O entrevistado da semana é o diplomata Laudemar Aguiar, escolhido para chefiar a Embaixada do Brasil na Grécia, em Atenas. Aprovada em sabatina prévia na Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, a nomeação consolida a ida do ministro de primeira classe – o topo da carreira diplomática no país – para o posto europeu, após receber o aval (agrément) do governo grego e ser aprovado pelo plenário do Senado. O embaixador Laudemar vinha exercendo a função de secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura do Ministério das Relações Exteriores (MRE). No cargo técnico, ele liderou missões para impulsionar o comércio internacional, a cooperação em CT&I e a diplomacia cultural.
O senhor foi sabatinado no Senado e a aprovação em plenário acabou acontecendo meses depois, em meio ao cenário político em Brasília. Como viveu esse período de espera até a confirmação definitiva para a Grécia?
Bom dia, caro Marcelo. Sempre há um pouco de ansiedade durante a sabatina, a aprovação na CRE e, depois, no curso da aprovação no plenário do Senado Federal. Sabemos bem que esse período de tempo pode variar dependendo dos trabalhos do Senado e da conjuntura política. Mas devo salientar que eu e meus colegas desse grupo de 18 embaixadores recentemente aprovados para representar o Brasil em diferentes países ao redor do globo, fomos sempre muito bem recebidos por diversos senadores da República e contamos com o apoio e assistência integral do presidente da CRE, senador Nelsinho Trad, e sua equipe, e dos colegas de nossa Assessoria Parlamentar.
A aprovação no plenário do Senado, no último 28 de abril, trouxe sensação de alívio ou o senhor já tratava a ida para Atenas como certa?
Nunca devemos considerar o necessário e importante processo de aprovação legislativa dos embaixadores designados ao exterior como mera formalidade. Sim, a aprovação no plenário do Senado constitui também um rito de passagem, mas ter a aprovação dos senadores da República nos confere uma representatividade ainda maior para nosso trabalho diplomático nas embaixadas brasileiras.

O que mais o atrai na missão diplomática na Grécia neste momento da sua carreira?
Primeiramente, estou muito feliz e grato ao ministro Mauro Vieira e ao presidente Lula por me designarem para chefiar nossa missão diplomática na República Helênica, berço da civilização ocidental. Não posso ignorar a importância da cultura grega e sua influência inclusive no léxico da língua portuguesa, mas o que hoje mais me atrai – inclusive por ter chefiado a Secretaria de Promoção Comercial, CT&I e Cultura do MRE – são as oportunidades concretas de ampliar e diversificar nosso intercâmbio econômico-comercial, sobretudo após a recente aprovação e entrada em vigor (temporária), após mais de duas décadas e meia, do Acordo Mercosul-EU. Não apenas no setor do agro, mas também de altas tecnologias, como a possível venda de aeronaves multi-missão KC-390 da Embraer à Grécia, seguindo o exemplo de outros 7 países-membros da OTAN. Temos igualmente possibilidades concretas de cooperação em ciência e tecnologia e maior interação entre nossas universidades e centros de pesquisa, além do incremento no setor turístico. Tenho esperança de que voo direto entre cidades brasileiras e Atenas possa ocorrer nos próximos anos, com impacto positivo no número de turistas entre os dois países.
O senhor acredita que Brasil e Grécia ainda se conhecem pouco, apesar dos vínculos históricos e culturais entre os dois países?
Sim. Há diversos estereótipos sobre Brasil e Grécia e sobre brasileiros e gregos e falta de conhecimento entre ambas sociedades da enorme diversidade física, cultural e de inovação de ambos os países. O Brasil é muito maior e diversos que somente praia, futebol, samba e carnaval (após a COP-30 talvez Amazônia também ingressou nesse rol). E a Grécia é muito maior e diversa que suas belíssimas ilhas, queijo feta e azeite. Temos um potencial enorme a explorar entre os dois países e pretendo trabalhar muito com diferentes ministérios, agências (como ApexBrasil e Embratur) para contribuir para o aumento do fluxo de turistas gregos ao Brasil.
Há setores específicos em que o senhor acredita que a relação comercial entre Brasil e Grécia pode avançar mais rapidamente?
