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Histórias da Bola

Armando arma o matador

Quantas vezes amaldiçoei os rushes de Ademir. Ele arrancava do meio do como, devastador como um raio, franqueava a grande área e chutava. Flecha certeira…

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No auge do seu futebol, entre a década de 1940 e o início da de 1950, o goleador vascaíno Ademir Menezes venceria qualquer disputa eleitoral contra quem pintasse. O presidente Getúlio Vargas não era páreo para ele. Até torcedores adversários contemplavam a sua bola. Um deles, o cronista esportivo de melhor texto, o “poeta” Armando Nogueira, certa vez, escreveu sobre o atacante:

“Se o futebol me quisesse dar um presente, bastaria que me desse um domingo inteirinho só de gols de Ademir. Nessa tarde de evocações eu reveria, sobretudo, certos gols que ele fez contra o meu time (Botafogo) e que eu, doido de paixão, jurava que eram feitos só para ofender meu coração.”

Quantas vezes amaldiçoei os rushes de Ademir. Ele arrancava do meio do como, devastador como um raio, franqueava a grande área e chutava. Flecha certeira. Mais uma bola no fundo da rede e mais um goleiro desvalido. Era assim que terminavam os meus pesadelos em tardes de Ademir.

Até então, eu não tinha vivido bastante para perceber que Ademir era um artista e que o gol, longe de ser um infortúnio, é uma graça que o futebol oferece para fazer cócegas no coração dos homens.   

Hoje, que o futebol na minha vida é mais saudade do que esperança, mestre Ademir costuma aparecer no cenário das minhas insônias, mais artilheiro do que nunca. Ademir guardava em campo o rigor de um guerreiro espartano. Tinha a retidão de um cavaleiro. Nunca perdeu a esportiva. Era um fidalgo do jogo. Alto, fino de corpo, tinha as  pernas alinhadas e do rosto que parecia ser talhado a mão, sobrava tanto queixo que, daí, viria o apelido de Queixada.

É dia de clássico. O estádio pega fogo. Ademir pega a bola nomeio do campo e dispara. Na crista do corpo que corre em aceleração vertiginosa, a lâmina do queixo vai cortando em campo minado, o caminho do gol. Faz o gol e não pára de correr. Atravessa a linha de fundo, épico, braços abertos ao delírio da multidão. Contorna as traves num trote triunfal. Retorna ao centro do campo. Cada gol de Ademir tinha um grandioso remate de ópera.

Se eu soubesse que um dia o futebol dele ia ter fim, teria pedido a Deus um par de olhos com uma cruz-de-malta na pupila só para ver, à luz do amor, todos os gols de Ademir contra mim”.

Armando encerrava esta crônica, republicada por Lance A + – Nº 300, de 10 a 16 de junho de 2006 -, dizendo que Ademir era um craque arrebatados e uma santa criatura que bem-merecia a glória eterna.       


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