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Bastidores
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O Datafolha e rei Pelé

Vladimir Porfírio

01/07/2026 5h00

Atualizada 30/06/2026 22h08

pelé

Imagem ilustrativa criada a partir de IA

A última pesquisa Datafolha revelou que 67% dos eleitores já não recordam em quem votaram para deputado federal. Outros 66% também esqueceram o senador e o deputado estadual escolhidos apenas quatro anos antes.

É tentador concluir que o brasileiro não gosta de política. Essa conclusão, porém, é preguiçosa.
Até porque o Estado democrático brasileiro nunca ensinou ou difundiu a cultura política aos brasileiros.

O Brasil realizou sua última eleição presidencial direta, antes do regime militar, em 1960, quando Jânio Quadros foi eleito presidente da República. Veio a ditadura e o país viveu quase três décadas sem eleições diretas para presidente.

Quando o país reencontrou o voto direto em 1989, faltou à nação um empreendimento de reconstrução democrática, acompanhado de um grande esforço nacional de formação política da população.

A Constituição de 1988, sob a batuta do Dr. Ulisses, restaurou direitos políticos. Mas ninguém cuidou de ensinar como exercê-los. Ao longo de quase quatro décadas de redemocratização, o Brasil investiu bilhões em campanhas de vacinação, educação ambiental, prevenção de acidentes de trânsito, combate ao tabagismo, combate à dengue e inúmeras outras iniciativas de conscientização pública. Todas importantes. Mas ficou devendo a educação para o voto. Nada de campanhas publicitárias competentes, alertando sobre o risco do voto em gente ligada à bandidagem. Nada de escolas preparando os futuros eleitores para o voto.

Ensinamos o eleitor a utilizar a urna eletrônica, mas nunca lhe explicamos como funciona o Congresso Nacional ou o papel de cada cargo eletivo.
Criamos uma democracia eleitoral.

Tirando a lei do ficha limpa – hoje ameaçada e a espera do amparo do STF -, jamais apostamos em mecanismos de pedagogia eleitoral.

Na Alemanha, desde a década de 1950, funciona a Bundeszentrale für politische Bildung, órgão público criado exclusivamente para promover educação política permanente. Produz livros, documentários, revistas, cursos, debates e material didático distribuído gratuitamente à população.

Na França, a educação cívica integra o currículo escolar. No Reino Unido, a disciplina de Cidadania prepara estudantes para compreender o Parlamento, o sistema eleitoral e os direitos dos cidadãos. Nos países escandinavos, a formação democrática começa ainda na infância, estimulando o pensamento crítico e a participação na vida pública.

Nenhum desses países considera que ensinar democracia seja doutrinação. Até porque, professor por lá tem vergonha de fazer educação panfletária.

No Brasil, preferimos transformar a política em espetáculo, tendo redes sociais como amplificadores de conflitos.

Os partidos aparecem apenas durante as campanhas, sem rotinas educativas. Ainda que a lei dos partidos exija a realização de cursos formação política, com dinheiro do fundo partidário.

Os números das últimas eleições ajudam a mensurar o tamanho desse desinteresse. Mais de 32 milhões de brasileiros deixaram de comparecer às urnas em 2022. Mesmo com voto obrigatório, a abstenção aproximou-se de 21% do eleitorado. Se forem somados os votos brancos e nulos, percebe-se que dezenas de milhões de brasileiros permaneceram, por uma razão ou outra, afastados da escolha dos seus representantes.

A democracia brasileira parece satisfeita em levar o eleitor até a cabine de votação.
Depois o abandona durante quatro anos.

Talvez seja exatamente por isso que milhões de brasileiros já não saibam o nome daqueles que foram enviados ao Congresso Nacional.

Nem inguém jamais lhes ensinou que votar representa apenas o primeiro ato da cidadania. Os demais consistem em acompanhar, fiscalizar, cobrar, criticar e, finalmente, premiar ou punir o representante nas urnas seguintes.

Quando este repórter apurava sobre a repercussão desses números do DataFolha, um deputado trouxe Pelé para a pauta. Ele lembrou que em 1970 o craque da bola foi criticado por ter dito que “O povo brasileiro ainda não está em condições de votar por falta de prática, por falta de educação e ainda mais porque se vota, em geral, mais por amizade nos candidatos.” Na época ele foi acusado de prestar apoio implícito à ditadura militar. Se tivesse dito isso hoje, provavelmente, seria tratado como analista de pesquisas.

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