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Os homens mofados

De que valeria o homem, se o bem principal e o interesse de sua vida consistissem em comer e dormir? Não passaria de um animal

Por Theófilo Silva 01/06/2023 5h00

Quando Hamlet encontra Fortimbrás, jovem príncipe norueguês, conduzindo um exército para um ataque a um pedaço da Polônia, íngreme e desprovido de riqueza, apenas em busca de glória, ele dispara mais um de seus solilóquios. Diz Hamlet: “De que valeria o homem, se o bem principal e o interesse de sua vida consistissem em comer e dormir? Não passaria de um animal”. E conclui: “Aquele que nos criou com uma tão vasta inteligência, que abrange o futuro e o passado, não queria que nos cobríssemos de mofo por falta de uso”. E elogia a inquietude de Fortimbrás, que abandona o conforto em que vive para sair pelo mundo em busca de ação.

Talvez a maior riqueza do homem repouse na coragem e no trabalho árduo. No poder de dizer sim e não quando necessário, na coragem de enfrentar a injustiça, a opressão, a calúnia, a inveja, enfim, as vicissitudes da vida. Quando a coragem se alia ao trabalho, uma mola propulsora é acionada e realizamos coisas que sequer imaginamos. A fé é outra grande arma, mas esta desprovida de coragem não leva a coisa alguma.

Outra poderosa força humana é a imaginação. Que seria do ser humano se não fosse à imaginação? Que seria de nós sem a arte? Sem música, literatura, cinema, pintura. Sem o poder de ver as coisas sobre ângulos diferentes. Que capacidade não tem a leitura para nos transportar para universos e espaços que somente a imaginação pode alcançar?!

Se você não nasceu num palácio, não tem um jato particular, não tem um iate, não mora no melhor lugar de Paris ou Londres, nem pode ir a um estádio no outro lado do mundo para assistir à final da Copa do Mundo ou de uma Olimpíada, o que, então, pode fazer para saciar seus impulsos e desejos? O que fazer para atender às necessidades de uma mente inteligente que está impedida de ter acesso a esses lugares interessantes, acessíveis somente a pouquíssimos endinheirados?

É aí que entra a imaginação! Ela pode suprir, e com sobra, essas carências. Uma mente imaginadora e criativa tem força ainda maior de satisfação do que o de uma mente tacanha e abastada. Diria que as possibilidades de uma mente imaginativa são ainda maiores. Se você não pode ir a Estocolmo ou Moscou, a leitura pode lhe oferecer mais, que é transportá-lo para esses lugares em épocas passadas, por intermédio de um romance ou livro de história. Se você pode ter acesso às duas formas de viagem, ótimo, a diferença é que uma é gratuita e a outra demanda muito dinheiro.

A inquietação é uma grande promotora de satisfação e felicidade. A procura de segurança num casamento de conveniência ou numa profissão chata numa vida acomodada e amolecida pode ser um grande logro, um desperdício e, mais cedo ou mais tarde, a sensação de fracasso virá. Já que a vida requer ação e, mesmo cheia de incógnitas e armadilhas, é preciso imaginar, criar, fazer, construir, realizar.
Oscar Wilde concordava com Hamlet sobre a importância de se realizar coisas, pois, para Wilde, “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Sim, o mundo está povoado de existências assim: sonâmbulas, esvaziadas, tumulares. Alguém já apontou o ócio como a cozinha do inferno. E é isso que é mesmo. Alguns apontam o serviço público como um cemitério de talentos. É assim que muitos aposentados se veem quando olham para trás, mesmo num país onde trabalhar para o Estado é um privilégio.

Tem uma reflexão do ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt (um vulcão de múltiplas capacidades) que diz mais ou menos o seguinte: “O merecimento maior é do homem que se encontra na arena, com o corpo sujo de poeira, suor e sangue, cheio de entusiasmo e devoção, que mesmo tendo fracassado, não pode ser substituído por essas almas tímidas e frias que não conhecem vitórias nem derrotas”.
“Oh céus, o que não fazem certos homens, enquanto outros deixam de fazer” é uma sábia exclamação de Shakespeare. Os que nada fazem, não se iludam, não passam de animais! Quem não é de ação nem usa a imaginação está coberto de mofo.

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