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Histórias da Bola

Vargas e o Fla-Flu

Para garantir a realização de um clássico inesquecível, Gilberto Cardoso e Fábio Carneiro de Mendonça foram até o Palácio do Catete convidar o então presidente da república Getúlio Vargas para comparecer ao Clássico das Multidões

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O presidente rubro-negro Gilberto Cardoso não perdia tempo para promover o que o Flamengo participasse. Como aquele Fla-Flu de 14 de outubro de 1951, marcado para o Maracanã, pela nona e penúltima rodada do primeiro turno do  Campeonato Carioca.

Se o Flamengo, com seis pontos perdidos (ainda não se falava em pontos ganhos, o atual critério) vencesse, colaria no Fluminense, que tinha três e cairia para cinco pontos perdidos. Era por ali.

Mestre da emoções, Mário Filho, fazia uma tremenda promoção da partida, pelo seu Jornal dos Sports, inclusive, incitando as duas torcidas a travarem um grande duelo de vibração nas arquibancadas. Era só o que se falava naquele  Rio de Janeiro de uma época em que não conhecia violência de torcedores nos estádios.

Para garantir a realização de um clássico inesquecível, Gilberto Cardoso e o seu equivalente tricolor Fábio Carneiro de Mendonça foram até o Palácio do Catete convidar o presidente (da república), Getúlio Vargas, para comparecer ao que jornais e rádios passavam aos torcedores como Clássico das Multidões.

Getúlio estava informado do tamanho do amor de Gilberto pelo Flamengo, bem como ser o doutor Fábio um gentleman da mais fina sociedade carioca – se Cardoso fora médico do Fla, o outro fora atleta do Flu. E o homem saiu da audiência entusiasmado pelo que ouvira dos dois dirigentes.

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 Dois dias depois, a alma desportiva do Rio de Janeiro lotava  o Maraca, onde o presidente Vargas chegou distribuindo sorrisos e acenos para o público que o aplaudia.  Sentou-se, entre Cardoso e Mendonça, na tribuna de honra, e gostou do o show das torcidas – a do Fla comandada por Guimarães e a do Flu por Paulista.

Para os tricolores, era preciso mostrar que o seu clube não era só da elite, mas, também, do povão. Por isso, levou para o estádio uma escola de samba que apresentou-se bem antes de o árbitro Mário Vianna apitar bola rolando. Mais: abriu, no centro do gramado, uma enorme caixa de pó de arroz, da qual saiu a bela tenista tricolor Terezinha del Panta. De sua parte, a rubro-negra charanga de Jaime de Carvalho não deixava a animação por menos.

O presidente Vargas usava muito os desportos para propagandear o seu regime. Já havia comparecido até a corrida de automóvel.  Se já tinha ido a um Fla-Flu, sem programação de sua assessoria, surpreendendo a imprensa, porque não iria àquele tão promovido?

Vivo, o Vargas, que não acompanhava resultados do futebol, como a maioria dos torcedores, assim que a banda tocou o hino dos dois clubes – e as respectivas bandeiras foram hasteadas -, indagou a Gilberto Cardoso como andava o Flamengo – vencera Bonsucesso (2 x 1); São Cristóvão (2 x 1) e Vasco da Gama(2×1); empatara com Olaria (2 x 2) e São Cristóvão (1 x 1) e perdera de Botafogo (1 x 2) e Bangu (0x2) -, mesma pergunta feita ao Mendonça – Flu 3 x 0 Canto do Rio; 3 x 1 Bonsucesso; 4 x 0 Madureira; 5 x 0 São Cristóvão; 5 x 3 Bangu; 5 x 1 Olaria; 1 x 1 América e 2 x 4 Vasco da Gama. Sacando que o Flu tinha melhores resultados, ficou na dele, sem fazer nenhum comentário sobre perspectivas para o prélio.

O máximo que o Vargas fez foi olhar  para Gilberto e Fábio, e dizer-lhe que gostara de ver a torcida tricolor saudando a rubro-negra, por uma faixa onde se lia: “A torcida pó-de-arroz homenageia o Popeye” – este, personagem norte-americanos de quadrinhos e desenhos animados, representando um marinheiro  que o desenhista argentino Molas tornou-o mascote flamenguista.

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Fora uma festa tão bonita, que muitos torcedores não saíram do estádio, imaginando que o presidente Vagas fosse agradecer aos cerca de 130 mil presentes  pela demonstração de brasilidade, do nacionalismo que ele pregava. Mas não estava previsto e o presidente saiu antes que o Jornal dos Sports  levasse para cumprimenta-lo os membros do júri que analisara o duelo das torcidas – Manoel Barcelos (presidente da Associação Brasileira de Rádio); Lourival Pereira (da Associação dos Cronistas Carnavalescos); Canor Simões Coelho (dirigente da Associação Brasileira de Imprensa) e Oduvaldo Cozi  (narrador e representante da ala radiofônica.  

Quanto ao placar, naquele dia muito festivo quem mais comemorou foi o Flu, pelo 1 x 0 anotado por Orlando Pingo de Ouro. 


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