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Histórias da Bola

Getúlio Vargas no arraiá

Ditador compareceu e devorou salgadinhos na festa do Almirante

Por Gustavo Mariani 16/06/2021 12h32

O presidente Getúlio Vargas jamais foi reconhecido como um desportista. Só como advogado e político. Quando adentrou ao mundo ditatorial, como presidente golpista que mandou no Brasil, por 15 temporadas, não demorou a ver que povo e bola faziam grande tabelinha. E se escalou nesse jogo.

Malandro, o homem comparecia ao Maracanã, até quando não era convidado. Antes de uma Copa do Mundo, visitou a Seleção Brasileira e fez de sua filha Alziara a madrinha do escrete nacional. Getúlio comparecia até em corrida de automóveis, para cumprimentar o vencedor – e aparecer na imprensa como homem do povo.

No meio daquele rala-e-rola, Getúlio ficou próximo do Vasco da Gama, presidido por Cyro Aranha, irmão de Osvaldo, o ministro das Relações Exteriores. Mas dizem que foi o seu sobrinho predileto, o Vargas Neto, um picareta desportivo, quem o aproximou de São Januário. Claro que os vascaínos adoraram – e o seu estádio entrou para a história política do país, sendo usado para grandes festividades do Governo no Dia do Trabalhador, o primeiro de maio.

Getúlio Vargas recebia a diretoria do Vasco da Gama no Palácio do Catete e até ajudava o clube a contratar jogadores, casos de Isaías, Lelé e Jair Rosa Pinto, astros do time do Madureira e que todos queriam. Sendo o presidente do Madura um bicheiro, Getúlioe o encostou na parede e o intimou a negociar os três com a vascandade.

Não ficava só naquilo a bola rolada entre o presidente e o Vasco. Esta que vem agora é uma história iniciada antes mesmo de Getúlio tornar-se ditador do Brasil. Era 1928 e o Vasco da Gama reunia os seus jogadores de futebol para tentar formar um time, também, de basquetebol, com seleção a cargo do treinador uruguaio Ramon Platero. Com os treinos vieram arrasta-pés na quadra, aprontação do associado e Ismael de Souza. Depois mais festas e, com aquilo, o Departamento Social do clube e os bailes caipiras, com o primeiro,em 1936, para meia-dúzia de gatos pingados, em uma sala do ladoda tribuna de honra, onde Getúlio, brevemente, estaria celebrando glórias junto ao povão.

O baile não estouro a boca do balão, mas os comentários sobre ele bombaram, levando o Ismael a preparar a quadra desportiva para a caipirada de 1937. Pegou o tablado do Tetro João Caetano emprestada e fez a farra no gramado de São Januário. Sucesso total! Em 1939, mais de 10 mil vascaínos compareceram ao Arraial da Colina. No São João seguinte, festanças em um arraial português, por trás na curva das arquibancadas do estádio; um brasileiro, no ginásio, e, no gramado coberto por tablado, uma cidade montada com tudo para diversão dos foliões.

Avisado de que umas 80 mil pessoas estavam na caipirada do Vasco da Gama, o presidente Getúlio Vargas convocou, urgente, todo o ministério, e se mandou com a patota pra lá. Era gente demais pra ele desperdiçar a hora. Avisado da chegada do homem, Cyro Aranha correu ao seu gabinete, para trocar a roupa caipira que usava por um elegante terno, e chamou Álvaro Ramos, o seu então diretor de festas, para recepcionar o ditador em um barraquinha repleta de salgadinhos, como mostra a foto.

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Conta-se que, naquela noite, Getúlio Vargas não queria ser advogado ditador, presidente. Só traçador de salgadinhos juninos. Ele e o seu ministério deram o maior preju ao arraiá do Vasco, pois comeram e beberem muito – e saíram sem pagar.






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