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A balela do interesse desportivo

Critica-se Neymar e outros nomes por aceitarem jogar na Arábia Saudita, mas o futebol sul-americano é igual ou pior que o árabe

Foto: Saudi Pro League/AFP

Muitos da imprensa esportiva gostam de desferir críticas a qualquer custo, principalmente quando se trata de grandes craques do futebol mundial indo para mercados alternativos, seja na Arábia Saudita ou nos Estados Unidos. Mas sempre se esquecem de olhar para o próprio umbigo. Por mais que o Brasil seja um grande celeiro de craques e tenha as maçantes cinco estrelas no peito, eles se esquecem que o futebol sul-americano é tão igual ou pior do que esses centros citados anteriormente.

A principal diferença entre Estados Unidos e Arábia Saudita em comparação ao Brasil é só uma: dinheiro. Os estadunidenses até possuem um teto de gastos em seus clubes, mas pagam salários astronômicos. Diferentemente do mundo árabe, onde quatro equipes possuem dinheiro ilimitado graças ao poderio do petróleo daquele país. Por isso, investem em grandes craques do futebol mundial com salários astronômicos, casos de Neymar, Karim Benzema e Cristiano Ronaldo. No Brasil, é impossível competir com esses dois países. Ainda assim, alguns clubes fazem loucuras para pagar o exigido por esses jogadores que vêm para cá.

Acontece que as críticas sobre a ida de jogadores para o mundo árabe não são só em função do alto valor pago a esses atletas, mas sim pelo “interesse desportivo” que eles possam apresentar. “Neymar deixou de disputar uma Champions League para jogar na Arábia”. E daí? Quantos jogadores que atuam no Brasil atualmente têm possibilidade de estarem no mercado internacional, mas decidiram traçar os seus rumos no futebol brasileiro?

Desportivamente falando, para esses atletas, jogar por aqui é a mesma coisa de estar no futebol árabe ou nos Estados Unidos. A única diferença é que os clubes brasileiros aceitam pagar o que eles pedem a qualquer custo. Somos a quarta opção! Ou vocês acham mesmo que alguns desses jogadores que chamamos de craques no Brasil não estariam na Europa, Estados Unidos ou Arábia Saudita se houvesse valores iguais ou maiores? Não sejamos ingênuos.

Para os nossos olhos, o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e a Libertadores são gigantes. Mas para o resto do mundo, não passa de um campeonato de clubes medianos, que contam com refugos do futebol europeu e, vez ou outra, revelam bons jogadores que possam valer a pena no futebol europeu. Nesse último caso, eles oferecem migalhas e nós, latinos desesperados, vendemos a preço de banana. Por aqui, achamos o que somos bons o suficiente para bater de frente com qualquer equipe mediana da Europa. Mas quando há esses embates, sofremos a duras penas para arrancar um empate e comemorar como se fosse algo incrível.

O que irrita nesses comentários é achar que o Brasileirão é tão forte, que somos uma potência futebolística. A vinda de jogadores estrangeiros de alto escalação para o país se deve principalmente pela falta de mercado lá fora ou em centros que pagam mais. Como somos trouxas o suficiente, pagamos salários astronômicos para ex-jogadores em atividades, como Vidal e Diego Costa. Suárez até foge à regra, mas bastou um rumor de que o Inter Miami-EUA gostaria de tê-lo que o interesse do uruguaio ficou grande em deixar o tricolor gaúcho. O mesmo valeria para Enner Valencia, atualmente no Internacional: vocês acham que eles vieram para o Brasil visando um “interesse desportivo”? Balela das grandes.

Hoje, a Liga Árabe desperta tanta atenção quanto alguns campeonatos da Europa. Arrisco-me a dizer que é melhor do que o Campeonato Francês. Os clubes possuem bons jogadores que jogarão o básico para serem campeões e ainda faturarem uma grana que durará até a sua quinta geração seguinte – senão mais. Seria a mesma coisa se esses craques viessem para o futebol brasileiro. Se Lucas Moura, desprezado no Tottenham, em dois jogos pelo São Paulo já demonstrou que é um atleta fora da curva para o futebol brasileiro, imaginem esses grandes nomes que foram para a Arábia Saudita? A questão é que não temos dinheiro o suficiente para bancá-los. Caso tivéssemos essa grana, estaríamos exaltando essas contratações. E para eles, desportivamente falando, não agregaria em nada em sua carreira.

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Criticar o “interesse desportivo” desses atletas é não olhar internamente e achar que somos potência. Se esses grandes craques não estão na Europa, é porque não têm quem deseje pagar uma quantia exorbitante que eles exigem. Por isso, a Arábia Saudita e os Estados Unidos viram uma opção. Assim como o Brasil, ainda que a última da lista.






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