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Periquito x Águia

Gama e Taguatinga deveriam jogar, no domingo, mas São Pedro abriu as torneiras do Céu e não deixou a bola rolar

Por Gustavo Mariani 28/09/2021 10h00
Foto: Gabriel L. Mesquita

A pugna ficou para uma noite da semana que começava. Era outubro de 1980 e os gamenses lutavam pelo bi. Por jogar em casa, no Bezerrão, o Gama desatinou-se logo em busca do gol. Com três minutos de partida, já havia feito quatro ataques. Ao “Taguá”, restava defender-se da “blitzkrieg” prometida pelo treinador Ayrton Nogueira. Tentar revidar, de peito aberto, seria encomendar um relâmpago em sua cabeça.

Blitzkrieg, durante a II Guerra Mundial, eram ataques alemães-relâmpagos. Para o Gama, deveriam ser ataques intermitentes. Então, pelo seu “plano de guerra”, o meia-armador Manoel Ferreira seria o “lightning war” de primeira hora, lançando Lino, pela direita, tendo aquele sempre a aproximação de Fantato e de Ernani Banana, para receberem munição, contando, ainda, com a aproximação do lateral-direito Carlão. Como o mesmo era feito pela esquerda, o Gama munia-se de oito “blitzkriegers”, com ataques sucedendo-se, sem parar. As vezes, Fantato retraía-se e Banana ocupava o seu espaço, confundido a defensiva do “Águia”.

A cada ofensiva do Gama era um Deus nos acuda para o goleiro Jonas e os seus protetores Walter, Duda, Mauro e Galvão. Do meio-de-campo, Euzébio, Lobão (este não aguentou o trampo e cedeu vaga para Wilson) e Aldair tinham de recuar e dar uma ajudinha. O Gama “alemãozava”, mas o gol não saía. A torcida impacientava-se, pois de nada estava servindo domínio total. Até que, aos 30 minutos, a bola bateu na rede. Mas de forma que nada tivesse a ver com o esquema tático da “blitzkrieg”. O ponteiro-esquerdo Robertinho cobrou escanteio e o baixinho Lino, de 1m56cm, de altura, conseguiu chegar na bola antes de Mauro e Duda, zagueirões medindo mais de 1m80cm. E, no placa, Gama 1 x 0, placar da etapa inicial, com renda já anunciada, em tempos de inflação alta: Cr$ 142 mil, 860 cruzeiros, o que dava para pagar pela compra das bolas e das laranjas que os jogadores consumiam após as partidas.

No segundo tempo, a “blitzkrieg” do Gama não conseguiu acender mais nenhum relâmpago. Tudo por conta da contusão de Robertinho. O meia Luís Carlos, que foi para o seu posto, não tinha nem arremedo de suas características, e não acertou um lance. Com aquilo, Boni, que substituíra Robertinho, ficou perdido, além de Fantato ficar devendo. Restou a Banana se espremer.

Para o “Taguá”, ter suportado uma pressão sufocante no primeiro tempo e sofrer só um gol, foi um presente do Céu ter o rival mais manso na nova etapa. Os atacante Kim, Wilton e Valdean (depois Josemir) que nem sabiam o que estavam fazendo antes em campo, até tiverem melhores momentos. Mesmo assim, não dava para virar a conta.

Assim, o treinador Eurípedes Bueno achou que o placar estava bom demais e mandou o Taguatinga administrar a derrota. Perder, por 1 x 0, estava bom demais. Após o apito final, por Clésio Penoni (auxiliado por Antônio Barbosas e Luís Vilhena), o goleiro gamense Hélio, o lateral-esquerdo Odair Galetti e os zagueiros Quidão e Zé Luis concederam entrevistas ao repórter Chico Legal, da Rádio Planalto, dizendo que não gostaram da vitória, porque não pegaram na bola.

RESUMO DA ÓPERA: era primeira vez que um derrotado gostara da derrota e vencedores não gostaram da vitória. No futebol candango dos inícios de profissionalismo acontecia de tudo.

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