observação de Aves. A base para isso é o levantamento da Associação Clube de Observadores de Aves de Rondônia, que identificou mais de 700 espécies registradas no município. É o maior número entre todas as capitais brasileiras.
O birdwatching é um segmento em expansão no turismo mundial, com um perfil de viajante que costuma passar mais dias no destino e gastar mais por viagem do que o turista convencional. Pesquisadores, fotógrafos e turistas especializados já frequentam a cidade por conta desse atrativo, mas ainda em volume abaixo do potencial que a oferta sugere.
A combinação de pesca esportiva e observação de aves no mesmo destino é rara. Em Porto Velho, as duas experiências são acessíveis a partir da capital, o que facilita o planejamento de viagens de duração média.
Cachoeiras de 30 metros e a Rota das Águas
Para quem prefere o turismo em terra, o estado tem a Rota das Águas, roteiro que reúne municípios do interior com parques naturais, trilhas e cachoeiras de até 30 metros de altura. O Vale das Cachoeiras, no município de Ouro Preto do Oeste, é um dos pontos mais visitados do circuito, com quedas d’água em meio à mata fechada e estrutura para lazer e alimentação.
O Parque Estadual de Guajará-Mirim é uma das maiores unidades de conservação do estado. As trilhas levam a ambientes com onças-pintadas e antas em habitat natural, além de cachoeiras cristalinas e vegetação nativa praticamente intocada.
O Parque Natural de Porto Velho, com 390 hectares de mata dentro da própria capital, é uma opção mais acessível para quem passa pela cidade e quer uma imersão rápida na floresta.
O Vale do Guaporé, na fronteira com a Bolívia, fecha esse conjunto de atrativos naturais. Os passeios de barco revelam ecossistemas em estado de preservação avançado e comunidades tradicionais ribeirinhas que mantêm modos de vida ligados ao ambiente fluvial. Para fotografia de natureza e turismo fluvial, a região está entre as mais indicadas de todo o Norte.
A ferrovia construída na floresta
Rondônia carrega uma das histórias mais intensas da engenharia brasileira: a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, empreendimento do início do século XX que custou a vida de milhares de trabalhadores ao longo de décadas de obras em plena Amazônia.
O Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em Porto Velho, guarda locomotivas originais, objetos do cotidiano dos operários e registros fotográficos do período.
As Três Caixas d’água, estruturas construídas entre 1910 e 1912 pela empresa americana Chicago Bridge and Iron Works para abastecer a cidade durante a construção da ferrovia, são outro marco preservado na capital. Para quem viaja com interesse em história, é uma das coleções mais singulares do Norte do país.
A história de Rondônia não começa na ferrovia. O estado tem uma das maiores concentrações de etnias indígenas do país, com comunidades presentes ao longo dos rios e no interior da floresta.
O programa de visitação em terras indígenas, implementado pelo governo estadual em 2025, abriu uma nova frente de etnoturismo, com planos de visitação que permitem experiências imersivas respeitando as tradições de cada etnia.
Onde o tambaqui encontra a culinária boliviana
A gastronomia de Rondônia é produto da sua posição geográfica. O estado recebeu migrantes nordestinos em diferentes períodos da sua colonização, tem fronteira com a Bolívia e mantém comunidades indígenas com culinária própria. O resultado é uma mesa com camadas culturais que raramente se encontra em outros destinos brasileiros.
A caldeirada de peixe, preparada com tucunaré ou tambaqui, é o prato mais representativo. O pirarucu assado, o pato no tucupi e os doces e sucos de frutas nativas como cupuaçu e açaí completam uma oferta que ainda não chegou às vitrines dos destinos mais conhecidos do país. Em Guajará-Mirim, na fronteira, a influência boliviana aparece tanto no cardápio quanto na arquitetura das ruas.
O que falta para o destino aparecer no mapa
De acordo com o News Rondônia, um dos maiores portais de notícias do estado, a resposta mais objetiva é visibilidade. Rondônia tem aeroporto com voos diretos a partir das principais capitais do país. Porto Velho conta com hotéis, pousadas, guias credenciados e roteiros estruturados. O que falta é presença nas plataformas de viagem, nas publicações especializadas e nas conversas sobre destinos para as próximas férias.
O viajante estrangeiro já encontrou o caminho. O crescimento de 18,7% no turismo internacional em 2024 confirma isso. O turista brasileiro, que representa mais de 90% do fluxo interno do país, ainda não acompanhou esse movimento.
Rondônia tem pesca esportiva de escala nacional, observação de aves sem paralelo entre as capitais brasileiras, cachoeiras, floresta, história e gastronomia de fronteira. O estado não precisa competir com o litoral ou com o Sul do país. Precisa, antes, ser conhecido.