Narcos, que estreia no dia 28 de agosto no Netflix para contar a história do traficante colombiano Pablo Escobar, marca o reencontro do diretor José Padilha com Wagner Moura – dobradinha de sucesso mundial pelos dois filmes Tropa de Elite (2007 e 2010) e seu polêmico Capitão Nascimento. Na produção original do serviço de streaming, o ator de Elysium e Trash aparece 20 quilos mais gordo, interpretando em um idioma que não falava até pouco tempo. Moura conta, em entrevista ao Jornal de Brasília, que passou um ano na Colômbia, mergulhado na história moderna daquele país, que, segundo ele, ainda hoje é bastante impactado pela época em que Escobar dominava o tráfico internacional. Filmada na Colômbia, a série de ficção tem ritmo intenso, tensão, violência e o tom documental que Padilha sempre imprime em seus trabalhos. A primeira temporada conta com dez episódios. Todos vão estar disponíveis na mesma data. A seguir, o ator fala sobre a preparação para o papel, a parceria com José Padilha, opina sobre a legalização das drogas e ainda adianta os planos para 2016.
Você aprendeu espanhol para fazer Narcos? Pode falar um pouco sobre a preparação para o personagem?
Aprendi para o papel. Tive muito tempo para me preparar, tomei aulas de espanhol no Brasil, em 2013. No ano seguinte, me mudei para a Colômbia. Foi um ano vivendo e entendendo aquele país e seu povo. A Colômbia se divide entre antes e depois de Pablo Escobar. E a gente tentou colocar todas essas nuances do que ele representou na série para ser o mais fiél possível.
Você engordou para o papel.
Precisei engordar 20 quilos para viver o personagem. Fui muito a fundo na construção do Pablo Escobar. Eu já sabia como ele ia acontecer, mas no dia a dia das filmagens tudo muda e você aprende outros caminhos, penteia o cabelo como ele, para o lado, descobre coisas novas. Mas o mais difícil foi dominar a língua. Poderia ser um problema, mas acabou me jogando com mais força no personagem.
Mas a série é sobre a vida dele?
Na verdade, não. É sobre a origem do narcotráfico, que é um problema mundial. Claro que não poderíamos deixar de falar do personagem mais famoso desse mundo.
Como foi trabalhar novamente com o diretor José Padilha?
Ele é o meu maior parceiro profissional, com quem eu mais trabalhei. Tudo que fazemos, seja os filmes do Tropa de Elite, ou até o Rio, Eu Te Amo (no qual o personagem de Wagner discute com o Cristo Redentor), gera polêmica e é preciso defender. O (José) Padilha tenta entender o mundo, tem um tom professoral. Tem DNA de política e olhar clínico. Todos os filmes dele são bem dramáticos, mas também bem explicativos, bem pesquisados. Todo convite que vem dele me anima porque tenho o critério de aceitar papéis que vão contribuir para a minha vida. Com Narcos foi assim.
Pablo Escobar era polêmico, mas também muito querido. Existiu uma preocupação em não mitificar o personagem?
Não queríamos mitificar o Escobar, nem o tráfico ou os agentes do DEA (policiais americanos que o perseguem durante a trama). A série busca entender e traduzir, da forma mais realista possível, um simulacro do que aconteceu de verdade. Quando aceito um personagem não posso amá-lo ou odiá-lo. A natureza do trabalho do ator consiste em não julgar o papel, mas sim tentar humanizar o personagem. É claro que Pablo Escobar foi uma das pessoas mais malvadas que já existiu, mas ele teve família, foi um bom marido, bom pai, querido pelos amigos. Era carismático. É natural que o espectador sinta simpatia pelo personagem, mesmo que ele tenha sido um sociopata. Eu sabia pouco sobre a vida do Pablo Escobar, e sobre o narcotráfico colombiano. Sobre o significado desse poder paralelo que ocupa brechas que o governo não ocupa.
Te incomoda ser perguntado sobre a sua posição a respeito da legalização das drogas por causa de um trabalho. Antes, pelo Tropa de Elite, e agora, com Narcos?
De jeito nenhum. Eu sempre me posiciono. O narcotráfico é muito nocivo para nós, do terceiro mundo. O Brasil, a Colômbia, o México… Somos nós que sofremos. Os EUA são os consumidores, mas nada sofrem. São os jovens daqui que morrem por causa do tráfico e das políticas nocivas de enfrentamento. Sou a favor da legalização de todas as drogas. Para mim, esse assunto deve ser tratado como um problema de saúde, não de polícia.
Além de viver Pablo Escobar em Narcos, o que mais vem por aí?
Comprei os direitos de Marighella – O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, do escritor Mário Magalhães, livro que servirá de base para o roteiro do filme que pretendo filmar no ano que vem com a produtora O2 Filmes (do diretor Fernando Meirelles).