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Histórias da Bola

O interrompido goleiro Franz

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Há atletas talentosos abandonados pela sorte no momento em que deveria atingir o a glória em sua carreira. Caso do atacante Tesourinha, do Vasco da Gama, que seria o titular da ponta-direita da Seleção Brasileira da Copa do Mundo-1950. Sofreu uma lesão, pouco antes do início da competição, e não teve como recuperar-se a tempo. Em 1958, foi a vez de um outro vascaíno, o lateral-direito Paulinho de Almeida.

Em 1970, quem passou pela situação foi um outro ponta-direita, Rogério Hetmaneck, do Botafogo. Estava jogando demais, quando uma contusão o tirou da rota do tri canarinho. Hoje, a medicina esportiva o curaria, rápido. Com a sua dispensa, Jairzinho ganhou a sua vaga e tornou-se uma das estrelas da Copa do Mundo. Em 1994, a bola da vez foi o zagueiro Ricardo Gomes, revelação do Fluminense, dispensado às vésperas do Mundial, por se machucar em um amistoso contra os canadenses. Deveria, como o capitão do time, ter levantado a taça do tetra, o que ficou a cargo de Dunga.

Um outro exemplo marcante aconteceu com o goleiro Franz, revelado pelo carioca São Cristóvão. Estava jogando tanto que, quando a Confederação Brasileira de Desportos-CBD convocou jogadores de times pequenos para disputar – foi campeão – o Campeonato Sul-Americano de Acesso-1964, nem se discutiu quem seria o goleiro titular. Depois do título, a entidade passou a vê-lo como virtual dono camisa 1 para a Copa-1966. Inclusive, quando os repórteres insistiam para a comissão técnica adiantar os convocados para uma excursão ao exterior, a única resposta era: convocação certa só a de Franz.

E Franz foi buscado no “pequeno” São Cristóvão pelo “grande” Flamengo. Enfrentando o Botafogo, pelo Torneio Rio-São Paulo-1965, em 17 de abril, diante de 40.800 pagantes, o zagueiro gaúcho Luís Carlos Freitas atrasou-lhe mal a bola, permitindo a Jairzinho acreditar no lance, pular e cabecear, tentando o gol. Resultado: quando descia do pulo, o atacante botafoguense chocou-se com Franz e bateu, como seu antebraço, no ombro esquerdo do goleiro, que saía do arco para tentar a defesa. No ato, Franz sentiu um estalo, dor forte e, quando estatelou os seus 73 quilos e 1m80cm pelo gamado do Maracanã, percebeu a ponta do osso da clavícula esquerda forçando a pele. Então, pediu aos colegas da equipe – Murilo, Ditão, Luis Carlos Freitas (Zózimo), Paulo Henrique, Carlinhos “Violino”, Fefeu; Amauri, Evaristo (Tião), Berico e Paulo Alves (Foguete), dirigidos por Flávio Costa – para não levantá-lo, pois tinha a certeza da fratura e preferia a chegada do socorro médico. Levado, de maca, para o vestiário, solicitou aos repórteres não falarem da gravidade da contusão, pois a sua mulher estava no oitavo mês de gravidez, poderia ouvir e piorar as coisas.

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Atendido pelo médico Paulo San Tiago, Franz foi levado à Beneficiência Espanhola, recebeu uma injeção que aliviou, um pouco, a dor, e passou por uma radiografia na clavícula. Em 11 de maio, passou por cirurgia – entre as 10h55 e às 12h – que inseriu-lhe um fio de metal dentro osso partido. Um das pontas ficou do lado de fora, mas seria retirada tão logo a fratura estivesse consolidada. Levaria 45 dias para voltar a treinar, contando com uma semana de internamento no hospital.

A semana passou rápido. A recuperação, também. Ficou mais um pouco e terminou dispensado pelo Flamengo. Andou pelo Vasco da Gama, mas nunca mais nem chegou a ser cogitado pela Seleção Brasileira.

Nascido, em 22 de maio de 1936, em Niterói, Franz August Heilfret, iniciou a carreira pelos juvenis do Fonseca, de sua cidade. Tentou o Bangu, ainda amador, mas profissionalizou-se pelo América, em 1956. Próximo time, o Canto do Rio, do qual saiu, em 1961, para o São Cristóvão, que o negociou, com o Flamengo, em 1964, ficando por 48 jogos, até 1966. Após ter sido vascaíno, em 1967, entre o ano seguinte e 1969 defendeu o Olaria. Voltou a ser são-cristovense, entre 1970 e 1973, e sacou que era hora de arrumar um outro emprego. Arrumou o de treinador do Madureira, mas não foi longe. Tornou-se servidor público: fiscal de rendas da Prefeitura de Niterói, pelo qual aposentou – currículo de boleiro prejudicado por uma fatídica bola mal atrasada por um zagueiro. Há 52 temporadas.




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