Creio já ter mencionado os setores do agronegócio, do turismo, da cooperação em novas áreas de ponta, de bioeconomia a IA, de tecnologia quântica a data centers, de aeronáutica a pesquisas marinhas (inclusive no âmbito de arranjos que já desenvolvemos com a União Europeia). Temos, por fim, que aproveitar nossa diáspora na Grécia para fomentar atividades conjuntas.
A Grécia viveu nos últimos anos grandes desafios econômicos e políticos, mas também uma retomada importante. Que país o senhor encontrará agora?
A recuperação econômica da Grécia na última década e meia tem sido impressionante. Os sucessivos governos gregos, sobretudo durante a gestão do atual PM Mitsotakis, empreenderam diferentes reformas: administrativa, laboral, financeira que modificaram completamente a situação econômica grega. Hoje, o país se moderniza, inclusive digitalmente, cresce de forma robusta e sustentável e, exatamente nessa nova conjuntura, há muitas oportunidades para maior cooperação entre nossos países.

O senhor já serviu em postos estratégicos e complexos ao longo da carreira. O que cada experiência internacional ensina para um diplomata brasileiro?
A experiência de viver num país estrangeiro é única e fantástica em diferentes aspectos. Diferentemente de um turista, que poderá até ter uma experiência pessoal mais densa ao se aprofundar mais na cultura local, se tiver familiares, amigos ou conhecidos no país que visitar, a vida diplomática nos permite mergulhar no ambiente do país em que servimos. Eu tive a enorme sorte de servir em países com culturas fantásticas e desenvolvendo trabalhos os mais diversos em nossas embaixadas em Moscou, Madri, Paris, Montevidéu e Londres e como encarregado de negócios em Gana e Embaixador no Suriname e no Irã. Adorei todas as minhas experiências, mas confesso que as mais gratificantes foram exatamente nos países menos óbvios e menos conhecidos. Não apenas por serem culturas muito diversas da brasileira, como a antiga URSS, Gana, Suriname e Irã, o que me trouxe conhecimentos e experiências muito diferentes das que pude encontrar na Europa ou na América Latina de origem hispânica, mas porque, nesses contatos com o setor empresarial e acadêmico-cultural, com o Corpo Diplomático e com diferentes setores da burocracia estatal, passamos a ter uma visão de conjunto, mais aprofundado e com nuances da sociedade local. Nós nos entranhamos (se quisermos) na cultura do país. Eu sempre busquei ter contato e fazer amizades com diferentes tipos de público e interlocutores. Esse tipo de experiência não tem preço.
Em tempos de redes sociais e diplomacia mais exposta, o trabalho de um embaixador mudou muito em relação ao início da sua carreira?
Sem dúvida. Se você prestar atenção, o Itamaraty organizou uma exposição na entrada do andar térreo no anexo I do Palácio que mostra a evolução dos meios de comunicação utilizados pelo Ministério desde o fim do século XIX. Eu brinco dizendo a colegas mais jovens que fico meio deprimido ao passar pela exposição, porque, tirando a máquina de escrever do século XIX, eu trabalhei com todos os outros equipamentos ali expostos, desde a máquina de escrever Olivetti não elétrica, passando pela IBM elétrica, os equipamentos de telex e transmissão de informação, os velhos computadores, até os atuais sistemas de comunicação. Hoje, utilizo meu celular entre 80 e 90% do meu tempo para tudo. O restante o computador da mesa de trabalho. A revolução tecnológica em curso, pela qual minha geração passou integralmente, é incrível. Há o lado positivo, como a rapidez, a acessibilidade com que nos comunicamos com pessoas do outro lado do mundo, mas também o negativo: todos esperam reações imediatas e trabalhamos muito mais – e certamente com menos tempo para análises mais profundas – que há 3 ou 4 décadas. Mas o trabalho de um diplomata, apesar do acesso geral e rápido que todas as pessoas tem ao que ocorre no mundo, continua sendo imprescindível. Veja-se por exemplo o que um trabalho diplomático intenso e de muitos anos nos trará com o acordo Mercosul-EU, por exemplo. Os avanços que tivemos na pauta de direitos humanos, na preservação do meio ambiente (apesar dos reveses, que fazem parte do processo evolutivo), e na necessária discussão e cooperação em novas tecnologias. Assistimos a guerras e conflitos absurdos, decisões unilaterais e a volta da força das canhoneiras em diversas áreas. E é exatamente nessas situações mais graves e disruptivas que vemos a importância do trabalho diplomático, da negociação, do diálogo, como o governo brasileiro tem provado nas discussões das tarifas comerciais unilaterais.
