Fala-se muito na decadência do PSDB, mas o partido mantém suas bancadas e até, em um esforço especial do amazonense Plínio Valério, conseguiu reconstituir sua liderança no Senado, enquanto o PDT perdia a sua por ficar com apenas dois integrantes.
Por isso, as ocorrências de ontem e do último final de semana podem marcar de vez o partido que já foi forte nos tempos de Leonel Brizola. Na manhã desta segunda-feira, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, a de sempre, organizou uma reunião de pequeno grupo de senadores situacionistas, na tentativa de montar um esquema protetivo para o depoimento que o presidente do PDT, Carlos Lupi, prestou à CPMI do INSS.
Ministro da Previdência quando começou o grosso do desvio de recursos dos velhinhos, Lupi não gostou de ser afastado e se recusou a ser rifado pelos governistas. Até a habitual sessão de mídia training foi esnobada. Passou a ser considerado uma bomba-relógio potencial, daí a montagem do esquema palaciano. Nenhum pedetista participou dele.
Considerada a única pedetista autêntica do Senado, a brasiliense Leila Barros usou o final de semana para se movimentar, mas nem interferiu na CPI. Lupi não assumiu culpas, nem acusou o partido, e muito menos Lula, mas admitiu que vários envolvidos nos desvios do INSS pertenciam ao PDT ou foram indicados por membros do partido, o que traz desgastes evidentes.
Esforço local

Foi nesse mesmo sentido que a senadora Leila Barros (foto), como presidente do PDT do Distrito Federal, passou o final de semana em um esforço para reconstituir o partido.
Organizou na sede nacional da legenda em Brasília um grande evento de filiação que reuniu mais de 600 pessoas e oficializou a entrada de cerca de 100 novos membros ao PDT.
O encontro contou com a presença e solidariedade de militantes de outros partidos, como a deputada federal Erika Kokay (PT), o presidente do Iphan, Leandro Grass (PT), o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, Ricardo Cappelli (PSB), o presidente do PSB-DF, Rodrigo Dias, o presidente do PV-DF, Eduardo Brandão, e o ex-secretário de Educação Rafael Parente.
Com o lema “PDT em ação”, o ato foi marcado pela acolhida aos novos filiados e, principalmente, pela reafirmação dos valores históricos do partido: democracia, justiça social e trabalhismo. Não se falou em Lupi.
Na abertura, Leila prestou homenagem póstuma a Georges Michel Sobrinho, presidente de honra do PDT-DF, falecido em agosto, destacando sua trajetória de compromisso com o partido. Não era para menos. Georges Michel era o último signatário vivo do documento que, ainda em Lisboa, criou o PDT para abrigar Brizola, seu amigo pessoal.
Em seguida, Leila agradeceu a presença das lideranças e militantes e reforçou sua disposição de continuar representando o Distrito Federal no Senado. “Este é um espaço de construção coletiva, de escuta e de protagonismo das nossas lideranças locais. O PDT cresce quando se abre para a participação popular e se conecta com os sonhos da comunidade”, afirmou a senadora.
O temor que Lupi inspira
O problema que Lupi inspira no PDT é sua falta de conteúdo ideológico. O PDT surgiu já titubeante, pois o objetivo real de Leonel Brizola era reassumir o antigo PTB, sigla de enorme repercussão em sua época.
Manobra do ainda prevalecente regime militar levou o TSE a entregar a sigla à arquirrival de Brizola, a igualmente ex-petebista Ivete Vargas, que acabou levando o controle da sigla ao governo e terminou em Roberto Jefferson.
Brizola assumiu o PDT, deu-lhe inesperada repercussão com suas duas vitórias para governador do Rio de Janeiro, mas a morte de seu único aliado de peso, Darcy Ribeiro, e o isolamento que se seguiu levaram o partido a minguar e acabar nas mãos de Lupi, com as modestas credenciais de ser o dono da banca de jornais em que Brizola se abastecia e com quem sempre batia um papinho.
Isso levou-o a presidir o partido e, nessa condição, ser duas vezes ministro em governos petistas. Soube controlar o PDT com mão de ferro e se manteve fiel à aliança petista, mas sempre como uma incógnita.
Tropa de choque em ação
O resultado do esforço do Palácio do Planalto foi mobilizar uma tropa de choque. Mal o depoimento de Lupi começou, o petista Paulo Pimenta tentou barrar a CPI com a impugnação de um senador oposicionista.
A partir daí, volta e meia havia manifestação nesse sentido. Mas Lupi não entregou o jogo. Assumiu a responsabilidade pelas nomeações de envolvidos nos escândalos do INSS, mas negou conhecimento de tudo.
O relator conduziu um interrogatório competente, mas Lupi atribuiu as indicações ao partido, o PDT, sem se envolver em nada. Só ficou sabendo dos malfeitos depois de ter saído do Ministério da Previdência.
As perguntas do relator foram em tom bastante incisivo e acusatório. Carlos Viana foi mais ameno, mas igualmente firme. Lupi trouxe um cronograma de fatos afirmando que denúncias sobre descontos associativos indevidos chegaram ao Ministério e à Polícia Federal desde 2016, tendo sido arquivadas nos governos Temer e Bolsonaro.
Disse que, durante sua gestão, recebeu pedidos de diversas associações e encaminhou ao INSS, que é uma autarquia independente. A tropa de choque do governo fez perguntas combinadas a Lupi, que tinha as respostas já prontas, por escrito. O interrogatório entrou noite adentro.
Não sabia da Contag
O senador brasiliense Izalci Lucas indagou se Lupi sabia que 72% dos desvios da Previdência desde 2008 vinham da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Lupi respondeu que não, mas que ficou sabendo depois.
Izalci não desistiu e perguntou se Lupi havia comunicado esses desvios ao presidente Lula. Outra negativa. Izalci então perguntou como o convênio com a Contag fora renovado. Resposta de Lupi: a renovação era automática.