A FIFA divulgou dias atrás a lista da arbitragem para a Copa do Mundo de 2026 e o Brasil aparece no topo, com nove representantes entre árbitros e assistentes. É um recorde, um feito inédito e, em outras circunstâncias, motivo de celebração. Mas a notícia provoca mais desconforto do que orgulho quando colocada em perspectiva, porque revela muito mais sobre o que deixamos de ser do que sobre aquilo que conquistamos.
Não se trata de desmerecer os profissionais escolhidos, que chegam ao Mundial por mérito. A questão é simbólica. Durante décadas, o Brasil foi reconhecido mundialmente não por apitar jogos, mas por pensar o jogo. Exportávamos treinadores, ideias, conceitos. Éramos referência técnica e intelectual dentro do futebol, uma espécie de escola global que influenciava estilos, sistemas e mentalidades.
Esse protagonismo atingiu o auge em 2006, quando seis técnicos brasileiros participaram da Copa do Mundo, espalhados por diferentes seleções. Não era apenas uma coincidência estatística, mas a consolidação de um domínio.
Naquele auge de 2006, Carlos Alberto Parreira comandava a Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari estava à frente de Portugal, Zico dirigia o Japão, Marcos Paquetá liderava a Arábia Saudita, Alexandre Guimarães, brasileiro naturalizado, treinava a Costa Rica, e Renê Simões conduzia Trinidad e Tobago, formando um contingente que transformava o Brasil na principal referência técnica do mundo naquele momento.
O Brasil não só jogava bem, como ensinava os outros a jogar. Havia respeito, mercado, demanda. O treinador brasileiro era sinônimo de conhecimento e liderança.
Vinte anos depois, o cenário é oposto. Em 2026, não haverá nenhum técnico brasileiro comandando seleções na Copa do Mundo. Nenhum! Nem mesmo a Seleção Brasileira será dirigida por um dos nossos. A ausência é total e carrega um significado que vai além de uma simples mudança de geração. É uma quebra de tradição, um sinal claro de perda de espaço e de relevância no cenário internacional.
Ter o maior número de árbitros em um Mundial não altera em nada o nível do nosso futebol. Não revela talentos, não forma jogadores, não constrói identidade. É um reconhecimento técnico importante, mas periférico diante do que realmente importa. O futebol de um país se mede pela sua capacidade de influenciar o jogo, de produzir ideias, de formar lideranças capazes de conduzir equipes dentro e fora de campo.
O Brasil, que já foi protagonista nesse aspecto, hoje observa de fora. Enquanto nossos árbitros ganham espaço, nossos treinadores perdem. Enquanto participamos da organização do espetáculo, deixamos de interferir no seu conteúdo. E essa inversão diz muito sobre o momento que vivemos.
O nosso futebol, afinal, nunca foi sobre quem apita. Sempre foi sobre quem pensa. E, neste momento, o Brasil pensa menos do que já pensou.
