Menu
brasil

Descoberta brasileira pode transformar a compreensão do controle miccional e viabilizar novos tratamentos para disfunções vesicais

Redação Jornal de Brasília

28/02/2025 12h29

Atualizada 28/04/2026 12h33

aa

Durante décadas, o controle neural da micção foi descrito de forma relativamente consolidada, com base em circuitos que envolvem principalmente estruturas corticais e o tronco encefálico, em especial o centro pontino da micção. Nesse modelo clássico, o bulbo, porção filogeneticamente mais antiga do sistema nervoso central e tradicionalmente associado ao controle cardiovascular e respiratório, não era considerado um componente relevante na regulação da função vesical.

Entretanto, evidências experimentais recentes têm desafiado esse paradigma. Estudos em modelos animais demonstram que estruturas bulbares, como o Núcleo do Trato Solitário (NTS) e regiões da área rostroventrolateral do bulbo, exercem influência direta sobre a atividade da bexiga urinária. A ativação dessas regiões está associada a alterações significativas na pressão intravesical, parâmetro funcional amplamente utilizado na avaliação da dinâmica do trato urinário inferior.

Esses achados transcendem a descrição anatômica e apontam para uma organização funcional mais integrada dos sistemas fisiológicos. Em vez de atuarem de forma compartimentalizada, os sistemas cardiovascular e urinário parecem compartilhar circuitos neurais centrais, sugerindo uma coordenação autonômica mais complexa do que previamente estabelecido na literatura.

A consolidação desse novo paradigma foi impulsionada por estudos conduzidos por um grupo de pesquisadores brasileiros, entre os quais se destaca o professor e pesquisador Prof. Dr. Eduardo Mazuco Cafarchio. Com formação em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Medicina do ABC e trajetória acadêmica que inclui mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ciências da Saúde, o pesquisador tem contribuído de forma consistente para o avanço do conhecimento na interface entre neurociência, urologia e fisiologia cardiovascular.

Seus trabalhos têm fornecido evidências experimentais relevantes para a compreensão da participação de estruturas bulbares na modulação da função vesical, ampliando o entendimento dos mecanismos centrais envolvidos no controle autonômico da micção.

“Durante décadas, a literatura indicava que apenas áreas pontinas e corticais regulavam a bexiga urinária. O que mostramos é que regiões bulbares e outras areas, tradicionalmente ligadas ao controle cardiovascular, também participam desse processo”, afirma Cafarchio.

Essa afirmação, atualmente replicada e foi expandida por diferentes grupos de pesquisa, fundamenta-se em evidências experimentais robustas que, à época de sua fundamentação, eram pouco estudada. Trata-se de um área de investigação ainda por explorada globalmente, conduzido por um número reduzido de grupos no mundo, entre os quais se destaca o nosso do Laboratório de Fisiologa e Morfologia do centro Universitário FMABC (Santo Andre-SP), com foco específico na regulação neural da função vesical.

Um problema silencioso e global

As implicações vão muito além do laboratório. Disfunções urinárias afetam milhões de pessoas no mundo e, muitas vezes, o problema ocorre em silêncio.

Segundo a International Continence Society, cerca de 400 milhões de pessoas convivem com algum tipo de distúrbio urinário globalmente. Já a World Health Organization aponta que a incontinência urinária atinge até 30% das mulheres adultas em algum momento da vida.

Além disso, estudos publicados no periódico European Urology indicam que a chamada bexiga hiperativa pode afetar cerca de 11% a 16% da população mundial, com impacto direto na qualidade de vida, saúde mental e produtividade.

Apesar disso, o tema ainda carrega estigma. Muitos pacientes demoram anos para buscar ajuda.

“Trata-se de uma condição que impacta significativamente o cotidiano, o bem-estar emocional e a vida profissional dos indivíduos afetados, permanecendo, ainda assim, amplamente subnotificada. Parte fundamental do nosso trabalho consiste em ampliar a visibilidade desse problema e aprofundar a compreensão de seus mecanismos fisiopatológicos. Nesse contexto, os achados decorrentes dessas investigações podem contribuir para elucidar novas vias terapêuticas, trazendo perspectivas para o desenvolvimento de abordagens mais eficazes no tratamento desses pacientes”, afirma o pesquisador.

A ciência com alcance global

A trajetória de Eduardo Cafarchio ajuda a entender a consistência desse trabalho. Com mais de nove anos de experiência em pesquisa básica e clínica, atualmente ele trabalha também como Clinical Research Associate II, além de professor e pesquisador na Faculdade de Medicina do ABC.

Seu currículo transita por diversas áreas da medicina, da oncologia à psiquiatria e passando por doenças raras. Mas seu foco principal encontra-se no controle central da micção.

A experiência em estudos clínicos internacionais, que resultam na aprovação de novas medicações por diversas agencias regulatórias mundiais tais como FDA, ANVISA e EMEA, dá ao seu trabalho um rigor que conecta o laboratório à prática clínica.

Atualmente, ele possui fomento para pesquisas financiadas pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) uma das principais agencias de fomento do Brasil, conhecida internacionalmente pela sua excelência, que investiga o papel de neuro-hormônios como vasopressina, ocitocina e até a aldosterona na regulação da bexiga. Os estudos investigam o efeito das condições de hipovolemia tais como desidratação, hemorragia e choque sobre a bexiga urinária e seu controle.

O próximo capítulo

Se a primeira descoberta incluiu as áreas bulbares no controle da micção, o próximo passo é entender como transformar esse conhecimento em tratamento, para pacientes que sofrem com diversos casos de problemas vesicais e muitas vezes em silêncio.

A possibilidade de terapias que atuem em vias centrais ou hormonais pode representar uma mudança significativa para pacientes que hoje convivem com soluções limitadas.

Por fim, a regulação da bexiga urinária não pode ser compreendida como um fenômeno isolado, restrito ao trato urinário inferior. Trata-se de um processo integrado, resultante da interação dinâmica entre diferentes sistemas fisiológicos e redes neurais centrais. Nesse sentido, o avanço do conhecimento científico tem progressivamente revelado a complexidade dessa comunicação intersistêmica, permitindo uma compreensão mais refinada dos mecanismos que sustentam a homeostase e a função autonômica.

“Estamos só começando a entender a complexidade desse sistema. Mas cada avanço abre caminho para abordagens mais eficazes e, principalmente, mais humanas”, diz Cafarchio.

Jornalista: Mainara Srepanti

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado