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O mito dos gênios e as fraudes

O desafio da inovação em um mundo de falsas originalidades, repetições e epidêmicas cópias remodeladas na Era Online

Por Theófilo Silva 08/02/2024 1h36

Aqueles que atribuem o conceito de gênio a determinados escritores, compositores, pensadores, enfim, criadores de nosso tempo, achando que suas obras são autorais, agem assim porque desconhecem o passado e não sabem quem são os clássicos, os fiéis depositários das criações desses “iluminados” que, na verdade, não passam de tradutores dos titãs do passado.

Quando Caetano Veloso diz que “de perto ninguém é normal” e todos o apontam como um “gênio da raça” por essa “sacada” brilhante, não sabem que o compositor baiano está apenas ecoando a sabedoria dos gregos, que disseram, há mais de dois milênios, “ele lê em silêncio e não diz pra ninguém, para que todos pensem que seu gênio é maior do que realmente é”.

Quando vejo a quantidade de “sábios” que nos rodeiam, citados nas redes sociais, distribuindo conselhos, com frases de autoajuda, poeminhas que consolam, mensagens de fé e esperança, entre aspas, e uma foto ao lado, do suposto autor, seja um padre, cantor de rock, filósofo, jornalista, não sei se rio ou se choro diante da ignorância daqueles que replicam esses textos, acreditando que se trata de algo original. Quase sempre essas citações são plágios, falsificações, cópias ou um arremedo, no qual as palavras do texto original são substituídas por sinônimos, inversão da sentença, supressão de termos, troca de palavras e outros embustes usados como disfarce para que não se identifique o verdadeiro autor.

Quando vejo esses plagiadores – e são muitos -, com frases ou textos montados em cima de algo dito pelos monstros sagrados do passado, tenho arrepios e dó daqueles que acreditam que eles, realmente, escreveram aquilo. Há também citações atribuídas a nomes que eu nunca ouvi falar, e que sequer existem, pois são criados pelos falsificadores do mundo virtual para ganhar notoriedade. E nesses tempos da I.A e ChatGPT…

Outro engodo é atribuir a determinados vultos consagrados textos que eles nunca escreveram. Figuras como Gandhi, Dalai Lama, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Clarice Lispector, meu mestre William Shakespeare – e outros vários – são figurinhas carimbadas na Internet. São muito poucos os textos, frases, pensamentos, poesias que, atribuídos a esses gênios, foram escritos por eles.

Difícil ficar calado diante dessas coisas que nos são enfiadas “goela baixo” o tempo todo. Existe um texto chamado “Um dia você aprende” exaustivamente presente nas redes sociais e YouTube, atribuído a Shakespeare, que já me foi enviado por várias pessoas perguntando se trata de uma criação do bardo de Stratford. Jogo-lhes um balde de água gelada no rosto quando digo que não é. Muito embora, o texto seja bonito e feito com base nas obras de Shakespeare, a autora é Verônica Shoffstall, uma admiradora dele.

Essas coisas só acontecem porque as pessoas não leem mais. Tudo é pasteurizado, copiado e “colado” da Wikipédia – não nego a importância da Wikipédia – e dos conteúdos e compêndios da rede por qualquer um que se ache no direito de escrever sobre qualquer assunto que lhe “der na telha”. Daí que somos cercados de mentiras metamorfoseadas de filosofia de primeira linha. Não estou dizendo que não existem coisas interessantes que podem ser consideradas originais. Mas são poucas.

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Sei o quanto é difícil criar algo inovador, pois muito já foi dito nesses cinquenta séculos de civilização, mas o segredo da originalidade é saber criar, edificar em cima de bases já existentes. Contudo, não é o que estamos vendo agora. Por essa razão, gente sem qualquer cultura passa por sábio, brilhante, apenas, porque roubou as criações dos antepassados.

Citei as redes sociais como depositárias dessas fraudes, mas, em geral, vivemos uma pobreza intelectual que dá medo. Tem uma arte que padece de fadiga e que precisa se reinventar urgentemente: o cinema. Um número exagerado de clichês se amontoa transformando os filmes em algo previsível, cujo final é fácil de prever nas cenas iniciais. Quando surge algo interessante, é, na maioria das vezes, releitura. Basta ver as plataformas de streaming.

Para concluir, aconselho a todos que prestigiam a verdade e a originalidade, a verificarem a procedência daquilo que admiram. Uma forma bem simples é olhar se a citação é seguida do nome da obra, página, e outros detalhes. Estou dizendo isso apenas como denúncia. Sei que nada vai mudar, mas quero deixar registrado aqui a minha indignação.

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