Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Blogs e Colunas

O último Mané

Poetas escreveram que “Garrincha saiu desta vida para ficar na história”

Por Gustavo Mariani 24/10/2023 11h39

Exatamente! Em 30 de janeiro de 1983, para os humoristas, ele chegou em uma nova dimensão e já foi convocado, por São Pedro: “Vamo qui vamo, Mané!. A seleção do Céu está perdendo, por 2 x 0, do time do inferno. Vá lá, entorte os capetas e vire o placar”, que Deus tá na torcida!

Aqui na terra, quis o destino eu Garrincha encarnasse o papel do “Demônio das Pernas Tortas”, pela última vez, exatamente, pelo Natal de 1982, quando vestiu a camisa de um time amador de Planaltina-DF, chamado Londrina e que nem existe mais.

O relógio marcava 15h30 do dia 25 de dezembro de 1981, no Estádio Adonir Guimarães, em Planaltina. O árbitro Eano Carmo Correa, que iria apitar a pugna, aproximou-se dele e disse-lhe: “Antes de mais nada, quero agradecer-lhe por estar vivo”. Mané não entendeu nada. Eano, relembrou-lhe: “No tempo em que eu apitava pelo Departamento Autônomo da Federação Carioca de Futebol, fui dirigir um jogo, em sua terra, Raiz da Serra. De repente, um jogador resolveu me desmoralizar, arrancando o apito da minha boca, me chamando de ladrão. Você foi até ele, passou-lhe um carão e o obrigou a devolver-me o apito e a me pedir desculpas. Só assim saí vivo do campo”, contou.

Instantes depois, o Mané rolava a sua última bola, partindo para cima do seu último “João”, como ele chamava os marcadores, dos quais nunca sabia do nome. O cara da vez era Marcelo, isto é , Marcelino Teixeira de Carvalho Branco, que havia combinado, com Manoel Esperidião Filho, o Manelzinho, promotor do jogo, não dificultar a marcação, para a torcida vibrar com Garrincha, que topara a proposta de marcação folgada. E, já que seria daquele jeito, no primeiro lance, Mané, malandro, dominou a bola e partiu pra cima do seu último “João”. Gingou, a torcida gostou, ele passou e cruzou. Não acertou o alvo, para a galera gritar “uuuuuhhh!”.

Aos 49 anos de idade, sem se cuidar, tendo passado por problemas com o alcoolismo, Garrincha não teria muito o que mostrar. Mesmo assim, colocou para trabalhar o goleiro Paulo Victor, do Fluminense e da Seleção Brasileira, que estava em férias por aqui e foi para o gol do time da Associação de Garantia ao Atleta Profissional do DF. “Mané chutou duas vezes ao meu gol. Da primeira, cobrou uma falta, da entada da área, me obrigando a ceder escanteio, na base da experiência; da segunda, ele passou por dois e cruzou, para eu ceder novo escanteio”, contou Paulo Victor, residindo, atualmente, em Brasília.

Garrincha não teve fôlego para jogar durante todo o segundo tempo. Aos 15 minutos, foi substituído por Valdmar Pereira da Silva, um goiano que ficou famoso em sua terra, São Domingos, por causa daquilo. Como o placar foi o que importou, 1 x 0 para o time da casa, Garrincha saiu de campo aplaudido, posando para fotos e distribuindo autógrafos. Na véspera da partida, como se tivesse lido o seu futuro, dissera a Manelzinho, de quem eram amigo, desde 1960, quando o organizador do amistoso jogava pelo América-RJ. “Talvez,esta seja a minha última partida”. E foi

Antes do jogo daquele Natal de 1982, Garrincha havia jogado só duas vezes no DF. Nos amistosos Botafogo 6 x 0 Clube de Regatas Guará, em 17 de setembro de 1961, quando marcou um gol, e Flamengo 3 x 1 Seleção Brasiliense, em 3 de março de 1969. Como botafoguense, a patota era: Manga (Adalberto), Cacá, Zé Maria, Chicão e Nilton Santos (Rildo); Garrincha, Amoroso, Amarildo (Aírton) e Zagallo. Já o seu time flamenguista teve: Dominguez, Marcos, Onça, manicera e Paulo Henrique; Rodrigues Neto e Liminha: Garrincha (Cardosinho), Dionísio (Zezinho), João Danel e Arilson (Reyes). Na última patota do Mané, todos os atletas do Londrina jogaram: Luis Ribeiro, Joel, Paulo Ferro, Vicente e Tonho Esteves; Israel, Tião e Amauri; Garrincha, (Valdmar),Tião Mafra, Paulo Lira, Tião Jorge, Apolinário, Pires, Geraldo Martins e Cirilo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE






Você pode gostar