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Você “é” inteligente?

Até que ponto dizer a uma pessoa como ela é inteligente colabora para ela seja inteligente?

Por: Rolemberg Martins, Carlos Augusto de Medeiros e Patricia Demoly

Somos inteligentes ou fazemos coisas com alto grau de sucesso que levam os outros e a nós mesmos concluirmos que somos inteligentes? Quais seriam os efeitos se, ao invés de falarmos para uma criança ou a alguém o quão inteligente ela é, dissermos o quanto de êxito ela teve num dado comportamento? A diferença, sem dúvida, parece sutil.

Rótulos atribuídos a aspectos da personalidade, como agressiva, inteligente, sagaz e preguiçosa, no senso comum, costumam adjetivar pessoas e, raramente, qualificam seus comportamentos. Todavia, no que nos baseamos para adjetivar as pessoas? Ora, a resposta é óbvia. Nos baseamos no que elas fazem, como fazem, com que frequência e em que contextos elas fazem. Em outras palavras, nos baseamos em seus comportamentos.

Os famosos testes psicológicos, na realidade, não medem diretamente inteligência, autoestima, extroversão e agressividade, e sim, amostras de comportamentos. Com base nos resultados desses testes, tentamos prever como as pessoas se comportarão em situações reais, mas não faz sentido dizer que estamos medindo, de fato, aspectos de sua personalidade ou inteligência.

Se nos baseamos nos comportamentos que observamos nas pessoas para qualificá-las não seria mais útil qualificar apenas seus comportamentos? Essa, inclusive, é uma das primeiras orientações de terapeutas de casais aos cônjuges em conflito: “Adjetive o comportamento, e não a pessoa!”. Quando a esposa diz ao marido “Você é um grosso”, o adjetivo “grosso” é aplicado ao marido. O ideal, seria dizer “Você está falando comigo de modo grosseiro nesse momento”. Quais as vantagens de adjetivar o comportamento no lugar da pessoa?

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Em primeiro lugar, se são os comportamentos que servem de ocasião para classificarmos as pessoas, ajudá-las a evoluir é operar sobre seus comportamentos, uma vez que não podemos fazer nada diretamente quanto à inteligência, autoestima, extroversão e agressividade. O comentário “você é um grosso” pouco contribui para que os comportamentos grosseiros deixem de ocorrer, uma vez que, talvez o marido desconheça quando está sendo grosseiro. Ele pode simplesmente desconhecer quais comportamentos mudar quando se compromete a ser menos grosseiro. Por outro lado, frases do tipo “atenue o seu tom de voz”; “fale mais devagar”; “não me chame louca” etc. deixam muito mais claro que mudanças de comportamento são esperadas.

Uma metáfora ajuda a entender esse ponto. Ao falar para o filho pré-adolescente que pede um cachorro de presente: “Podemos adotar um cachorro, mas ele é sua responsabilidade”; a mãe provavelmente terá de assumir diversas tarefas relativas ao animal, uma vez que ela não especificou quais são os comportamentos esperados. Uma fala mais bem sucedida seria: “Podemos adotar um cachorro, mas será você a passear com ele três vezes ao dia, a por água e ração duas vezes ao dia, a levá-lo ao veterinário, a medicá-lo e a limpar a sujeira que ele fizer. Ainda assim, você quer ter um cachorro?”

Outro problema de adjetivar as pessoas e não seus comportamentos é o que denominamos em Psicologia de profecia autorrealizadora. Quando uma professora diz a um aluno “você é burro e não aprende nada”, é possível que essa criança se comporte de modo a corroborar esse rótulo. Para que essa criança precisaria estudar se ela não aprenderá nada mesmo? Uma devolutiva mais eficaz seria, “Você errou as questões 3, 4, 5 e 6 do exercício. Vamos ver o que você errou para que você possa acertá-las no futuro?”. O mesmo pode acontecer quanto familiares e professores dizem a uma criança “você é muito inteligente!” Talvez você esteja se perguntando, no caso do elogio, qual seria o problema?

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Quando uma pessoa ouve com frequência que é inteligente, pode, por exemplo, deixar de emitir comportamentos para não correr o risco de perder esse status, como não se arriscar em tentar um emprego novo ou não se inscrever para um processo seletivo de alto nível de dificuldade. Situações em que essa pessoa passará por uma avaliação podem gerar fortes respostas de ansiedade, tornando provas, apresentações de trabalhos, ou mesmo a participação em sala de aula, verdadeiros pesadelos. Daí surge o que cotidianamente chamamos auto boicote. Ou seja, a pessoa passa a apresentar outros comportamentos que tornam improvável o sucesso, de modo a justificar o fracasso sem arranhar a sua autoimagem ou a imagem que fazem dela (Inteligente, por exemplo). Quem nunca ouviu frases do tipo “Só não fui bem na prova porque não estudei”; “Faltei ao concurso porque briguei com a namorada”; “Não consigo apresentar trabalhos pela ansiedade”; ou mesmo “Ele é tão inteligente. Já passou na federal três vezes, mas nunca se formou”.

O auto boicote, em níveis mais severos, pode resultar no adoecimento como depressão, ansiedade generalizada, transtorno do pânico e fibromialgia. A doença pode ser utilizada de modo inconsciente como justificativa para a ausência de exposição a situações nas quais os rótulos de inteligente, por exemplo, podem ser perdidos. Tratamentos medicamentosos apenas lidarão com os sintomas dessas doenças. Fracassarão terapeutas que tentarem tratá-las diretamente. O tratamento mais eficaz é levar a pessoa aceitar que ela fracassará ocasionalmente e que isso não a tornará uma fracassada; que as vezes ela emitirá comportamentos inteligentes; outras vezes, não; que ela não precisa ser inteligente para ser feliz; e por fim, mesmo que ela emita um comportamento inteligente, o fracasso pode ocorrer porque existem múltiplos fatores sobre os quais ela não tem controle.

Uma terceira consequência diz respeito aos sacrifícios pessoais para manter o rótulo de inteligente. Quão incessante pode ser a busca por tal reconhecimento e qual o seu custo? Quantas pessoas muito bem sucedidas em suas profissões e com um alto nível de reconhecimento social são profundamente infelizes com as suas vidas? Já atendi deputados, juízes, procuradores, diretores de estatais e de multinacionais, chefes de gabinete e primeiros colocados em vestibulares dificílimos. Pessoas essas que se orgulhavam do sucesso; que têm e sempre tiveram muito reconhecimento pela inteligência e competência; mas que, todavia, são infelizes e frustradas com suas vidas. Tais conquistas cobraram tempo com amigos, cônjuges e filhos; noites de sonos; horas no videogame; seriados em serviços de streaming etc. Nossos caixões não têm paredes, prateleiras ou cofres para levarmos conosco diplomas, medalhas, troféus e dinheiro. O tempo que perdemos correspondendo aos rótulos não pode ser ressarcido. Devemos buscar nossos sonhos é claro, mas não para continuarmos ouvindo que somos inteligentes, afinal, como dizia uma amiga “Palavras, o vento leva!”
Agora, se vocês me dão licença, vou jogar um pouco de videogame antes da minha primeira aula do dia.

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