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Os quatro cavaleiros do apocalipse psíquico: Frustração

Dando continuidade à série de sentimentos intimamente relacionados ao sofrimento psíquico, hoje vou abordar a frustração.

Os quatro cavaleiros do apocalipse psíquico: Frustração

Por: Dr. Carlos Augusto de Medeiros

Sentimento difícil de lidar, e produzido incontáveis vezes na vida das pessoas. De modo bem simples, a frustração pode ser definida como fortes respostas emocionais produzidas quando as tentativas de uma pessoa em fazer ou obter algo fracassam. Essas tentativas vão de ações simples, como tentar acender uma lâmpada queimada ou acessar uma rede de internet indisponível; assim como, tentar abrir uma empresa que faliu devido à pandemia ou pleitear uma promoção no trabalho e ver outra pessoa menos qualificada ficar com a vaga. As respostas de frustração variam da decepção (choro, desânimo e perda de apetite) à ira (gritar, xingar e destruir objetos) e geram um grande desconforto a quem as experiencia e às pessoas de seu convívio.

Há uma estreita relação entre a frustração e a criação de expectativas. Tendemos a viver no futuro, fantasiando acerca de como serão as coisas. Fazemos isso por algumas razões. Tentamos controlar os incertos fenômenos naturais, sociais ou não. Quem nunca se pegou imaginando como seria uma viagem para a praia, como seria o primeiro encontro com uma pessoa muito desejada ou como seria aquele emprego público de alta remuneração.

A incerteza costuma ser assustadora para a maioria das pessoas, de modo que tentamos antever os acontecimentos e, assim, evitar sermos surpreendidos. Também há uma sensação ilusória de que, quando pensamos sobre algo que acontecerá, estamos fazendo algo a respeito, ou seja, controlando o futuro. Todavia, tais eventos são apenas parcialmente controláveis, quando nos deparamos com eles, e totalmente incontroláveis antes de nos depararmos realmente com eles. A sensação gerada quando criamos expectativas de coisas boas costuma ser prazerosa. A realidade não tem como se comparar ao roteiro escrito por nós. O filme “500 dias com ela” tem uma cena de tela dividida que ilustra essa questão de modo brilhante. Por sua vez, quando se pensa em problemas a serem resolvidos, não chamamos mais de expectativa, e sim, de pensamento intrusivo ou ruminatório. Tais pensamentos, ao invés de relacionados ao prazer, são acompanhados de fortes respostas de ansiedade. Fracassar em resolvê-los também produzirá forte frustração.

Pessoas com baixa tolerância à frustração são difíceis de conviver, principalmente, quando as suas respostas de frustração descambam para a ira. É muito comum evitarmos desagradar pessoas assim, cedendo aos seus desejos de modo a evitarmos as suas respostas de frustração. Um efeito disso em logo prazo é o desgaste nas relações pessoais.
Ao mesmo tempo, não aceitar o fracasso pode acarretar na persistência em atingir os próprios objetivos, o que, em alguns contextos é bom, em outros, ruim. Um aluno de doutorado, por exemplo, pode persistir em concluir o seu curso mesmo diante de um grande conjunto de adversidades. Em negociações também é útil, uma vez que quem persiste consegue barganhas que lhe sejam mais favoráveis. Por outro lado, a baixa tolerância à frustração pode estar relacionada à insistência em empreendimentos falidos, como empresas ou casamentos. Insistir em situações onde o fracasso é irreversível implica no prolongamento do sofrimento que seria abreviado se desistíssemos e investíssemos em novas iniciativas com mais chance de êxito.

A pior consequência da baixa tolerância à frustração, porém, é o desenvolvimento do que chamamos em Psicologia de respostas de esquiva. A frustração pode ser tão aversiva para certas que pessoas que elas acabam encontrando modos de não se expor a situações onde a frustração é possível. Por exemplo, após algumas rejeições amorosas ou na procura por um emprego, uma pessoa pode simplesmente parar de paquerar ou de entregar currículos. Mas a cobrança para fazer as duas coisas permanece, de modo que essa pessoa pode se engajar em comportamentos que impeçam as paqueras ou buscas por emprego e, assim, evitam a frustração e a cobrança. De modo a evitar a rejeição amorosa, podemos nos apaixonar apenas por pessoas que moram em outro estado, assim, o fracasso da relação decorre da dificuldade de relações à distância, e não de nossos atributos. O mesmo pode ocorrer quando fingimos que estudamos para concursos públicos ao invés de distribuirmos currículos.

Os efeitos da frustração se relacionam, em alguma medida, com controle e autoestima. Partimos da premissa equivocada de que se formos realmente competentes, inteligentes, atraentes e esforçados, seremos capazes de conquistar tudo o que queremos, presumindo que temos controle absoluto de desfechos para os quais temos pouco ou nenhum controle. Sendo assim, fracassos implicam em nos vermos como incompetentes, oligofrênicos, pouco atraentes ou que não nos esforçamos o bastante. Assustador, não é mesmo? Sendo assim, evitar passar a ter essa imagem de nós mesmos pode resultar em uma insistência inútil, ou em estratégias que impossibilitem tentarmos atingir nossos objetivos.

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Novamente, a saída é reconhecer que temos pouco controle sobre os resultados de muitas de nossas ações. Mesmo que façamos tudo certo, ainda assim, os desfechos podem ser desfavoráveis. Ainda, caso tenhamos agido de modo realmente equivocado, precisamos aceitar o erro ao invés de concluirmos que não acertaremos nunca. Os fracassos são das nossas tentativas, mas não de nós como pessoas. Lutar com afinco pelo que queremos é muito importante para atingirmos nossos objetivos, mas nossos fracassos não nos tornam fracassados.






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