Publicada em 1516, a obra Utopia, de Thomas More, foi concebida como um exercício filosófico e político destinado a criticar as desigualdades, injustiças e vícios das sociedades europeias do século XVI. Ao descrever uma sociedade perfeita, organizada racionalmente e livre de conflitos aparentes, More inaugurou um modelo de pensamento que, embora literariamente fecundo, carrega um risco estrutural: a transformação da crítica social em projeto normativo absoluto, impermeável à complexidade da natureza humana.
Cinco séculos depois, a ideia de utopia revela-se surpreendentemente atual. No campo das ciências humanas, e de modo particularmente sensível no ensino da Psicologia, observa-se o crescimento de modelos ideológicos que, sob o discurso de justiça, emancipação ou progresso moral, tendem a substituir a investigação científica por narrativas dogmáticas, comprometendo a neutralidade epistemológica, a liberdade acadêmica e o compromisso com a evidência empírica.
O ensaio desta semana analisa, à luz da ciência psicológica e de seus principais autores, os perigos da incorporação acrítica de modelos utópicos no ensino da Psicologia, argumentando que a utopia, quando convertida em ideologia, torna-se incompatível com o método científico, com a ética profissional e com a própria compreensão realista do psiquismo humano.
A utopia parte de uma premissa sedutora: a de que os problemas humanos decorrem essencialmente de estruturas sociais defeituosas e que, uma vez reorganizadas racionalmente, produzirão indivíduos mais justos, cooperativos e moralmente superiores. Essa lógica pressupõe, ainda que implicitamente, a possibilidade de um homem novo, moldado por instituições ideais.
Do ponto de vista da Psicologia científica, essa premissa é profundamente problemática. Autores clássicos e contemporâneos convergem ao afirmar que o comportamento humano emerge de uma interação complexa entre fatores biológicos, disposicionais, cognitivos, emocionais, sociais e culturais, nunca de uma única variável estrutural.
Sigmund Freud, em O mal-estar na civilização, foi incisivo ao afirmar que o conflito é constitutivo da vida psíquica. Para Freud, não há organização social capaz de eliminar o sofrimento psíquico, pois ele emerge do choque entre pulsões, normas e limites. Toda promessa de harmonia plena ignora a dinâmica inconsciente, a agressividade e a ambivalência inerentes ao sujeito.
De modo convergente, Carl Gustav Jung advertiu que projetos coletivos que prometem perfeição social tendem a projetar sua sombra, isto é, seus aspectos negados, sobre inimigos externos ou dissidentes internos. Quando a Psicologia abandona o estudo da individuação para servir a projetos coletivos idealizados, ela deixa de compreender o sujeito para instrumentalizá-lo.
Karl Popper contribuiu de forma decisiva para essa discussão ao diferenciar ciência de ideologia. Para Popper, o que caracteriza o conhecimento científico não é sua pretensão moral, mas sua falseabilidade, ou seja, a possibilidade de ser questionado, testado e refutado. Sistemas utópicos, ao contrário, tendem a se tornar fechados, protegendo-se da crítica por meio de argumentos morais, políticos ou emocionais.
No ensino da Psicologia, esse risco se manifesta quando determinadas correntes ideológicas passam a ocupar o lugar de pressupostos inquestionáveis. Conceitos deixam de ser apresentados como hipóteses ou modelos interpretativos e passam a ser tratados como verdades morais. O estudante deixa de aprender a pensar cientificamente e passa a aprender o que deve pensar.
B. F. Skinner, frequentemente acusado de reducionismo, foi paradoxalmente um dos autores que mais alertaram contra a instrumentalização ideológica da ciência. Em Além da liberdade e da dignidade, Skinner reconheceu o poder do controle social, mas enfatizou que qualquer intervenção sobre o comportamento humano deve ser analisada com extremo rigor ético e empírico. O problema, portanto, não é estudar o comportamento em contextos sociais, mas fazê-lo sem evidência, sem crítica e sem limites.
Quando a utopia se infiltra no ensino da Psicologia, os efeitos são múltiplos e graves. Em primeiro lugar, ocorre um empobrecimento teórico, pois autores clássicos são descartados ou reinterpretados seletivamente para se adequarem a narrativas contemporâneas. Freud, Jung, Piaget, Eysenck, Beck, Bowlby e mesmo Kahneman passam a ser lidos não por sua contribuição científica, mas por sua suposta adequação moral a agendas atuais.
Em segundo lugar, há um deslocamento da formação clínica e avaliativa. O estudante deixa de ser treinado para observar dados, formular hipóteses, testar intervenções e lidar com ambiguidade, passando a operar com categorias morais rígidas. Isso compromete diretamente a avaliação psicológica, a prática clínica e a atuação institucional, pois o profissional passa a confirmar crenças em vez de investigar fenômenos.
Aaron Beck, fundador da Terapia Cognitivo-Comportamental, foi enfático ao defender que crenças, inclusive crenças sociais, devem ser examinadas, testadas e reformuladas quando não correspondem à realidade. Uma Psicologia capturada por utopias ideológicas faz exatamente o oposto: cristaliza crenças e patologiza o questionamento.
Do ponto de vista ético, a Psicologia ideologizada corre o risco de violar seus próprios princípios fundamentais. O Código de Ética Profissional do Psicólogo brasileiro enfatiza o compromisso com a ciência, com a autonomia do sujeito e com a pluralidade teórica. A imposição de uma visão utópica única contradiz frontalmente esses princípios.
Além disso, forma-se um profissional menos preparado para lidar com o sofrimento real, concreto e contraditório das pessoas. A realidade clínica não é utópica: envolve fracasso, ambivalência, agressividade, limites cognitivos, diferenças individuais e conflitos morais. Ignorar isso em nome de projetos idealizados é, em última instância, uma forma de negligência científica.
A obra Utopia, de Thomas More, permanece atual não porque ofereça um modelo a ser seguido, mas porque revela os perigos do desejo humano por perfeição social. Quando esse desejo invade o ensino da Psicologia sob a forma de ideologia, o resultado não é emancipação, mas empobrecimento intelectual, fragilização científica e risco ético.
A Psicologia, enquanto ciência e profissão, deve resistir à sedução das utopias normativas. Seu compromisso é com a realidade psíquica, não com projetos morais; com o sujeito concreto, não com abstrações coletivas; com o método científico, não com dogmas. Preservar essa distinção não é uma postura política, é uma exigência epistemológica e ética.
Até a próxima…