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Quando procurar uma psicoterapia?

As pessoas buscam psicoterapia por uma grande variedade de razões e com diferentes níveis de gravidade de sintomas ou de sofrimento.

Quando procurar uma psicoterapia?

Por: Dr. Carlos Augusto de Medeiros

Entre os extremos de um continuum em que em uma das pontas temos “todo mundo tem que fazer terapia” e na outra “terapia é coisa para doido”, há um mundo de possibilidades.

Pessoas leigas, muitas vezes, desconhecem a natureza dos serviços oferecidos por um(a) psicólogo(a) clínico(a). Normalmente, esperam serviços similares aos de outros profissionais de saúde, como médicos, por exemplo. Também confundem a relação psicoterapêutica com o suporte que recebem de amigos, padres, pastores e até familiares. Realmente, o papel que exercemos na vida dos usuários de nossos serviços (pacientes, clientes ou terapeutizandos) se assemelha ao de médicos, familiares, amigos, padres e pastores, mas, certamente, não é nenhum deles.

Alguns fatores são responsáveis por toda a confusão da comunidade acerca do que é uma psicoterapia, para que serve, e como é feita. A aparição de psicólogo(a)s clínico(a)s em filmes, novelas, seriados e livros dão uma ideia um tanto quanto romântica e distorcida da psicoterapia e da figura do(a) psicoterapeuta. Ou a psicoterapia é recomendada apenas para casos graves de esquizofrenia (psicopatologia mais identificada com a loucura no senso comum) ou o(a) psicoterapeuta é visto(a) como um ser sublime que sabe exatamente o que fazer com os usuários dos seus serviços a cada momento, de modo que a “cura” é o desfecho mais comum. Produções mais recentes, como o seriado “Sessões de Terapia”, todavia, têm abordado o lado humano e falível de psicoterapeutas.

A grande diversidade de modelos teóricos e práticos de como é feita uma psicoterapia também contribui para que pessoas leigas não saibam bem o que esperar. Aqui vão alguns exemplos, há terapeutas: que fazem massagens e literalmente tocam seus clientes; que praticamente não interagem verbalmente com seus analisandos, permanecendo a maior parte do tempo em silêncio; que apenas fazem perguntas e, sem dar conselhos ou orientações, tentam levar seus terapeutizandos a desenvolverem formas de resolver seus problemas por si mesmos; que fazem atividades lúdicas como desenhos e colagens; que aplicam protocolos rígidos de tratamento, com atuações similares a de médicos; que ensaiam interações sociais com pessoas significativas etc.

Só para dar uma ideia da diversidade teórica, cito alguns exemplos de abordagens de psicoterapia mais comuns: Psicanálise, Terapia Analítica-Comportamental, Terapia Centrada na Pessoa, Psicodrama, Terapia Cognitivo-Comportamental e Gestalt Terapia.

Diante desse conjunto de informações que talvez soe caótico ao público leigo, é possível citar as queixas mais comuns que psicoterapeutas ouvem de seus clientes nos primeiros encontros, como ansiedade (fobias específicas, crises de pânico, ansiedade generalizada etc.), depressão, insônia, dificuldade de concentração, problemas conjugais ou amorosos, baixa autoestima, déficits em habilidades sociais, obesidade, abuso de substâncias e a busca de autoconhecimento.

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Não é necessária muita perspicácia para concluir que não há uma técnica ou um remédio que produza o alívio imediato de nenhuma dessas queixas. Os psicofármacos (remédios psiquiátricos) ajudam a controlar os sintomas, principalmente de depressão, ansiedade e volatilidade do humor, todavia, por si só, têm pouco efeito sobre as causas desses sintomas. Não resta dúvida de que, em alguns quadros, a ajuda medicamentosa é fundamental ao sucesso de um tratamento psicoterápico e é leviana a postura de certo(a)s psicoterapeutas ao aconselhar a interrupção de tratamentos psiquiátricos já em andamento.

Sem dúvida, uma psicoterapia pode te ajudar quanto às queixas acima e muitas outras não listadas como “burnout”, solidão, bruxismo, dores crônicas (fibromialgia, por exemplo), carência afetiva, síndrome do impostor, lutos, assédio moral, assédio sexual, violência doméstica etc. Mas o sucesso de uma psicoterapia depende muito mais do usuário do serviço do que de outras atividades da área de saúde, como a medicina e a enfermagem, por exemplo. É óbvio que, casos como diabetes, o engajamento do paciente ao tratamento com a mudança de hábitos também é fundamental.

Todavia, a submissão dos pacientes aos tratamentos prescritos por médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, odontólogos e fonoaudiólogos não se compara ao papel ativo que se espera dos usuários de um serviço de psicoterapia.

Muitas pessoas procuram a psicoterapia apenas para serem ouvidas, utilizando-a como um espaço de desabafo sem julgamento. Normalmente, essas pessoas buscam um acolhimento e validação de seus sentimentos. Nesses casos, as sessões de psicoterapia produzem um alívio imediato sem produzir, contudo, mudanças significativas na vida da pessoa. Sem questionar essa função catártica da psicoterapia, aquelas pessoas dispostas a mudar o seu modo de vida, a saírem da zona de conforto, a se exporem ao novo, a correr os riscos inerentes a viver plenamente são aquelas que mais se beneficiarão de uma psicoterapia. Na realidade, as múltiplas queixas acima decorrem de modos como formos condicionados a interagir com o mundo e dificilmente os sintomas serão redimidos de modo duradouro e sustentável se não estivermos dispostos a desenvolver novos modos de viver.

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