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Qual o gênero, a religião e a cor que o psicólogo consegue atender?

Não é incomum ver pessoas solicitando indicações de psicólogos LGBTQIAP+, negros ou cristãos, por exemplo. Quando o paciente faz tal pedido, estaria ele buscando uma identificação disfarçada ou nos alertando que nossas instituições não sabem tratar a questão da diversidade de forma adequada?

Foto: Alex Green/Pexels

Recentemente, tive a honra de participar da banca de graduação em psicologia da aluna da faculdade Unieuro Karina Frazão Moreira, muito bem orientada pela maravilhosa professora Ivana Drumond. O tema, “Racismo institucional: uma análise da violência obstétrica praticadas em mulheres negras no Brasil”, me deixou extasiado pelo brilhante trabalho e, ao mesmo tempo, pensativo a respeito de como nós, psicólogos, estamos tratando este e outros assuntos semelhantes. Me fez refletir, ainda, sobre como os profissionais da área estão se preparando para trabalhar essa temática, uma vez que, para alguns pacientes, a terapia é quase tão complexa como um parto fórceps.

Reflexivo, imaginei: com certeza esta vai ser mais uma das polêmicas levantadas por esta coluna, cujo objetivo é levar a reflexão dos atores envolvidos na psicologia científica.

Durante a apresentação, comecei a correlacionar não só a questão do racismo institucional, como abordado, mas também como temos tratado este assunto no âmbito da psicologia clínica. E aqui destaco a psicologia clínica devido a anúncios e pedidos de atendimento postado nos mais diversos grupos de WhatsApp que frequento. Não é incomum ver colegas solicitando indicações de psicólogos LGBTQIAP+, negros ou cristãos, por exemplo. E aqui me veio o incômodo que trago para o debate, em especial, pelas autoridades competentes ao assunto — antes, deixo claro que a intenção é reforçar a necessidade de um debate mais aprofundado acerca do tema proposto.

Qual seria o motivo de tais solicitações?

É claro que, em um primeiro momento, pensamos na demanda do paciente e sua própria subjetividade, e com relação a isso, mão há o que se questionar. Contudo, seria este pedido um apontamento para a falha na formação do psicólogo, que não está dando conta da demanda do outro? E aqui não falo de empatia — mesmo porque detesto o modo como esse termo é erroneamente utilizado na psicologia —, afinal, é impossível nos colocarmos no lugar do outro.

Vai além do que se pensa. É muito mais do que uma questão de subjetividade. É, além de tudo, uma questão de humanidade. Afinal, não conseguimos entender o que leva uma pessoa a destruir templos de outra religião, te agredir por suas escolhas sexuais, ou ainda pior, segurar sua bolsa perto de si apenas porque outra pessoa “diferente” de você entrou no ônibus.

Isso me fez lembrar uma passagem que muito me marcou na graduação, quando uma colega postou nas redes sociais sua foto com uma jaqueta da psicologia e escreveu na legenda: “Mulher, negra e psicóloga…”. E eu, imediatamente, comentei: “Só não entendi o ‘mulher e negra’”.

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A minha intenção com o comentário era deixar claro que, mesmo sendo mulher e negra no Brasil, ela havia vencido todas as barreiras impostas socialmente e se tornado psicóloga. Entretanto, não foi assim que a rede, com seus juízes de plantão, perceberam, e, obviamente, fui bem criticado. Ao tentar me explicar, a coisa só piorava, até que me restou apenas pedir desculpas pelo infeliz comentário.

E é este o ponto que trago. O comentário, apesar de infeliz no momento, não era carregado de qualquer tipo de preconceito de minha parte. Neste momento, percebi o meu preconceito, pois não fui capaz de perceber o outro pelo olhar dele e por tudo o que vem carregado com este olhar: vivência, experiências, angústias, sofrimentos e até as suadas conquistas.

Assim, quando o paciente solicita ser atendido por um profissional negro, cristão ou LGBTQIAP+, por exemplo, estaria ele buscando uma identificação disfarçada ou estaria nos alertando declaradamente para a atual incapacidade de nossas instituições de ensino superior tratar de forma adequada e dentro da realidade a questão da diversidade?

E quando me refiro à diversidade, não estou aqui utilizando o espaço para qualquer forma de apologia ou militância, e sim, mais uma vez, abordando um tema que ainda nos é muito caro, na esperança de as autoridades que estudam a temática possam tratá-lo com ainda mais atenção.

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Na verdade, penso que o real propósito ainda é maior do que o simples debate. É o momento de sairmos do campo da conversa para uma ação mais concreta, aproximando a academia da realidade, saindo da teoria para ação, integrando o Conselho Federal de Psicologia e suas representações regionais com as universidades e o parlamento, a fim de aperfeiçoarmos o conhecimento dos profissionais da psicologia para aquilo que são formados: o estudo da mente e do comportamento humano, independente de credo, cor ou orientação sexual.

E ao contrário do que muitos podem pensar, trata-se de algo hérculeo, já que, como homem, hétero, branco, etc., também sou tachado de uma incapacidade psicoterapêutica que nem sempre é factível ou condizente com a realidade, já que não andamos com nosso currículo exposto e tampouco estamos em um show de calouros.

Difícil ou não, o tema está posto e tem sido reposto por alunos como a Karina Frazão Moreira, que, mesmo tão jovem na vida e na psicologia, já nos tem tanto a ensinar.

Até a próxima…

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