Uma história de suposto domínio público conta que um homem caminhava pelas veredas com duas cabaças cheias de mel, que ele havia passado o dia inteiro coletando com muito esforço. No caminho de volta, ao passar pela beira de um rio, ele olhou para cima e avistou, no alto de uma árvore, uma colmeia gigante gotejando um mel fresco e brilhante. Mesmo já estando com suas duas cabaças completamente cheias, o homem foi tomado pela cobiça e quis pegar aquele mel também.
Para subir na árvore livremente, ele deixou suas duas cabaças cheias apoiadas na beira do barranco do rio. Em seguida, acendeu um facho de fogo para espantar as abelhas e começou a escalar o tronco.
Quando chegou perto da colmeia, uma única abelha conseguiu driblar a fumaça e o ferroou diretamente no olho. Com a dor aguda e o susto, o homem perdeu o equilíbrio e despencou da árvore. Ao cair no chão, o sertanejo bateu o corpo justamente contra as duas cabaças que estavam na beira do barranco. O impacto quebrou os recipientes de barro, derramando o mel dentro do rio.
Essa história foi contada pelo ex-líder das Ligas camponesas, ex-deputado Francisco Julião, na sala da casa de meu saudoso pai, jornalista Pedro Porfírio, quando eu ainda era um “foca” esforçado. Naquele episódio, Julião fazia ponderações sobre a conveniência da candidatura de Leonel Brizola ao Governo do Rio de Janeiro em 1990, depois de não vencer as eleições presidenciais de 1989.
Naquela noite cívica, Julião encerrou seu raciocínio prevendo que Brizola e o PDT ganhariam o governo fluminense. Mas que, a médio prazo, Brizola poderia ficar sem o mel e sem a cabaça.
A lembrança deste episódio foi provocada, quase que automaticamente, quando ouvi, pela primeira vez, as palavras queixosas de um anti-Lula, sobre a “teimosia com a candidatura de Flávio”, diante da queda livre nas pesquisas. Essa fonte encerrou suas ponderações ressaltando que o PL pode acabar “sem o mel e sem a cabaça”.
Segundo esta percepção, o plano de uma super bancada do PL no senado pode acabar fazendo água, num eventual crescimento de onda de rejeição contra os liberais, materializada num sentimento de repulsa coletiva, com base nos novos vazamentos do escândalo do banco Master, depois da copa do mundo.
O maior dano causado pelo estado falimentar da candidatura de Flávio Bolsonaro, neste caso, não é a vitória de Lula. Para esta fonte, que já defendeu o nome de Tarcísio de Freitas para a chapa presidencial conservadora, a manutenção Flávio Bolsonaro no jogo acaba inibindo o crescimento de uma outra candidatura da direita, que não pode contar com os votos do bolsonarismo. Para ele, “a direita pode acabar estigmatizada pelo envolvimento do filho Zero Um com o esquema do Vorcaro”, contaminando as campanhas para o Senado nos Estados.
“Depois da copa do mundo, não haverá tempo para correção de curso”, pondera. Para esta fonte, com larga experiência na vida política, os eleitos “sobreviventes” para o Senado podem, inclusive, mudar de lado, num cenário apocalíptico para o PL.
A aflição admitida entre os liberais foi acentuada pela segunda rejeição à proposta de delação do banqueiro Daniel vorcaro, preso na PF e a meio caminho de uma estadia na cela comum no presidio da papuda. Segundo as fontes ouvidas, a falta de um fechamento de acordo para uma delação de Vorcaro não encerra o ciclo de vazamentos que comprometem o zero um de Bolsonaro, garantindo sobrevida para a expectativa de novas implicações durante o momento mais crítico da disputa eleitoral.
Pra tentar salvar a lavoura em caso de geada, algumas lideranças do PL passaram a adotar um discurso que integre a ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro, no contexto da sucessão presidencial, apoiando o nome do enteado. Mas desde as farpas dirigidas a Michele depois de seus justos elogios a Tarcisio de Freitas, uma negativa da ex-primeira dama não surpreenderá nem o sagaz presidente do PL, Valdemar Costa Neto.