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Os quatro cavaleiros do apocalipse psíquico: Culpa

Esse é o primeiro texto de uma série destinada a discutir os quatro sentimentos mais intimamente relacionados ao sofrimento psíquico

Culpa

Decidi começar com o pior de todos. A culpa está para o nosso sofrimento, assim como o Vader está para o Luke, o Coringa está para o Batman e o Voldemort está para o Harry.

A culpa é uma palavra que descreve tanto uma ação socialmente inadequada, como um sentimento que acompanha quem a comete. Dizemos que alguém que aglomera nos tempos da pandemia é culpado pela contaminação de seus familiares. Nesse caso, a culpa se refere ao ato em si, que tem como consequência prejuízos aos outros seres ou ao meio ambiente. Esses atos podem ser acompanhados ou seguidos de um sentimento que, para a maioria das pessoas, é devastador: a culpa.

Sem dúvida alguma, para vivermos em sociedade, precisamos de certos freios aos nossos impulsos primitivos. Nem sempre haverá alguém capaz de nos refrear de tais impulsos como nossos pais fizeram quando éramos crianças. As múltiplas vezes que nossos pais nos colocaram limites fizeram com que passássemos a nos sentirmos de modo similar ao modo como nos sentimos nas diversas vezes em que fomos castigados.

Sentimo-nos culpados quando somos grosseiros, arrogantes, descuidados, cruéis, invejosos, preguiçosos, egoístas etc. É importante ressaltar que tais adjetivos são pejorativos em nossa cultura e nossos pais são os principais agentes de controle social responsáveis por aprendermos que não é nada bom nos vermos assim.

Viver em sociedade seria realmente difícil se as pessoas se permitissem serem grosseiras, arrogantes, violentas, descuidadas, cruéis, invejosas, preguiçosas e egoístas sem um freio de qualquer espécie. Todavia, é inegável que muitos parentes, professores, padres, pastores, e demais agentes de controle social exageram na dose. O controle pela culpa é eficaz e, por isso, é tentador como forma de manejo de comportamentos antissociais de pessoas em formação (por exemplo, crianças e adolescentes). Infelizmente, porém, o controle excessivo pela culpa traz consequências brutais a quem é controlado por ela.

Deixamos de lado muitas das coisas que adoraríamos fazer especulando sobre as reações que tais agentes de controle social teriam. A culpa passa a ser tão arraigada ao nosso funcionamento que nos refreamos de modo automático. Isso determina nossas escolhas em questões fundamentais como o curso superior (direito em detrimento de artes cênicas), amizades (“não ande com maconheiros”), parceiro(a)s afetivo(a)s (“ela é muito velha para você”), carreira profissional (“estude para concursos”), nossa orientação sexual e até a permanência em relacionamentos falidos. Resumindo, restringe sobremaneira a nossa liberdade.

Além disso, a culpa está intimamente relacionada ao autoflagelo. O sofrimento é visto como o único método do expurgo da culpa. Quando agimos de modo socialmente inadequado, passamos a sentir uma forte culpa. Levamos pouco tempo para entendermos onde erramos (se é que erramos) e o que fazer doravante para que não voltemos a cometê-los. Todavia, o mais comum é ficarmos remoendo a nossa conduta por muito tempo, o que é acompanhando de fortes respostas de ansiedade. Infelizmente, porém, colocar sal na ferida não fará com que ela cicatrize mais rápido.

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Constantemente, lemos por aí que devemos nos perdoar sem, entretanto, nos contarem como fazê-lo. Não temos máquina do tempo, de modo que apagar nossos erros é impossível. Tentar justificá-los a nós mesmos não tem efeito prático sobre o erro cometido e gera diálogos internos acompanhados de forte ansiedade. Aceitar os erros condicionalmente a boas justificativas só serve para dar-lhes força. O fato é que erraremos, decepcionaremos pessoas e fracassaremos. Por mais que devamos tentar fazer a coisa certa, agindo de modo responsável com nós mesmos, com os outros e com mundo, nem sempre conseguiremos fazê-lo. Nossos erros, assim como nossos acertos, não nos definem. Para mim, não faz sentido nos perdoarmos. Não há nada a ser perdoado. Temos que aceitar que erramos e erraremos novamente. O que importa é tentar fazer a coisa certa, o que quer que isso seja.






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