Menu
Analice Nicolau
Analice Nicolau

Especialista Filipe Veras analisa a atual crise logística nas Américas

Colunista Analice Nicolau

22/05/2026 16h15

Alta do diesel e escassez de motoristas impactam o setor rodoviário, aponta o especialista em logística Filipe Veras

O transporte rodoviário de cargas nas Américas enfrenta um período de profundas transformações estruturais, impulsionado pelo aumento severo dos custos operacionais e pela escassez crônica de mão de obra. Esse cenário complexo redesenha as dinâmicas logísticas globais e exige respostas rápidas das empresas do setor. Sob a ótica do especialista em logística e comércio exterior Filipe Veras, a instabilidade econômica e as novas exigências de mercado funcionam como as principais forças de pressão imediata sobre toda a cadeia de suprimentos continental.

Historicamente, o combustível representava uma fatia previsível de aproximadamente 20% do custo total do frete rodoviário, servindo como base estável para a planilha de despesas de transportadores. Contudo, dados recentes apontam que o insumo passou a comprometer até 60% do faturamento em rotas específicas. Nos Estados Unidos, esse impacto se refletiu na flutuação do galão do diesel, que saltou da média histórica de 3 dólares para marcas entre 6 e 8 dólares em regiões estratégicas como Califórnia e Nova York, provocando uma retração estimada de 30% no volume de mercadorias movimentadas pelas rodovias.

Esse encarecimento forçou o mercado norte-americano a priorizar a consolidação de cargas, um movimento que beneficia grandes operadores logísticos estruturados e sufoca prestadores de serviço independentes. Paralelamente, o setor enfrenta o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, onde cerca de 20% dos motoristas rodoviários são imigrantes, muitos em situação irregular. A nova exigência de composição de status legal para a obtenção ou renovação da carteira comercial (CDL) tende a murchar severamente a disponibilidade de trabalhadores no médio prazo.

Filipe Veras

No âmbito técnico, a compressão das margens de lucro impõe um desafio de sobrevivência severo para os condutores que operam de forma independente pelas rodovias. Ao avaliar que “Esse aumento impacta diretamente o preço final do transporte e reduz a margem dos operadores, especialmente os autônomos”, Filipe Veras joga luz sobre o estrangulamento financeiro da categoria. Essa escalada inflacionária dos combustíveis inviabiliza rotas tradicionais, o que acaba exigindo uma reengenharia financeira e operacional extremamente rigorosa por parte de quem gerencia o próprio caminhão diariamente.

Como abordagem prática para mitigar a perda de competitividade frente às grandes corporações, os trabalhadores independentes adotam alternativas baseadas no cooperativismo. Sabendo que “O pequeno transportador passou a ter mais dificuldade para competir, precisando otimizar ao máximo o espaço e buscar cargas complementares para viabilizar o lucro”, os profissionais buscam fretes de retorno para evitar viagens sem rentabilidade. Essa saída operacional demonstra que a sobrevivência no mercado atual depende diretamente da capacidade de planejamento estratégico e resiliência diante de cenários severos.

As perspectivas futuras para o setor dependem da digitalização e do enfrentamento do apagão de mão de obra no Brasil e no Mercosul. O especialista pondera que, “Historicamente, a profissão era passada de pai para filho. Hoje, com maior acesso à educação e outras oportunidades, há menos interesse por uma atividade considerada pesada, com longos períodos fora de casa”, evidenciando o distanciamento das novas gerações. Diante disso, o avanço tecnológico surge como vetor essencial para otimizar frotas e suprir a menor reposição de profissionais no mercado.

A sustentabilidade do transporte de cargas de longa distância exige uma revisão urgente da infraestrutura nacional, focando na diversificação modal. O alerta de que “Os Estados Unidos já utilizam amplamente o transporte ferroviário para reduzir custos. Sem esse tipo de investimento, o Brasil pode enfrentar dificuldades para manter competitividade no longo prazo” reforça a urgência dessa transição. A combinação de custos elevados e escassez laboral coloca, definitivamente, a modernização logística no centro das discussões macroeconômicas estratégicas nas Américas.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado