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Pragmática

O eterno conflito sobre o que somos e o que esperam de nós

O eterno conflito sobre o que somos e o que esperam de nós

Por
Rolemberg O. Martins e Carlos Augusto de Medeiros

As nossas experiências moldaram a nossa personalidade de modo que os outros vejam em nós um sujeito único e singular. Porém, resta saber até que ponto o modo como os outros nos percebem corresponde a como somos de fato ou como gostaríamos de ser.

A personalidade é tida pelo senso comum, assim como, por algumas correntes de ciências humanas, como a causa da conduta humana. Explicamos o comportamento arrogante, por exemplo, por uma personalidade arrogante. Ao refletirmos sobre o assunto, rapidamente, percebemos o problema óbvio de explicar o comportamento humano assim.

Se não explicarmos o que produziu determinada personalidade, não avançaremos muito na explicação do comportamento explicado pela personalidade em si.

Após um extenso debate histórico entre o determinismo genético em contraposição ao determinismo ambiental (aprendizagem), hoje estamos próximos de um consenso de que a conduta humana depende da interação entre genética e aprendizagem. Como a genética dificilmente é modificada após a concepção, nós psicólogos nos concentramos mais na aprendizagem para alterar os comportamentos dos indivíduos. Por mais que termos relativos à personalidade, como timidez, inteligência, arrogância, amabilidade etc. sejam bom resumos de conjunto complexos de comportamentos, a classificação de conjuntos de comportamentos como traços de personalidade tem pouca eficácia na modificação do comportamento em si. Além disso, corremos o risco de perder de vista os reais determinantes do comportamento de um indivíduo.

Os fatores ambientais particularmente relevantes na determinação do comportamento humano e, consequentemente, da personalidade, são sociais como reconhecimento, respeito, status e poder. Esse tipo de determinante tem como efeito colateral o estabelecimento de comportamentos mais de acordo com o que é valorizado pela cultura do que pelo que é valorizado pelo indivíduo. Quantas vezes tivemos vergonha de dizermos que gostamos de um estilo musical ou que assistimos a um seriado específico quando percebemos que tal estilo musical e que tal seriado não são valorizados por quem estamos interagindo?

Paralelamente, tentamos nos mostrar fortes, inteligentes, cultos, corajosos e esforçados porque tais traços de personalidade são admirados pela sociedade. Mas o preço para manter essas imagens pode ser muito alto para o indivíduo. A título de exemplo, basta pensarmos com que frequência oferecemos ajuda a quem consegue resolver tudo sozinho em comparação às pessoas que demonstram fragilidade. Funcionários públicos competentes costumam ter dificuldade em conseguir marcar suas férias ou conseguir que seus pedidos de transferência para outro setor sejam aceitos.

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Outro problema da forte determinação cultural da conduta é o fato de que a satisfação pessoal se encontra dependente dos critérios de outras pessoas. Temos pouco controle sobre o que os outros pensam a nosso respeito afinal. Sendo assim, mesmo com muito empenho para obtermos a admiração, o reconhecimento e o respeito dos outros, nem sempre conseguiremos evitar a rejeição, o ostracismo e o abandono. Ao exigirmos de nós mesmos sermos capazes de fazer com que nos amem, admirem e respeitem, fatalmente nós nos decepcionaremos com nós mesmos quando o outro não corresponder às nossas expectativas. Quando isso ocorre, o abalo à autoestima é devastador.

Se libertar do que é valorizado pela sociedade em prol dos próprios valores não é tarefa fácil. Sem dúvida, requer muita coragem decepcionar, desagradar e contrariar o outro. A cultura possui instrumentos poderosos para estabelecer e manter a conformidade. Mais do que isso, possui formas mais poderosas ainda de coibir a inconformidade, como o julgamento, o ostracismo, o abandono, o preconceito e diversas outras formas de violência. O exemplo mais óbvio disso é a discriminação absurda sofrida por transexuais.

Diante desses instrumentos de controle social, o mais cômodo parece ser viver em uma zona de conforto miserável, fazendo sempre o que se espera de você. O sofrimento que daí decorre é um velho e previsível conhecido. Fazer o novo representa correr riscos. Esse risco é muito alto quando permitimos que os outros determinem a visão de temos de nós mesmos.

A ousada saída para essa armadilha cruel é romper a relação entre inteligência, cultura, força e coragem, entre outros traços valorizados socialmente, e a felicidade em si. Podemos ser felizes sendo covardes, fracos, ignorantes e pouco inteligentes, desde que vivamos de acordo com o que valorizamos pessoalmente. Como eu costumo dizer, qual o problema de criticarem a sua lista do spotify se você estiver se divertindo ao ouvir Sidney Magal logo após de uma música do Nirvana?

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