Enquanto passageiros embarcam diariamente em diversos voos, existe um profissional que raramente aparece nas fotografias corporativas ou nos discursos institucionais, mas cuja atuação pode determinar a diferença entre um voo seguro e uma tragédia. Ele não está apenas na cabine. Está nos bastidores da operação, nas auditorias, nos protocolos, nos relatórios técnicos e nas decisões invisíveis que sustentam toda a engrenagem da aviação moderna. Seu nome técnico é Safety Manager.
Na aviação executiva, onde flexibilidade operacional, agilidade e exclusividade caminham lado a lado com altos níveis de exigência, a segurança deixou de ser apenas um departamento e, na verdade, se tornou cultura. E o profissional responsável por estruturar essa cultura ocupa hoje uma das posições mais estratégicas do setor aeronáutico mundial.
O Safety Manager atua como um gestor de riscos em tempo real. É ele quem supervisiona programas de Safety Management System (SMS), conduz análises operacionais, identifica vulnerabilidades antes que se transformem em incidentes e garante que a operação esteja alinhada às exigências internacionais de segurança estabelecidas por órgãos como a ICAO (Organização da Aviação Civil Internacional) e a FAA (Federal Aviation Administration).
Entre os profissionais que vêm se destacando internacionalmente nesse segmento está Eduardo Peters Fernandez, piloto e especialista em segurança operacional com mais de 15 anos de experiência na aviação comercial e executiva. Nascido em Camargo, Chihuahua, no México, Eduardo construiu uma trajetória marcada pelo conhecimento técnico, experiência operacional e gestão estratégica de segurança.
“A segurança na aviação não depende apenas da habilidade do piloto. Ela é construída diariamente por processos, cultura organizacional, análise de risco e tomada de decisão. O Safety Manager existe justamente para garantir que a operação permaneça segura mesmo quando ninguém está olhando”, afirma o especialista.
Segurança invisível, impacto gigantesco
Segundo dados da International Air Transport Association (IATA), a aviação global registrou em 2024 uma taxa de 1,13 acidente por milhão de voos, o equivalente a um acidente a cada 880 mil operações aéreas. Apesar de o número ainda ser considerado extremamente baixo, o relatório aponta aumento em relação a 2023 e reforça a necessidade de fortalecimento dos sistemas de gerenciamento de risco operacional.
Na aviação executiva, o desafio ganha contornos ainda mais delicados. Diferentemente da aviação comercial regular, operações privadas frequentemente trabalham com estruturas mais enxutas, rotas variáveis, aeroportos menores e maior pressão por flexibilidade. Isso exige um nível elevado de controle operacional e tomada de decisão técnica.
Vale lembrar que antes, grande parte das medidas de segurança surgia como reação a acidentes. Hoje, o foco está na prevenção preditiva. Isso significa identificar tendências, mapear comportamentos operacionais, analisar falhas humanas e criar mecanismos capazes de evitar incidentes antes mesmo que eles aconteçam.
Na prática, o Safety Manager atua quase como um investigador permanente dentro da operação. Seu trabalho envolve desde auditorias internas e monitoramento de conformidade até análises psicológicas de cultura organizacional.
Segundo Eduardo, fatores como pressão operacional, excesso de confiança, falhas de manutenção e informalidade em algumas operações privadas continuam entre os principais desafios do segmento.
“Discussões recentes em comunidades aeronáuticas e análises do setor reforçam que a diferença entre operações seguras e operações vulneráveis geralmente está na maturidade dos processos internos de segurança”, afirma o especialista.
Eduardo possui formação em Mecatrônica e iniciou sua carreira na aviação em 2012 na Aeronaves TSM, onde participou diretamente da criação de manuais gerais de operação e implementação de procedimentos de segurança operacional. Ao longo dos anos, acumulou experiência em diferentes aeronaves, incluindo Metroliner SWII/III, Navajo 350, Convair 640, Citation I e II.
Posteriormente, ingressou na companhia aérea mexicana Interjet, operando o Sukhoi Superjet 100, uma aeronave comercial para 95 passageiros.
Mas, foi em 2017, operando o Hawker 850XP, que assumiu também as funções de Gerente de Segurança Operacional e Oficial de Controle de Qualidade, consolidando sua atuação em programas de SMS, auditorias LOSA (Line Operations Safety Audit), desenvolvimento de SOPs (Procedimentos Operacionais Padrão) e supervisão operacional.
Hoje, Eduardo atua na VDG, empresa onde além das funções de voo exerce o cargo de Gerente de Segurança Operacional e Oficial de Controle de Qualidade. Atualmente habilitado em aeronaves como Gulfstream V, Citation X, Hawker 800XP e Citation I/II, ele trabalha diretamente com administração de AOC (Air Operator Certificate), segurança operacional e gestão estratégica de operações aéreas.
Com mais de 4.400 horas de voo, sendo 3.400 em jatos, Eduardo representa um perfil cada vez mais valorizado pela indústria: o piloto que também domina profundamente os bastidores da segurança aeronáutica.
“A segurança na aviação não depende apenas da habilidade do piloto. Ela é construída diariamente por processos, cultura organizacional, análise de risco e tomada de decisão. O Safety Manager existe justamente para garantir que a operação permaneça segura mesmo quando ninguém está olhando”, afirma.
Por trás da cabine
Por fim, o trabalho do Safety Manager raramente aparece para o público. Não há aplausos após um pouso seguro, nem manchetes celebrando os milhares de riscos evitados diariamente graças a sistemas eficientes de gerenciamento operacional. Ainda assim, sua atuação se tornou indispensável em uma indústria onde a margem de erro simplesmente não existe.
“Mais do que evitar acidentes, operações bem estruturadas em segurança operacional conseguem reduzir desgaste de aeronaves, minimizar erros humanos, otimizar treinamentos e elevar padrões internacionais de conformidade”, conclui o especialista.
Autor: Vinícius Alonso