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Você acha que dormir é perda de tempo?

Por que é importante mantermos o sono regulado? O cérebro para de funcionar enquanto dormimos? O que é o sono, afinal? O artigo de hoje explica tudo isso:

Por Edson Shu 04/07/2023 5h00
Foto: Cottonbro Studio/Pexels

Cresci ouvindo comentários como:

  • “Quem dorme não produz”;
  • “Para que dormir? É perda de tempo”;
  • “Enquanto alguns dormem, outros trabalham”;
  • “Passamos 1/3 da vida dormindo, poderíamos estar fazendo algo útil”;
  • “Que sujeito preguiçoso, só dorme!”.

Quem de vocês ja ouviu isso ou um dia pensou assim?

A vida contemporânea é competitiva; dedicamos grande parte do dia às nossas tarefas profissionais, sociais e familiares. Às vezes, ouvimos: “Pena que o dia tem apenas 24 horas. Infelizmente, não temos tempo, nem para dormir.”

Portanto, vamos conversar sobre sono?

Hoje, sabemos que o sono é um dos momentos mais importantes do dia. Alimentar-se, urinar, defecar e dormir são comportamentos igualmente essenciais para a sobrevivência do homem. Sem dormir, simplesmente não há como uma pessoa viver. No entanto, de vez em quando, alguém me pede: “Dr. Shu, preciso de uma receita para ficar acordado essa semana, não posso dormir, estou estudando para as provas da faculdade”. Isso me leva à reflexão: para quem conhece esse assunto, é como se a pessoa pedisse uma receita para não urinar ou evacuar durante uma semana. Simplesmente parece absurdo.

Para entender o sono e o seu papel, é fundamental conhecer o conceito do ciclo sono-vigília, o qual o ser humano passa a vida toda alternando entre os estados de sono, quando o indivíduo dorme e descansa, e de vigília, quando fica acordado, realizando as tarefas cotidianas. Para a maioria das pessoas, a alternância fisiológica entre dormir e ficar acordado coincide, respectivamente, com a alternância entre a noite, quando o ambiente está escuro, e o dia, quando está claro. Em outras palavras, a maior parte das pessoas dorme no escuro da noite e permanece desperta à luz do dia.

Afinal, o que é o sono?

Sono é um estado reversível de funcionamento cerebral caracterizado por redução da percepção do meio ambiente e repouso do corpo. É um processo comportamental em que, para descansar a mente e o corpo, a pessoa se desliga parcial e seletivamente do meio externo, ainda podendo despertar de imediato com determinados estímulos, como uma mãe que acorda com choro do neném, um médico que desperta com chamado de urgência, um estudante que “pula” da cama com o despertador para estudar de madrugada, dentre outros. Os indivíduos dormem preferencialmente deitados, no plano horizontal ou próximo do horizontal, ou sentados, apoiando a cabeça, tronco e braços na superfície de uma cadeira ou mesa, por exemplo. Em geral, não se consegue dormir em ortostase (em pé), exceto em situações específicas como sonambulismo.

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Foto: Koolshoote/Pexels

Todo ser humano dorme, desde a vida intra-uterina até a velhice. Não existe ser humano que não dorme. Dormir faz parte do funcionamento normal e imprescindível do organismo humano. Sono adequado é necessário para a longevidade da vida humana.

O cérebro para as suas atividades para descansar?

Embora o sono tenha aparência de estado passivo, o cérebro encontra-se funcionalmente bastante ativo neste período. O cérebro nunca para para descansar, apenas passa a funcionar de maneira diferente — se parasse para descansar, não haveríamos continuidade dos movimentos respiratórios nem produção apropriada dos hormônios, dentre outros exemplos.

Semelhantemente ao coração, o cérebro descansa funcionando; já pensou se um deles resolvesse parar para descansar?

Por que o ser humano dorme?

Segundo a teoria da restauração, as pessoas dormem com objetivo de descansar e recuperar as funções do organismo para o próximo período de vigília. Já a teoria da adaptação diz que o ser humano dorme para economizar energia durante a escuridão da noite, uma vez que o olho humano tem dificuldade de enxergar ambientes escuros. Ambas as teorias podem estar corretas.

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Quais são as funções do sono?

  • Produção de melatonina, hormônio secretado pela glândula pineal, o qual regula os ritmos circadianos e sazonais; esse hormônio é produzido no início da noite e durante o sono, sinalizando ao organismo que o meio externo já anoiteceu, além de indicar a estação do ano, o que permite ativação de mecanismos adaptativos para o escuro, frio, perigo, dentre outras condições. Convém ressaltar o papel dos núcleos supraquiasmáticos hipotalâmicos, os quais são conectados à glândula pineal, na regulação do ciclo sono-vigília e ciclo circadiano, quando as funções fisiológicas se repetem a cada 24 horas.
  • Regulação de hormônios do organismo como os da hipófise (ACTH, GH, TSH, FSH), tireoide (T3 e T4), pâncreas (insulina), glândula adrenal (cortisol, aldosterona), estômago (grelina), tecido adiposo (leptina), dentre outros. Alterações do sono podem associar-se a obesidade e diabetes.
  • Controle do sistema cardiovascular, incluindo da pressão arterial. Alterações do sono podem causar hipertensão arterial e elevar o risco de evento isquêmico cerebral e cardíaco, arritmia cardíaca, etc.
  • Proteção e manutenção das conexões neurais relacionadas à cognição, incluindo memória. O sono favorece a consolidação da memória e prepara o cérebro para novas aprendizagens. Noites mal dormidas diminuem o desempenho da memória e da aprendizagem.
  • Modulação do comportamento social e alimentar. Disfunção do sono pode provocar irritabilidade, mal humor, ansiedade, depressão e compulsão alimentar.
  • Controle do comportamento sexual-reprodutivo e mediação materno-fetal. Disfunção de sono pode causar falta de libido, impotência sexual, redução na produção de esperma, dor na relação sexual, ou mesmo, hiperssexualidade, etc.
  • Regulação do sistema imune. Qualidade ruim de sono pode causar imunossupressão e aumentar o risco de câncer de próstata, mama e intestino, além de infecções. Estudos revelam que vacinação é menos efetiva em pessoas com privação de sono.
  • Regulação dos processos de envelhecimento. Dormir bem pode retardar o envelhecimento do organismo.
  • Regulação dos mecanismos da dor. Dificuldade de sono e noites mal dormidas ocasionam cefaleia e dores no corpo.
  • Limpeza ou remoção de produtos do metabolismo cerebral que são acumulados durante o dia, como toxinas, radicais livres e proteínas nocivas, através do sistema glinfático, onde o líquido cefalorraquidiano passa pelo parênquima cerebral retirando os metabólitos nocivos. O acúmulo de toxinas pode, teoricamente, provocar depressão, ansiedade, confusão mental, desatenção, sonolência, dificuldade de memória e, a longo prazo, elevar o risco de doenças inflamatórias e degenerativas cerebrais como demência.

Você deve ter percebido que uma boa saúde começa com uma boa noite de sono. Entende a importância de dormir bem? Continuarei falando sobre sono no próximo artigo. Enquanto isso, você pode assistir mais sobre o tema no vídeo abaixo, que vai ao ar nesta quarta-feira (5):






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