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Da obediência à barbárie, e o experimento de Milgram

Experimento do psicólogo americano Stanley Milgram pode ajudar a entender barbáries como os ataques na Faixa de Gaza e as mortes dos médicos no Rio de Janeiro

Foto: Aamir QURESHI / AFP

Nos últimos dias, infelizmente, temos acompanhado ao vivo as barbáries que pessoas em guerra podem fazer umas às outras. A escalada da violência parece não ter fim, e pior: as nações nada aprenderam com as duas últimas guerras mundiais.

E o que a psicologia tem a ver com isso?

Ao ver na televisão que fanáticos iniciam uma invasão matando mais de 250 pessoas em uma festa, fiquei me perguntando: o que leva uma pessoa a cometer tal ato? No mesmo instante, me veio à cabeça algumas possibilidades, dentre elas a “obediência”, que, por sua vez, me levou à lembrança de Stanley Milgram.

Em 1961, incomodado com o julgamento em Jerusalém de Adolf Eichmann (SS-Obersturmbannführer – tenente-coronel da Alemanha Nazista e um dos principais organizadores do Holocausto), Milgram, um jovem psicólogo americano de origem judaica, se pergunta: “Por que seres humanos sensíveis e comuns tornaram-se agentes de dor e sofrimento em pessoas inocentes? Como seria possível trair tão facilmente o senso moral e os caros valores humanitários em favor de uma submissão cega a uma suposta autoridade?”

Os questionamentos de Milgram têm início ainda durante o julgamento, em especial, quando Adolf Eichmann, questionado do motivo de ter feito o que fez, apenas respondeu: “Eu cumpria ordens”.

Assim, cerca de três meses após este fato, Milgram inicia seu experimento, que, mais tarde, em 1964, lhe renderia o prêmio anual em psicologia social, atribuído pela American Association for the Advancement of Science (AAAS). Os resultados da experiência foram apresentados no artigo “Behavioral Study of Obedience”, no Journal of Abnormal and Social Psychology (Vol. 67, 1963 Pág. 371-378) e, posteriormente, no seu livro “Obedience to Authority: An Experimental View 1974”.

Afinal, de que se trata este experimento?

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Milgram estava intrigado em tentar entender o comportamento humano frente a ordens, em especial, àquelas que contrariam o senso moral das pessoas. Para explicar melhor o experimento, recorro ao site de Alexandre Spada, que traduz bem o estudo.

Como dito acima, o objetivo do experimento de Milgram era medir até que ponto os participantes do experimento obedeceriam às ordens de uma autoridade, mesmo que isso causasse sofrimento a terceiros. Assim, o psicólogo conseguiria entender se as pessoas iriam obedecer a uma instrução mesmo que ela envolvesse prejudicar outra pessoa, além de conhecer os limites e o quão facilmente cidadãos comuns poderiam ser influenciados a cometer atrocidades.

Para realizar seu experimento, Milgram recrutou voluntários através de anúncios em jornais locais, que ofereciam uma compensação de US$ 4,50 pela participação. Os participantes eram homens com idades entre 20 e 50 anos, com diferentes níveis de escolaridade e ocupações diversas. No total, 40 cidadãos foram envolvidos no estudo original.

Em seu laboratório, Milgram colocou os voluntários diante de uma situação extrema. Eles deveriam aplicar choques elétricos em outra pessoa caso ela errasse as respostas de um teste de memória. O que Milgram não contou aos participantes é que não havia choques de verdade, e que o “aluno” era um ator que erraria as perguntas propositalmente.

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Ao longo do experimento, a intensidade dos “choques” aumentava progressivamente, e o “aluno” começava a gritar de dor, implorar por ajuda e, eventualmente, ficar em silêncio para simular um desmaio. Havia 30 chaves no falso gerador de choque, que variava de 15 volts (ligeiro choque) a 450 volts (choque grave).

Quando o voluntário se recusava a continuar, o cientista que dava as ordens para o choque utilizava-se de frases, chamadas de “estímulos”:

  • Por favor, continue;
  • O experimento requer que você continue;
  • É absolutamente essencial que você continue;
  • Você não tem outra escolha a não ser continuar.

Caso o participante se negasse a fazê-lo depois da quarta frase, o experimento era interrompido. Do contrário, a ação só era pausada ao chegar na voltagem mais alta.

65% (dois terços) dos participantes continuaram até o mais alto nível de 450 volts. Todos os participantes prosseguiram até 300 volts.

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E mesmo com algumas falhas metodológicas, o experimento de Milgram nos apresenta dados assustadores, pois, ao analisar números brutos, conclui-se que as ações dos participantes nem sempre estavam ligadas à obediência, já que as frases de estímulo de 1 a 3 não são ordens. Observe:

  • Na frase 1, o falso cientista diz: “Por favor, continue”, e isso é uma solicitação;
  • Na frase 2, o cientista afirma: “O experimento requer que você continue”, o que é apenas uma explicação sobre os critérios de experiência;
  • Na frase 3, o orientador diz: “É absolutamente essencial que você continue”, e isso não pode ser tomado como uma ordem direta, é apenas um aviso sobre a importância da experiência;
  • Assim, somente a frase 4, “Você não tem outra escolha, a não ser continuar”, pode ser considerada uma ordem.

Alguns voluntários chegaram a rir nervosamente e tremer, enquanto outros tiveram crises de choro e se mostraram extremamente perturbados.

Com o experimento, Milgram descobriu que a obediência à autoridade é um poderoso mecanismo que pode levar as pessoas a agir de maneira inesperada e pouco compreensível, e que existem outras motivações além da simples obediência.

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Assim, ao ver as imagens recentes na Faixa de Gaza, o recente assassinato dos médicos no Rio de Janeiro, as decisões arbitrárias e criminosas de nossa Suprema Corte e a total inércia de nossos governantes, me pergunto: nós, seres humanos, estaríamos “geneticamente” mais propensos a liberarmos nosso Sr. Hyde (o personagem monstro de “O Médico e o Monstro“, do autor Robert Louis Stevenson) ao invés do amado e respeitado médico Dr. Jekyll, personagem do mesmo livro?

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Deixo no ar esta pergunta para reflexão. Até a próxima!






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