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Os corres diários da multiartista Ediá

Por Thaty Nardelli 06/11/2023 3h40
Foto: Thaís Mallon

Nascida em Rondon, no interior do Pará, a cantora, compositora, estudante de Libras e produtora mudou-se para a Brasília cedo, aos 5 anos. Hoje, com 23, Ediá, mulher afro-indígena periférica, atua ativamente em projetos socioculturais, artísticos e socioeducativos que promovem a incidência e acesso à cultura nas periferias do Distrito Federal e Entorno. Transitando entre o Rap, R&B Soul e Jazz Samba, ela se prepara para lançar seu primeiro EP, “Como seria se eu não tivesse”.

Você cresceu no Pará e se mudou bem cedo para o Distrito Federal. Quais as memórias e raízes que você tem dessa época?

Minha infância foi maravilhosa. Mesmo diante de toda nossa realidade à época, eu fui uma criança muito amada e cuidada. Minhas principais lembranças vêm das brincadeiras com meu pai, das pescas, de ficar vendo minha mãezinha limpar os peixes que pai pegava, todos os cuidados de mainha com a gente… era perrengue com perrengue, mas é bonito de se ver a parceria desse povo junto! Minhas raízes são do Norte, da terra. Venho de um lugar de muita força. É muito bom poder desvendar cada vez mais sobre mim mesma, minhas raízes, lugar de pertencimento, etc.

Quando sente que a arte entrou em sua vida?

Olha, sendo bem sincera e talvez um pouco lúdica, sinto que a arte sempre esteve aqui, desde as minhas antigas. Para mim, funciona como um desenvolvimento, um lugar de pertencimento em que a gente vai se encontrando, explora e faz dar certo. E sempre está disponível este lugar. Mas se formos falar de datas onde eu de fato senti a arte mudando minha vida, foi bem nova, ainda quando menina. Meu pai fazia uns shows pela cidade e às vezes carregava eu e mainha no fusquinha dele. Tenho alguns lapsos de memória disso e sempre me nutriu muito receber desse ser musical que meu pai é. Foi crescendo e vivendo isso que decidi ser musicista.

Você foi criada em meio ao Carimbó e ao forró pé-de-serra. Como isso impactou no seu desenvolvimento artístico musical?

Sempre ouvi meu paizinho tocando viola, junto dos meus tios. A gente ouvia um forró nas festas de família, sempre rolava umas reuniões por pura vontade de ser feliz junto, aquele monte de comida de roça, sabe?! De vó?! Isso tudo sempre influenciou e eu acredito que sempre vai influenciar na minha escrita, nas minhas produções, sinto que é parte minha que não se tira e só nutre, até para eu me entender enquanto mulher artista nortista periférica.

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Você traz, no seu som, o rap, o R&B soul e o jazz samba. Como foi o processo de achar sua própria identidade musical?

Ó, eu passei um perrengue, viu?! Para me entender musicalmente e onde de fato eu habito ou não (risos). Pelo fato das minhas músicas serem improvisos — por vezes tão instantâneos que eu até os perdia, eu não entendia muito meu processo criativo e como isso iria me agregar no lugar “comercialidade”. Então, confesso que demorei para compreender que, eu, enquanto multiartista, coexisto a vários espaços musicais que me enriquecem enquanto artista.

Foto: Bruno Cavalcanti

Suas letras trazem muito da sua ancestralidade. Como é seu processo de criação?

Meu processo criativo vem do improviso. Eu geralmente tenho um app de gravação de áudio que uso quando sinto de improvisar. E é exatamente isso, eu sinto e canto. Gosto até de brincar com meu produtor, Aloizio LOWS, que a gente, quando junto, faz umas cinco músicas de uma vez, só brincando de improvisar. Na maioria das vezes o contexto vem de como eu estou, minhas vivências, minhas sensações diárias.

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Que impacto você, enquanto mulher multiartista periférica, traz para o público através da sua arte?

Minha arte é política, adentra muitos espaços e conversa muitas línguas. O impacto que isso traz me é mostrado da forma mais sutil, a começar por mim. Minha arte me transforma diariamente. Eu trabalho com muitas coisas, porque preciso, claro, mas na maioria das vezes, é porque eu quero. Sou muito feliz hoje com todas as minhas versões, entre cantora, compositora, dançarina, intérprete de Libras, barista, produtora cultural, faço alguns freelas, enfim. Minha rotina é a correria e eu sei que essa é a rotina de muitos, isso me faz estar perto de quem me escuta, eles sabem quem sou eu, não minto no que canto. A forma com que minha música abre portas para que eu possa ocupar meu espaço, é uma riqueza. Sinto que minhas músicas falam o que precisa ser dito e é isso que a gente precisa, sentir de verdade e dizer a verdade, colocar para fora, mesmo. Resistir, mas de forma saudável.

Como você enxerga essa posição de poder contar as próprias histórias e reivindicar esse espaço de autoria?

Enxergo como um ato político de resistência. Poder cantar em voz alta minha história, minha revolta, sem ser perseguida ou morta, já é um luxo enquanto corpa afro-indígena nortista periférica residindo na capital do Brasil.

