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Vinhos e Vivências
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Vinhedo experimental projeta o futuro da Cooperativa Vinícola Garibaldi com inovação e adaptação climática

Projeto reúne cerca de 60 variedades de uvas na Serra Gaúcha e antecipa tendências da vitivinicultura brasileira

Cynthia Malacarne

01/05/2026 13h18

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Foto: César Silvestro

Na Serra Gaúcha, onde a tradição vitivinícola brasileira ganhou raízes com a imigração italiana no final do século XIX, o futuro do vinho começa a ser desenhado ainda no vinhedo. No caso da Cooperativa Vinícola Garibaldi, esse futuro passa diretamente pela pesquisa.

Fundada em 1931 e hoje reunindo mais de 450 famílias de viticultores, a cooperativa se consolidou como uma das principais produtoras de espumantes do Brasil, segmento em que o país tem se destacado internacionalmente. Diante de um cenário cada vez mais desafiador, marcado por mudanças climáticas, novas exigências de consumo e busca por sustentabilidade, inovar deixou de ser diferencial para se tornar necessidade.

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Foto: César Silvestro

É nesse contexto que nasce, em 2019, o vinhedo experimental da cooperativa, localizado no município de Santa Tereza. Em uma área de cerca de quatro hectares, o projeto reúne aproximadamente 60 variedades de uvas oriundas de diferentes partes do mundo, de Portugal, Itália e Espanha a regiões menos tradicionais no imaginário do consumidor, como Geórgia, Hungria e República Tcheca.

O objetivo é claro: entender quais dessas variedades são capazes de se adaptar ao terroir local, caracterizado por elevada umidade, verões quentes e forte pressão de doenças fúngicas, sem abrir mão da qualidade enológica.

O trabalho começa no campo. As uvas são avaliadas quanto à resistência a doenças, produtividade, comportamento frente às variações climáticas e adaptação a diferentes sistemas de condução, como espaldeira e latada. Entre os destaques estão as chamadas uvas PIWI (abreviação do alemão Pilzwiderstandsfähig, ou “resistentes a fungos”), resultado de cruzamentos entre espécies do gênero Vitis. Essas variedades vêm ganhando espaço na vitivinicultura global por exigirem menos intervenções químicas, reduzindo custos e impacto ambiental, tendência alinhada com a crescente demanda por práticas sustentáveis.

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Foto: César Silvestro

Na vinícola, a pesquisa ganha forma líquida. Por meio das chamadas microvinificações, pequenas quantidades dessas uvas são transformadas em vinho para análise sensorial detalhada, na qual aromas, acidez, estrutura e potencial de mercado são criteriosamente avaliados.

“Buscamos entender não apenas a adaptação ao terroir e às mudanças climáticas, mas também o potencial enológico dessas variedades”, explica o gerente de Assistência Técnica, Evandro Bosa. “Isso nos permite ampliar o leque de possibilidades além das castas tradicionais.”

Na prática, esse trabalho já começa a dar resultados concretos e premiados. Um dos primeiros exemplos foi o espumante elaborado com a uva Viognier, lançado em 2023, que conquistou medalha de ouro no Zarcillo International Wine Awards em 2025.

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Foto: César Silvestro

O vinhedo experimental também tem permitido à cooperativa apostar em rótulos inéditos no Brasil. Em 2024, foi lançado o vinho branco Pálava, variedade originária da República Tcheca que se destacou por seu perfil aromático intenso e elegante e conquistou medalha de ouro no Concours Mondial de Bruxelles, realizado na China em 2025. Já em 2025, foi a vez do Irsai Oliver, uva de origem húngara conhecida por seus aromas primários de perfil moscatel, frescor e leveza, características que dialogam diretamente com o gosto do consumidor contemporâneo.

Esses vinhos têm ainda um diferencial importante: são exclusivos no mercado brasileiro, reforçando o posicionamento da cooperativa como produtora que alia tradição à capacidade de inovação.

Mais do que criar rótulos, o vinhedo experimental cumpre um papel estratégico. Ele funciona como um laboratório a céu aberto para antecipar cenários futuros da vitivinicultura, desde o impacto das mudanças climáticas até a adaptação a novos perfis de consumo.

Em um país onde a vitivinicultura ainda enfrenta desafios estruturais, iniciativas como essa mostram que o Brasil não apenas acompanha as tendências globais, mas também começa a contribuir ativamente para a construção do vinho do futuro.

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