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Profecia e realidade

“Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante longa e bastante larga. (…) Quando se vier a cavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel”

Por Olavo David Neto 07/02/2020 12h59

A noite de 4 de setembro de 1883 foi agitada para Dom João Bosco, então com 67 anos. Sem sair dos seus aposentados em Turim, na Itália, ele viu-se passageiro de uma estranha viagem.

O fundador da Ordem Salesiana viajou através do Atlântico, subiu e desceu a Cordilheira dos Andes e passou pelo Brasil, onde os salesianos chegaram oito anos antes.

Versa o registro, feito pelo padre Lemoyne, que, como condutor da viagem, um “jovem de dezesseis anos” tomou D. João Bosco pela mão e, a bordo de um trem, os dois passearam pela paisagem sul-americana. Da janela, Dom Bosco observava os “rios tão grandes e majestosos que eu não era capaz de os crer assim tão caudalosos, longe que estava da foz”, narrou o religioso. Em determinado momento, o próprio fundador da Congregação Salesiana deu um palpite geográfico. “(…) As cadeias de montanhas isoladas naquelas planuras intermináveis eram por mim contempladas (o brasil?)”, arriscou.

A viagem de Dom Bosco continua descrevendo as riquezas do território. “Tinha debaixo dos olhos as riquezas incomparáveis deste solo que um dia serão descobertas”, diz ele, para, poucas linhas adiante, fazer o hipotético presságio que o alçou, 73 anos depois, a padroeiro da nova capital brasileira. “Entre o grau 15 e o 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se forma um lago. Disse então uma voz repetidamente: quando se vier cavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”, profetizou.

O furor com a fala do padre, santificado pelo papa Pio XI, não foi imediato. A bem da verdade, sequer se tinha conhecimento da suposta presciência de D. Bosco até as vésperas da construção de Brasília, como veremos mais adiante neste especial. Na obra As Profecias de D. Bosco sobre o Brasil, João Gilberto Parente Couto atribui às extensas memórias do padre a demora em trazer o sonho à tona. “O fato é menos estranhável do que poderia parecer à primeira vista: a biografia completa de Dom Bosco, com o título de Memorie Biografiche, tem 16.130 páginas e ocupa 19 alentados volumes escritos em italiano; não há tradução portuguesa”, afirma o autor.

Brasília, Belo Horizonte ou Goiânia?

A terceira capital brasileira nasceu alinhada ao paralelo 15. Datada de 1883, a antevisão de D. Bosco abrange mais que Brasília, ao contrário do que enaltecem os adeptos do sonho profético. Belo Horizonte, estabelecida em 1897, foi edificada exatamente em cima do paralelo 20, enquanto Goiânia, construída em 1937, fica “entre os paralelos 15 e 20”, como enunciou o frade salesiano. Tanto a capital mineira quanto a capital goiana surgiram sob forte planejamento inicial, assim como Brasília. É certo que o sonho nos permite uma referência geográfica. De acordo com a transcrição da fala de D. Bosco, o jovem que o leva pela América do Sul indica ao frade que ele guiaria espiritualmente a civilização surgida entre as montanhas (a Cordilheira dos Andes), e o mar (o Oceano Atlântico), a “messe oferecida aos Salesianos”.

Curioso, D. Bosco teria perguntado ao colega de viagem em quanto tempo isso se daria. “Isto acontecerá antes que passe a segunda geração”, respondeu a aparição. “A presente não conta. Será uma outra, depois outra”, completou, apontando que cada ciclo dura 60 anos. Assim, a primeira geração se findaria em 1943, enquanto a segunda seria encerrada apenas no milênio seguinte, em 2003. A janela temporal aberta pela entidade com a qual supostamente D. Bosco interagiu em sonho, porém, exclui Belo Horizonte e Goiânia da visão profética, posto que foram edificadas ainda na primeira geração apontada pelo ser místico. Já Brasília surgiu quando a segunda geração ainda aproveitava de sua mocidade, com idade a partir de 17 anos, 43 antes do fim do ciclo.

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As riquezas naturais são outro ponto interessante da visão alegadamente tida por D. Bosco. Nela, o jovem guia aponta que dali verteriam leite e mel. Minas Gerais é o maior produtor de laticínios do Brasil — tanto que, no início da República, era o “leite” do “café” paulista. Segundo o levantamento Top 100 de 2019, da Milkpoint, 44 dos 100 maiores produtores de leite são mineiros, a maior cota no Brasil. Enquanto isso, apenas uma fazenda está localizada no Distrito Federal. Apesar da produção não ser em Belo Horizonte em si, boa parte sai de lá para os rincões do Brasil. Ou seja, de lá, verte.

Quanto ao lago citado no relato do sonho, vale dizer que os belorizontinos contam com uma das lagoas mais famosas do Brasil, a da Pampulha. Além das muitas semelhanças, a lâmina d’água mineira também foi idealizada por Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, e desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Em Goiás, o Lago das Brisas, a 180 km de Goiânia, também se enquadra no que se convencionou a chamar de prenúncio.

Suposta profecia não foi pioneira

Apesar da aura mística atribuída ao sonho do religioso, relatos, escritos e propostas acerca da interiorização da capital brasileira já pairavam na Europa desde o início do século XIX.

As instruções de José Bonifácio à delegação paulista que representaria a província nas Cortes de Lisboa, como visto na quinta reportagem deste especial, pregavam a transferência “da corte ou da regência” a uma cidade edificada “na latitude pouco mais ou menos de 15 graus”. Ou seja, no paralelo 15.

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Estes registros, conforme Francisco Adolfo de Varnhagen em A Questão da Capital: Marítima ou no Interior?, foram resguardados no Congresso português e, de alguma forma, chegaram à biblioteca da corte de Viena, na Áustria.

Mesmo que não haja indicativos de que Bonifácio tenha continuado a empreitada mudancista na Europa, o Patriarca da Independência, preso e exilado em 1823 por D. Pedro I, fixou residência por cinco anos em Talence, na França, distante cerca de 650 km da cidade italiana.

O próprio Varnhagen deixou rastros do mudancismo brasileiro no Velho Mundo. O livro mencionado acima foi publicado em 1877, às custas do próprio autor, e impresso na capital austríaca, que dista cerca de 1000 km de Turim, na Itália, onde D. Bosco viveu por quase 40 anos.

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