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Psicanálise da vida cotidiana

A vida que se perdeu

O poeta narra alguém que se entregou todo a alguém e ficou sem vida —-“pelo bem que te fiz, padeço agora a saudade do mal que me fizeste”

Carlos de Almeida Vieira

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“Eu não fui mais um cético suicida/ que passou, pelo mundo, indiferente, a passos leves, esbanjando a vida/ prodigiosamente, perdulariamente./ “É um pobre moço! Um doido! Nem duvida dessa mulher!” —– dizia toda gente./ Mas eu passava de cabeça erguida/ e te levava a vida de presente!/ Dei-te quanto pediste. Ingênua e nua,/ minha alma toda ficou sendo outrora/ tua, só tua, unicamente tua./ Quis dar-te mais: tu nada quiseste!/ Pelo bem que te fiz, padeço agora/ a saudade do mal que me fizeste”.
Poema — “NÓS –XXIII”, de Guilherme de Almeida.

Loucura, doidice, insensatez, angústia, desespero, baixa-autoestima? Questões que passo a refletir após esse poema trágico e belo do nosso poeta Guilherme de Almeida. O poema revela uma curta história, mas uma grande metáfora —– a capacidade de colocar em outra pessoa toda a nossa amorosidade, todo o nosso amor, toda a nossa vida! “Dei-te quanto pediste. Ingênua e nua, minha alma toda ficou sendo outrora tua, unicamente tua”, diz o poeta numa expressão romântica, mas de uma revelação profunda e grave —— dar a alguém toda a vida que se tem!

Quando infantes, bebês de colaço, como dizem os portugueses, colocam toda a sua vida na pessoa de sua mãe ou de qualquer outra que ofereça a função materna. É claro, é inevitável, pois o ser humano nasce numa situação de vulnerabilidade e fragilidade intensas, sem condições de sobreviver sem o Outro, esse Outro que chamo de “Salvador”, pois de fato, não sabemos nada dele até então. Coloca-se, na pessoa da mãe, todo o amor e ódio; a mãe por sua vez, recebe e dar de volta toda a capacidade para começar a lidar com todos esses sentimentos. Ato contínuo, a vida vai se fazendo e a pessoa vai mantendo em si, seu amor próprio e dirigindo ao outro o que Freud chamou de “amor de objeto”, “libido de objeto”, ou seja, a capacidade de retirar amor de si e dar ao eleito do seu desejo. Bom, mas é sempre sensato lembrar que não se coloca todo o Amor no outro, caso contrário, não se mantém dentro de si o amor próprio e a condição de desenvolver a autoestima e a futura separação/independência!

O poeta narra alguém que se entregou todo a alguém e ficou sem vida —-“pelo bem que te fiz, padeço agora a saudade do mal que me fizeste”.

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Há pessoas que por imaturidade, por escassez de vida psíquica, por insegurança e carência exagerada, entrega tudo ao outro – como se diz, vende a alma pro Diabo. Fica sem alma, é claro, sem vida própria. O outro passa a ser “ele mesmo”: essa é a loucura, a doidice, o “pobre moço” dos versos do poeta.

Estamos diante de uma questão importantíssima na vida de cada um —- desenvolver individualidade, privacidade, amor próprio, independência, mesmo amando alguém. Somos seres juntos e separados, somos pessoas que caso entreguem toda a sua vida a outrem, cometem um “suicídio em vida”! Ninguém tem o direito de retirar todo o amor de si mesmo, e nós não podemos esvaziar a nossa amorosidade, pois se assim acontece não sobra nada a não ser a falta de amor a si próprio e um grande sentimento de vacuidade.

Atualmente é muito comum falar em relações fusionais, relações de extrema dependencia, como se as relações humanas fossem idênticas às relações com as drogas. Por quê? Por que desde criancinha imaginamos que encontraremos a pessoa ideal, salvadora, onipresente, onipotente e onisciente. Caso encontrássemos realizaríamos a “fantasia de autossuficiência” e jamais dependeríamos de alguém e não haveria conflito —- “Eu me bastaria”! Doce ilusão, a vida é um exercício constante de capacidade de tolerar dependência e independência.

O poema de Guilherme de Almeida é uma sacação para um alerta — “padeço agora a saudade do mal que me fizeste”, e eu acrescentaria: do mal que fiz comigo também! Relação é uma dupla, uma responsabilidade mútua e não necessariamente uma vitimização.

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Em outro poema de Guilherme de Almeida —- “Os Últimos Românticos”, ele versa: “Somos o par mais poético e perfeito/ dos últimos românticos…/ Teu passo/ cantando no jardim,/ marca o compasso/ do coração que bate no meu peito”.

Note-se a insistência romântica, mas é importante ler como metáfora, pois o romantismo/realismo deve ser um par e não uma excludência.

 




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