Uma festança preparada sigilosamente para ocorrer na Capital do país poderia entrar para a história como um importante marco, pela preservação de algo que quase ninguém mais quer: a polarização da política eleitoral brasileira.
O evento foi marcado pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e seu preparo ficou por conta da seção regional do partido, presidida, no Distrito Federal, pelo empresário e ex-governador Paulo Octávio. Seria o lançamento da candidatura à Presidência da República do governador paranaense Ratinho Júnior (foto).
Kassab queria colar à festa brasiliense a imagem do momento em que a política brasileira encerraria o final da bipolarização entre petistas e bolsonaristas, que já dura mais de uma década. Já campeão de prefeituras no País, o PSD assumiria agora o papel de vetor do retorno à multipolaridade e, de preferência, a um jogo político mais amplo.
Embora Kassab deteste a imagem de “terceira via”, seria esse o selo colado à testa de Ratinho Júnior, que ganharia, assim, possibilidade de desenvolver uma inesperada musculatura nacional. Estava tudo sendo preparado para a última quarta-feira quando, na manhã de segunda-feira, Ratinho implodiu com sua desistência.
Implodiu também o projeto de combate à polarização. A decorrente escolha, nesta segunda-feira, 30, do governador goiano Ronaldo Caiado, de perfil próximo ao do bolsonarismo, foi interpretada até por seu correligionário Eduardo Leite como a permanência da polarização.
Motivos empresariais
Ao desistir, Ratinho Júnior alegou motivos pessoais e problemas na política paranaense. Claro que a turma do PSD não acredita muito em nada disso.
Prefere imaginar que o governador teme, ao se expor a toda a mídia do País, a divulgação de vínculos de seu governo com um grande empresário baiano radicado no Rio de Janeiro.
É que esse empresário, que andou fazendo negócios de peso no Paraná, tornou-se alvo das investigações sobre o Banco Master. Na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o caso, a Polícia Federal apreendeu o celular desse empresário, cumprindo um mandado de busca e apreensão do Supremo Tribunal Federal.
Esse celular também inclui endereços ligados a Daniel Vorcaro, o dono do Master, e seus parentes. Tanto quanto se saiba, Ratinho Júnior não tem envolvimento no caso Master em si, mas acredita-se que as investigações desse empresário possam respingar na política paranaense, onde as forças do governador iniciam um embate complicado com o senador Sérgio Moro.