A cultura grega atravessa séculos e segue influenciando o mundo até hoje. O senhor pretende estimular mais intercâmbios culturais entre Brasil e Grécia?
Certamente. Como indiquei acima, temos que explorar não apenas as culturas tradicionais, pelas quais Brasil e Grécia são conhecidos – obviamente sem comparar uma civilização de milhares de anos, como a grega, e a brasileira, também milenar ao tratarmos das culturas indígenas, dos povos originários no território brasileiro, mas que possui pouco mais de 3 séculos de existência como colônia e dois séculos como país independente. O Itamaraty já tem estabelecida, sobretudo no atual governo, política ativa de promoção de nossa diversidade geográfica, cultural, de gênero e de raça. Na SECIC, que coordenei nos últimos 3 anos e pouco, essa é uma diretriz básica e fundamental.
O turismo entre os dois países ainda pode crescer mais? Existe interesse em aproximar também os destinos gregos do público brasileiro?
Conforme também apontei acima, o turismo é um dos setores que mais podem se beneficiar do acordo Mercosul-EU e de uma política mais ativa de conhecimento de nossa diversidade e potencialidades. Obviamente, há limites e obstáculos, como a questão da conexão aérea. Certamente o turismo recíproco seria muito beneficiado com o estabelecimento de linha aérea direta entre nossos países, o que encurtaria distâncias, em particular com conexões longas em terceiros países, e redução de custos para passageiros e cargas.
Depois de tantos anos no Itamaraty, ainda existe emoção ao receber uma nova missão diplomática?
A emoção é permanente. Cada experiência que vivino exterior foi diferente das demais; e de todas guardo memórias fantásticas. A vida em um novo país é como se você começasse uma nova vida. Tenho até hoje contato e amizade com pessoas dos diferentes países onde servi. E podemos inclusive ter a grata surpresa de rever alguns desses conhecidos ou amigos em um novo local para onde fomos destinados. Eu, por exemplo, vim de Teerã para Brasília em 2023. Aqui reencontrei o anterior Embaixador da Áustria no Irã, Stefan Scholz, e sua mulher Angelika, que já partiram de volta a Viena, mas seguimos em contato. Algum tempo após minha chegada, também foi transferido para Brasília o representante residente do PNUD em Teerã, Cláudio Providas, e sua mulher Paulina, que estão ainda hoje em Brasília. Jantamos juntos no sábado passado, por exemplo. São as alegrias da carreira diplomática. Sobretudo com os meios de comunicação de hoje em dia. Criam-se amizades que passam a fazer parte de nossas vidas para sempre. A vida diplomática, porém,não é feita somente de flores, coquetéis e viagens. Trabalhamos muito diariamente em prol da promoção das relações do Brasil com o mundo. Enfrentamos situações de guerra civil, de conflitos externos, de situações humanitárias gravíssimas, como no Haiti. Contribuímos dentro de nossas atribuições e possibilidades, para decisões e ações que podem mudar o mundo. Sem a cooperação internacional e o trabalho diplomático árduo, de décadas, não teríamos hoje 12 milhas de mar territorial e 188 milhas de zona econômica exclusiva e nem a exploração d o pré-sal, por exemplo. Sem as negociações climáticas e no âmbito do meio ambiente, talvez a nossa vida hoje neste planeta já estivesse insuportável. Sem as negociações diplomáticas sobre direitos humanos, talvez a situação de mulheres, meninas, povos originários, negros e diferentes minorias estaria muito mais difícil em diferentes partes do mundo. Sem enormes esforços diplomáticos talvez tivéssemos mais genocídios e mortes de civis inocentes no mundo do que, infelizmente, ainda temos agora. Aproveito, assim, esta curta entrevista para fazer umchamamento a todos aqueles que querem servir o Brasil e promover os interesses legítimos de nosso país no exterior: busquem conhecer mais sobre a carreira diplomática, encantem-se por uma profissão que, mais além de alegrias pessoais, pode lhes dar a enorme satisfação de defender e promover os interesses do Brasil – da sociedade brasileira como um todo – no exterior, tanto em nível bilateral, quanto regional e multilateral.