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Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

O absurdo, o sentido e o silêncio: diálogos entre Camus, o estoicismo e a psicologia contemporânea

Como a sabedoria antiga e a psicologia moderna nos ensinam a viver com lucidez

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

20/05/2026 15h52

man making silence gesture

Foto: Magnific

Em uma época marcada pela aceleração, pela busca incessante de prazer e pela precariedade emocional, o pensamento de Albert Camus ressurge como um farol ético e existencial. Ao afirmar que “o único problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio” (O Mito de Sísifo, 1942), Camus toca a questão essencial: vale a pena viver quando a vida parece não ter sentido? Essa interrogação atravessa também os domínios da Psicologia Existencial e da Psicologia Positiva, que investigam as condições subjetivas da motivação e da resiliência humana. De modo semelhante, o estoicismo, tradição filosófica que remonta a Zenão, Sêneca e Marco Aurélio, oferece respostas práticas ao absurdo da existência, sustentando que o sofrimento nasce não dos eventos em si, mas do modo como os interpretamos. Assim, o diálogo entre Camus, o estoicismo e a psicologia contemporânea revela-se fecundo na busca por um novo humanismo psicológico: lúcido, trágico e sereno.

Para Camus, o absurdo nasce do confronto entre o desejo humano por sentido e o silêncio irracional do mundo. O homem, sedento por coerência, descobre-se diante de um universo indiferente. A psicologia moderna, em especial a logoterapia de Viktor Frankl, reconhece esse mesmo vazio como o “vácuo existencial”, uma experiência de desorientação que pode conduzir tanto à criação de sentido quanto ao desespero. Enquanto Frankl sustenta que o homem pode encontrar significado mesmo no sofrimento, Camus propõe outra saída: a revolta lúcida. Aceitar o absurdo sem resignar-se a ele, viver sem apelo, como Sísifo empurrando eternamente sua pedra, encontrando na própria ação o valor da existência.

Esse enfrentamento do absurdo aproxima Camus da psicologia contemporânea quando esta enfatiza a autonomia da consciência e a capacidade de atribuir significado subjetivo aos acontecimentos. Em ambos os casos, o sentido não é dado, é construído na tensão entre liberdade e finitude.

O estoicismo pode ser lido como uma das primeiras psicoterapias do Ocidente. Marco Aurélio, em Meditações, aconselhava a “aceitar aquilo que o destino traz” e a “agir conforme a razão”. Para os estóicos, a felicidade (eudaimonia) não depende de circunstâncias externas, mas da atitude interior diante delas. Essa ideia encontra eco direto em abordagens contemporâneas como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que ensina a distinguir entre eventos e interpretações, herança direta da máxima estóica de Epicteto: “não são as coisas que perturbam o homem, mas a opinião que ele tem sobre as coisas”.

Enquanto Camus propõe uma ética da revolta, aceitar o absurdo e mesmo assim afirmar a vida, o estoicismo propõe uma ética da serenidade, aceitar o destino e dominar as paixões. Ambas, entretanto, conduzem à mesma atitude: lucidez diante do inevitável e ação diante do possível. A psicologia contemporânea, ao valorizar o autocontrole emocional, a aceitação e o foco no presente, revisita silenciosamente esses legados filosóficos.

Na clínica psicológica, o sofrimento raramente se apresenta como algo puramente negativo. Ele é, muitas vezes, o ponto de virada para a reconstrução do sentido de vida. A Terapia Existencial, nas obras de Rollo May e Irvin Yalom, ensina que a angústia não deve ser extinta, mas compreendida, pois é ela que desperta a consciência da liberdade. Em diálogo com Camus, pode-se afirmar que o homem saudável é aquele que não foge do absurdo, mas o enfrenta com coragem lúcida.

A psicologia moderna confirma que a ausência de sentido, o niilismo subjetivo, está associada a quadros de depressão, desesperança e comportamento suicida. Nesse contexto, a integração entre filosofia e psicologia torna-se terapêutica: reconhecer o absurdo e, ao mesmo tempo, aprender a viver com ele. Tal reconhecimento se alinha ao conceito de mindfulness e às práticas de aceitação, herdeiras do estoicismo, que ensinam a observar o sofrimento sem ser dominado por ele.

Camus, os estóicos e a psicologia convergem em um ponto essencial: a vida não precisa de sentido para ser digna de ser vivida, mas o ser humano pode criar significados mesmo diante do absurdo. O homem trágico de Camus e o sábio estóico compartilham uma mesma coragem, a de permanecer lúcidos num mundo que não responde. A psicologia, ao unir ciência e humanidade, pode oferecer ao indivíduo contemporâneo um caminho intermediário entre o desespero e a resignação: viver com consciência, agir com propósito e aceitar com serenidade.

Em última instância, o verdadeiro sentido da vida talvez resida não em descobri-lo, mas em sustentá-lo. Como escreve Camus, “devemos imaginar Sísifo feliz” e, talvez, imaginá-lo também em paz.

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