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Histórias da Bola

Parreira, o chorão

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Assim que o árbitro Romualdo Arppi Filho, que tinha o apelido de “Ganso”, apitou o final do Campeonato Brasileiro de 1984, o treinador do Fluminense, Carlos Alberto Parreira, foi o primeiro tricolor a ir para o vestiário. Sentou-se e desabou a chorar. Era uma descarga de tantas emoções acumuladas, de tanto ouvir e ler que ele “era um técnico sem títulos”. Agora, não podiam mais cobrar.

Parreira temia muito pelo seu futuro na carreira. Ser campeão, naquele 27 de maio, era a chance de parar de ser rotulado de “teórico que jamais chutara uma bola”, como tentavam diminuir-lhe, comparando-o ao “Capitão Cláudio Coutinho” – ex-técnico do Flamengo e da seleção brasileira, que incluíra no dicionário do futebol canarinho os termos “overlaping” e ponto futuro.

De tanta preocupação com o placar, aos cinco minutos do primeiro tempo, vendo o Vasco “aditivado por um motor turbinado”, Parreira pediu, logo, ao preparador físico Admildo Chirol, para aquecer o zagueiro Vica e o meia René. Teria que garantir o empate, de qualquer jeito. Mas nem precisou usá-los, pois sua rapaziada se segurou bem.

Aos 38 minutos, Parreira foi ao desespero, chegando a dar três murros no gramado, anormal para sujeitos educados e serenos, como ele. Tudo porque Assis e Washington perderam uma excelente chance de gol. Realmente, coisa de fazê-lo levar as mãos à cabeça e sentar-se, desolado, no banco dos reservas.

Famoso por gravar partidas inteiras, em “slides” (fotografia em desuso), na manhã da final daquele 1984, Parreira trocou as modernidades da tecnologia da época, por certas “baianidades”, revelando um lado desconhecido pela torcida: o de supersticioso.

Acordou às 09h30 e rumou para a praia da Barra da Tijuca. Contemplou a imensidão do mar e caiu nas águas frias do seu Rio, para tomar um “banho de descarrego”. Depois de “bater um papinho”, com Iemanjá, a Rainha do Mar, vestiu uma camisa branca, “para lhe dar sorte”.

Mesmo animado por seus “contatos imediatos em outros níveis”, Parreira chegou tenso ao Maracanã. Falava pouco e evitava a turma do microfone. Quando a sua rapaziada entrou em campo, sentou-se no banco dos reservas e avisou aos repórteres que não falaria enquanto a bola rolasse. Depois,ficou de pé, com os cotovelos beira do gramado. As vezes, comentava algum lance, com Admildo Chirol

. Quando o Vasco esquentou a pressão, ele aproveitou uma visitas de Delei à linha lateral do gramado e o mandou tocar a bola, acalmar a galera. Só depois do apito final, finalmente, sorriu. Conferiu a festa da rapaziada e da torcida, e se mandou pro vestiário, onde elogiou sua patota. E descarregou.

Parreira disse que o mais marcante fora a resposta que dera aos críticos que ajudaram a lhe derrubar da Seleção Brasileira, embora garantindo não ser revanchismo – estava passando o cargo para Edu Coimbra, contra quem decidira o Brasileiro. Preferia falar de solidariedade, segundo ele, o maior mérito do Flu na finalíssima, que tivera o Vasco melhor, veloz e criando chances de gol, no primeiro tempo.

E a ajuda de Iemanjá? Parreira viu o rival cansando, na etapa final, permitindo ao seu time dominar o jogo, de um 0 x 0 justo, do seu ponto de vista. Enfim, Parreira campeão.


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