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Seu lançamento “Dona de Mim” em parceria com o projeto Lazer nas Quebradas alcançou mais de 50.000 streamings. Como foi o processo de criação do projeto?

Todo processo de produção de “Dona de Mim” foi riquíssimo, sou muito grata ao projeto Lazer nas Quebradas por proporcionar essa visibilidade para tantos artistas locais, entrando com toda base e auxílio necessários para que pudéssemos ingressar nas playlists, entender mais sobre royalties, streamings, etc. Foram 49 artistas selecionados para gravarem um single com base produzida pelo projeto e recebendo uma ajuda de custo. Muita soma.

“Pokas Ideia”, a segunda faixa oficial do seu primeiro EP de rap, “Como seria se eu não tivesse”, foi lançada recentemente e traz vivências profundas. Como foi o processo de produção e de composição?

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“Pokas Ideia” é construção minha junto ao meu produtor Aloizio LOWS, com o intuito de contar minha história cantando rap, uma das minhas bases musicais. Em “Como seria se eu não tivesse”, eu canto minha construção desde Belém do Pará até aqui em Brasília, e minha formação enquanto artista, menina, mulher, minhas descobertas musicais, etc.

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Sobre as composições, é fluido e fácil. O LOWS sabe perfeitamente como eu funciono. Ele não só é meu produtor, é também meu guitarrista e melhor amigo. Partilhamos muito da vida, há muita parceria e verdade, isso facilita meu processo ritualístico de improvisos criativos.

Nos seus singles e álbuns lançados, você faz questão de se envolver na produção musical?

Com certeza! Somos eu e o LOWS quem fazemos absolutamente tudo, e junto é bem mais fluido e fácil, aprendo muito, inclusive. Já passei muito perrengue nesse tipo de situação, de produtor não deixar eu opinar ou não botar fé nas minhas ideias, e sabemos bem de onde isso vem. Me sinto, hoje, preenchida neste lugar, encontrei de fato um espaço que entende perfeitamente minha linguagem musical, mesmo eu não entendendo nada de teoria ou estudos musicais.

Como mulher afro-indígena periférica, quais os principais desafios que você enfrenta não apenas na cena cultural, mas no cotidiano?

Os desafios sempre são muitos, né?! E na maioria insanos quando se trata de uma mulher preta. Isso sem citar de onde eu vim, minha terra hoje, onde eu moro… tudo ficaria ainda mais difícil. Seja na cena cultural ou no meu cotidiano, o fato de existir mulher é uma grande qualidade. Acho lindo e forte meu trabalho e minha incidência, mas é cansativo os assédios, as inconstâncias, as oportunidades tiradas, as não existentes, a reafirmação para as cotas, a fome, a falta de dinheiro, de esperança até… Me sinto persistente e esperançosa, todo dia eu sou movimento constante para me manter viva com saúde e alimentada. Mas os desafios são intrínsecos e muitos.

Como é ocupar um espaço como mulher dentro do rap?

É uma montanha-russa. Uma constante reafirmação do que eu faço, como eu faço e se realmente eu sei fazer o que digo que faço. Me sinto muito analisada, na maioria por homens do meio musical também, já que os estúdios são compostos mais por homens que por mulheres. Fora essa infelicidade do machismo, me vejo ocupando um lugar importante, trazendo coisas que precisam ser debatidas e contadas, “dizidas” segundo minha avó, é sobre isso.

Você também é brigadista florestal…

Atualmente eu sou 1° secretária da Brigada Florestal Guardiões da Cafuringa e também sou aprendiz de Brigadista Florestal em formação pelo instituto Cafuringa e me sinto privilegiada de ter conhecido essa família e de estar conectada com pessoas que dão seu máximo para preservar e cuidar do pouco do Cerrado que nós temos aqui. Somos uma Brigada que atua na APA da Cafuringa, na região do Lago Oeste. Atuamos de diversas formas, desde educação ambiental nas escolas até combate ao fogo frente a frente, sempre buscando nos especializar cada vez mais, para assim levar as informações e capacitações necessárias para os moradores da APA e da região rural do Lago Oeste que lidam com queimadas criminosas quase que diárias.

Você também estuda Libras, que vai além de promover a inclusão social. Inclusive, você realizou a performance de “Deixa o Amor Falar”, da artista Ana Lélia. Pode falar mais sobre sua participação e, de forma geral, sobre sua importância?

Foi muito gratificante para mim performar e interpretar a versão em Libras de “Deixa o Amor Falar”, porque é raro ver artistas que se preocupem com esse tipo de pauta, que é indiscutível. A língua de sinais abraça grande parte da minha vida, me vejo como uma facilitadora, no dever de me adaptar e se fazer acessível, entendível nesse campo das Libras.

Quais os projetos que estão vindo por aí?

Em janeiro de 2024, sai a última faixa que fecha o EP “Como seria se eu não tivesse”, e a partir disso, seguimos meu primeiro projeto aprovado pelo Fundo de Apoio a Cultura do DF, o lançamento de um álbum de nome “SOMAR”, que será um show acessível para pessoas com deficiência no segundo semestre de 2024.

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