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Clarice Lispector aos olhos de um psicanalista

“Terei de ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para ninguém? Assim como uma criança pensa para o nada. E correr o risco de ser esmagado pelo acaso. Não compreendo o que vi. E nem mesmo sei que vi, já que meus olhos terminaram não se diferenciando da coisa vista”.

Clarice, em “A paixão segundo G.H.”

“Não é por tentarmos usar os fatos que o paciente relata transformando-os naquilo que chamamos de “associações livres”, a serem interpretadas, que eles deixarão de ser fatos”.

Wilfred R. Bion, em “Domesticando pensamentos selvagens”

A Literatura, especialmente a literatura de Clarice Lispector, Marcel Proust, Manoel de Barros e tantos outros ícones universais, tem na escritura uma contribuição imprescindível aos psicanalistas clínicos, na
medida em que os autores contribuem para aprofundar a pesquisa da realidade psíquica. Clarice, no caso, é uma escritora que viveu pensando os meandros dos seres vivos (humanos e inumanos), extraindo em seus textos, a partir dos fatos reais, as questões internas, tanto antológicas como antropológicas. Clarice passeia principalmente em “A paixão segundo G.H.” e posteriormente, antes de morrer, num dos diálogos mais profundos e poéticos do seu ser andrógino, duplo, consciente e inconsciente entre o autor e Ângela Pralini em “Um sopro de vida”

G.H. e Janair, o autor e Ângela Pralini, são testemunhos de um diálogo/monólogo das questões contidas na alma de Clarice, narrando uma verdadeira autoanálise, e mais, na expectativa que seus leitores se leiam, sem compreensão e racionalidade, mas de uma maneira que Manoel de Barros, nosso querido poeta, afirmava em uma das poucas entrevistas que deu: “A poesia (e a literatura, digo eu), não é para se compreender nem entender, é para se incorporar”. Esse é o maior legado a ucraniana mais brasileira Clarice Lispector nos deixou.

Citei acima o psicanalista indiano-inglês Wilfred Bion não por acaso. Bion passou sua vida se dedicando a aprimorar o “estilo próprio” e pensando prioritariamente a pessoa do psicanalista, sua pessoa real, suas angústias, sua incompletude e sua condição fundamental – “ser um animal-humano” e não alguém onisciente, onipresente e onipotente. Um eterno aprendiz de uma arte impossível, mas exequível, a psicanálise. Pouco teorizou em seus escritos, preocupando-se como nossa autora, com a arte de estar
sempre aprendendo a escrever (Clarice) e a psicanalizar (Bion).

Vejamos esse primoroso fragmento de Clarice em “Um sopro de vida”: “Este é um livro de não memórias: passa-se agora mesmo, não importa quando foi ou será esse agora mesmo. É um livro como quando se dorme profundo e se sonha intensamente — mas tem um instante em que se acorda, se desvanece o sono, e do sonho fica apenas um gosto de sonho na boca e no corpo, fica apenas a certeza de que se dormiu e se sonhou. Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça… eu me expresso pelo silêncio. Expressar por meio de palavras é um desafio… bem sei que estou no escuro e eu me alimento com a própria e vital escuridão.”

Em 28 de maio de 1977, ano em que Clarice nos deixa, Wilfred Bion em “Domesticando Pensamentos Selvagens” (livro que aborda a inquietação da pesquisa psicanalítica quanto à busca de se aproximar dos
estados primitivos e selvagens do psiquismo humano), enfatiza também o sonhar como forma de apreensão do indizível. Vejamos: ”É preciso considerar o estado de mente peculiar no qual nos encontramos quando adormecidos, ou como nos acostumamos a dizer (inclusive por ter se tornado um lugar-comum no pensamento psicanalítico), quando estamos inconscientes em um estado onde não estamos cônscios, ou estamos pouco, de nossos pensamentos e sentimentos… no que diz respeito à nossa história privada quanto à história da raça. Em geral, os chamamos de sonhos.”

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Freud, Clarice e Bion convergem na importância do sonhar para fazer emergir em nós, em nossos analisandos e também nos leitores, a riqueza ainda pouco conhecida dos vestígios pós e antes do desastre do nosso nascimento.

Termino por hoje com mais uma homenagem à passagem do aniversário de Clarice, com aquilo que sinto o que sua sensibilidade, direta ou indiretamente, poderia ser chamado de uma trajetória de experiência literária e analítica: “Mas a palavra foi aos poucos me desmistificando e me obrigando a não mentir. Eu posso ainda às vezes mentir para os outros. Mas para mim mesmo acabou-se a minha inocência e estou em face de uma obscura realidade que eu quase, quase, pego na mão. É uma verdade secreta, sigilosa, e eu às vezes me perco no que ela tem de fugidia. Só valho como descoberta.”








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