A leitura apressada dos números de desaprovação e reprovação do governo Luiz Inácio Lula da Silva nessas ultimas pesquisas, tem produzido uma narrativa conveniente, de fácil absorção, tapando o sol com a peneira.
Não é garantido tratar como verdade que o avanço da desaprovação do governo Lula é consequência direta de escândalos de corrupção recentes ou, ainda, decorrência do escandaloso tamanho da lista de famílias endividadas.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que o Brasil já convivia, muito antes da eleição de 2022, com essa avalanche de negativados, por conta do crédito fácil e sem critério. O então presidenciável Ciro Gomes fez disso uma de suas principais bandeiras de campanha, alertando reiteradamente para o crescimento explosivo da inadimplência. Dados divulgados por plataformas como Serasa Experian indicavam, ainda no período pré-eleitoral, algo próximo de 70 milhões de CPFs negativados. Ou seja: o consumo empacou para a grande maioria do povo, que só pode comprar na prestação.
Não se trata de detalhe estatístico. Estamos falando de um freio estrutural na economia real. Algo que, desde sempre, puxa o freio de mão de quem no mercado de quem precisa vender a prestação ou no velho carnê.
Esse fenômeno, portanto, não nasce no atual governo, tampouco pode ser atribuído exclusivamente a ele ou ao anterior. É um processo acumulado, que atravessa gestões e ciclos econômicos distintos.
Da mesma forma, a tentativa de associar oscilações na popularidade do governo a episódios pontuais de corrupção precisa também ser analisada com cautela. Sobretudo quando estes casos não chegam nem perto do palácio do planalto . A história política recente mostra que escândalos, por si só, não determinam automaticamente o humor do eleitorado. Durante o episódio do Escândalo do Mensalão, por exemplo, mesmo sob forte pressão, batendo na porta do presidente da republica, e com investigações atingindo figuras centrais do governo, o então presidente manteve desempenho competitivo nas pesquisas e venceu a eleição seguinte.
Isso não significa relativizar a gravidade da corrupção ou o desespero do endividamento. Mas, sim, reconhecer que o comportamento do eleitor é mais complexo do que uma conclusão imediata em cima de meia dúzia de manchetes. Fatores como renda, emprego, e custo de vida tendem a ter muito peso. E peso mais direto na avaliação cotidiana da população, com evidente repercussão para a opção de voto. Mas quando o assunto é criminalidade, essa conta fica ainda mais cara para o governo Lula, que deixa a impressão de interesse secundário pelo assunto. Trata-se de uma demanda que não dá mais pra terceirizar, empurrando para o congresso, STF ou os para os governos Estaduais, com base na constituição federal.
As pesquisas de opinião, de forma recorrente, colocam o tema do combate ao crime como a maior preocupação dos brasileiros, independentemente de classe social ou nível de renda. E Vamos combinar… se é preocupação do brasileiro, não é cobrança que recai no lombo da oposição. É problema do governo. É coisa pro governo resolver!!!!
A discussão sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública, por exemplo, indicava uma tentativa de resposta estrutural, para uma resposta federal mais clara. No entanto, resistências internas, inclusive dentro do partido governista, o PT, acabaram esfriando a iniciativa. Ninguém está falando do ovo de Colombo. Estamos dentro de um assunto que é óbvio porque é ululante. Basta ver a reação da opinião pública depois de operações como a carbono oculto ano passado.
Ninguém aqui está dizendo para o Lula multiplicor a popularidade como fez o então governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, depois daquela operação na Penha que deixou corpos enfileirados no chão.
O sentimento de medo ocasionado pelo risco de assalto, latrocínio e variações de violência atinge a todos. Mas os mais pobres são os mais vulneráveis. Enquanto isso, quem vive tapando o sol com a peneira pode acabar o dia com rosto bronzeado.