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Sobre a ingratidão e a natureza das coisas

Shakespeare nos diz, em Tímon de Atenas, que “Nenhum homem vai para o túmulo sem levar no corpo a marca de um pontapé dado por um amigo”

Por Theófilo Silva 18/05/2023 5h00

Alguém já disse que o homem é o mais ingrato dos animais, e Shakespeare nos diz que “Monstruoso é o homem quando assume a forma da ingratidão”. Ele chama a ingratidão de “Demônio do coração de mármore”. Acho que todos nós concordamos com essas afirmações, até porque o bardo diz, em Tímon de Atenas, que “Nenhum homem vai para o túmulo sem levar no corpo a marca de um pontapé dado por um amigo”.

Shakespeare vasculhou e dissecou os muitos afetos, segredos e mistérios da alma humana, e a ingratidão está presente em muitas de suas peças, sendo vários os personagens que foram vítimas dessa destruidora de corações, que ele chama de “mordida” que tem o “hálito do furacão”. Estas palavras estão na letra dessa curta canção que Amiens, na peça Como Gostais, canta para o duque de Milão, que se encontra em desgraça, morando na fria floresta, traído pelo próprio irmão que lhe tomou o trono: “Sopra, sopra vento hibernal. Não és assim tão infernal como a humana ingratidão. Teu dente não é tão agudo porque não és visto, mas é rude teu hálito de furacão”. Não é interessante saber que a ingratidão tem hálito de furacão. Que os ingratos saibam disso.

Shakespeare nos fala de promessa – já que é por intermédio da promessa não cumprida que a ingratidão toma forma – em Tímon de Atenas, pela boca de um pintor “puxa-saco” que bajula Tímon, rico general ateniense. Diz ele: “Prometer é exatamente do melhor tom; abre os olhos da esperança, enquanto que uma esperança posta em prática deixa sem emoção alguma aquele para quem foi executada e salvo entre as pessoas mais ingênuas e mais simples, manter a palavra está completamente fora de moda. Prometer é o que existe de mais elegante e ultrapassa os melhores modos da corte”. É bom saber que a promessa “abre os olhos da esperança”, que “manter a palavra está fora de moda”, que “é elegante” e é praticada nas altas esferas sociais.

Continuando com nossa saga shakespeariana pelo mundo da ingratidão, chegamos a Tróilo e Créssida, uma de suas maiores peças políticas de Shakespeare, dominada por homens vaidosos e arrogantes, habitantes da esfera das relações de poder. Se existe uma área em que a ingratidão é mais presente, tomando uma forma ainda mais cruel, é a da traição – quando o ingrato se junta aos inimigos da vítima para destruí-lo. E Ulisses é quem adverte o orgulhoso Aquiles: “O tempo, meu senhor, tem nas costas um saco, dentro do qual coloca as esmolas para o esquecimento, esse monstro enorme da ingratidão”. É interessante saber que o tempo carrega nas costas um saco cheio de ingratidão.

Provavelmente a maior vítima da ingratidão em todo o Shakespeare seja o velho Rei Lear, da Bretanha, que, após dividir o trono entre suas três filhas é rejeitado por duas delas, Goneril e Rejane, levando-o à loucura e à morte. A ingratidão filial é, com certeza, a mais violenta entre todas as formas de ingratidão, e filhos ingratos com suas ações podem levar a morte pais e mães. Não há quem não conheça a história de um filho ingrato. Diz o velho Rei Lear sobre a ingratidão de suas filhas: “Oh! Levíssima falta… Tu que a exemplo de uma roda de tortura, deslocaste a armação de minha natureza do lugar onde se encontrava, arrancaste todo o amor de meu coração e o encheste de fel”. “Ter um filho ingrato é mais doloroso que a mordida de uma serpente”. Sim, a ingratidão “desloca o eixo da natureza”.

Júlio César, o mítico general e estadista romano, é provavelmente uma das maiores vítimas da ingratidão. Foi assassinado em um complô em que um dos líderes era Marcus Brutus, seu sobrinho -neto e filho adotivo. A morte de César é um fato marcante, e os historiadores são quase unânimes em dizer que a morte de César foi um golpe que alterou o destino do mundo. Shakespeare sabia disso, e nos deu de presente a Tragédia de Júlio César, romanceando de forma magnífica a morte do grande romano.

Vejamos o que diz Marco Antônio, leal a César até o fim, para a multidão diante do cadáver de César: “Se vocês tiverem lágrimas, preparem-se para derramá-las agora”. Mostrando as facadas de Brutus no corpo de César, diz que: “Ao retirar o maldito aço, observem como o sangue de César parece que se lançou atrás dele… Esse foi o mais cruel de todos os golpes, pois, quando o nobre César viu que ele o feria, a ingratidão mais poderosa que os braços dos traidores venceu-o completamente”. Ou seja, não foram os golpes de Brutus que mataram Júlio César, mas sua ingratidão.

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Bom, chega de tanta ingratidão! Por fim, deixo a todos o conselho de Machado de Assis: “A ingratidão é um direito do qual não se deve fazer uso”.






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