Por que Ancelotti não comemorou? Todos ao seu redor saíram a campo para comemorar o gol da virada no último minuto do jogo, menos Ancelotti. No gol de empate, o italiano também se manteve europeu, sem muitas demonstrações de emoção. Isso chamou a atenção do torcedor brasileiro, que após o jogo lotou as redes sociais questionando a reação do técnico. Muitos diziam achar estranha a reação, outros afirmavam que, por ele ser europeu, é frio; outros não sabiam explicar o motivo da reação indiferente; e alguns apostavam num temperamento fleumático como razão para tal comportamento. A questão é: por que Ancelotti não comemorou, frieza ou inteligência emocional?
Postura, silêncio, olhar e timing (tempo oportuno) também comunicam liderança.
Líderes não controlam apenas a equipe. Controlam a si mesmos. O comportamento de Ancelotti ilustra um princípio da inteligência emocional: equilíbrio emocional não significa ausência de emoção, mas domínio sobre ela; a calma, muitas vezes, é mais estratégica do que a euforia, e quem lidera as próprias emoções lidera melhor as pessoas e, consequentemente, o jogo. O técnico estava imerso nas estratégias da partida e não se deixou envolver pelas emoções, além de ter uma predisposição a ser mais comedido emocionalmente. Mas o ponto principal é a convicção que já existia a respeito da vitória sobre o Japão.
Para o técnico da seleção brasileira, a vitória já era certeza. Ao ser questionado por um repórter, em entrevista exclusiva, Ancelotti afirmou que não sofreu como o torcedor porque sabia que seu time estava forte: “Eu sofri menos, porque estava confiante.”
E acrescentou que, no futebol, “o sofrimento é normal”. Certamente, o aspecto psicológico foi decisivo para que a equipe mantivesse a calma até conseguir a virada.
Demonstrando ou não suas emoções, e passando para muitos uma ideia de frieza, a verdade foi uma só: ele surpreendeu positivamente, sabia o que estava fazendo, foi frio porque a liderança não se mede pela entrega emocional, mas pelo resultado, e isso ele entregou com maestria. Embora tenha sido questionado pela frieza quando seu time empatou e depois virou o placar, ele demonstrou serenidade num momento de extrema pressão, em que o controle emocional foi fundamental em sua tomada de decisão. E o mais importante foi entregar o resultado surpreendente que, para ele, já era certo, e por isso não sofreu tanto.
Inteligência emocional não é ausência de emoção.
Líderes não controlam apenas a equipe. Controlam a si mesmos. A serenidade de Ancelotti tem uma explicação psicológica: controle da situação. O autocontrole em momentos de pressão é o diferencial dos grandes líderes. Esse equilíbrio inspira confiança e impõe respeito. A inteligência emocional não é sobre ser indiferente ou não sentir, é sobre escolher o que demonstrar; é sobre ter, estrategicamente, uma reação contrária à esperada. Não é sobre agradar pela reação, mas sobre entregar o resultado esperado. Ancelotti pode sim ter causado estranheza em muitos torcedores, mas a repercussão final e unânime foi a de que ele foi impecável, sabe o que faz e está entre os melhores, senão o melhor, técnico que um time pode ter. No fim, a história se resume a isto: o italiano impôs respeito não pelas emoções que não entregou, mas pelo resultado que trouxe nos momentos decisivos.
Ancelotti talvez estivesse cobrando aquilo com que muitos brasileiros têm mais dificuldade: a gestão das emoções. E, para cobrar isso, precisava ser exemplo.