Depois de passar pelo Gama, Taguatinga e Planaltina, o espetáculo CAMOCIM chega à etapa final de sua circulação pelo Distrito Federal. Criado e interpretado por Cristina Carvalhedo e Tatiana Carvalhedo, mãe e filha, o trabalho realiza três últimas apresentações no Teatro Hugo Rodas, no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. As sessões ocorrem nesta sexta-feira (25), às 20h, e no sábado (26), também às 20h. A entrada é gratuita, mediante doação de 1kg de alimento.
Com dramaturgia autoral, Camocim parte das experiências das duas artistas para construir uma narrativa em que lembranças, histórias familiares, silêncios e ausências se misturam à fabulação. A relação entre mãe e filha está no centro da criação, mas o espetáculo amplia esse vínculo para abordar memória, ancestralidade e as histórias que atravessam diferentes gerações.
Para Tatiana Carvalhedo, transformar essa relação em matéria teatral também significou aprofundar uma parceria que já existia fora dos palcos. “Nossa relação sempre foi de muita cumplicidade, parceria e amor. Criar juntas, porém, é conversar também com as frestas, com os incômodos, com aquilo que nem sempre é dito”, afirma.

A atriz reconhece que o processo de criação também envolveu conflitos, mas considera que eles fizeram parte da construção da obra. “Tivemos conflitos, claro, porque isso faz parte de qualquer processo de criação e de qualquer relação verdadeira. Mas o amor, em toda a sua capacidade, foi um rio de confluências”, conta. Para ela, dividir a cena com a mãe representa uma experiência de confiança e pertencimento.
A inspiração, no entanto, não se restringe à história das duas. Cristina Carvalhedo explica que o espetáculo nasceu também do contato com as trajetórias de outras mulheres. “Foram as histórias de outras mulheres a inspiração para o espetáculo. As muitas que vieram antes, mais próximas ou distantes. Sobretudo reconhecer a força dessas mulheres e o amor pela sua terra, por sua origem”, destaca.
É a partir dessas histórias que a peça cria uma paisagem afetiva na qual experiências aparentemente pequenas ganham espaço. Gestos, lembranças e acontecimentos cotidianos se tornam elementos para falar sobre aquilo que permanece mesmo depois da passagem do tempo.
A direção artística e musical de Fernanda Jacob acompanha o trânsito entre realidade e ficção. Humor e emoção aparecem em uma encenação construída a partir de pequenos acontecimentos e atmosferas, sem a intenção de reconstruir literalmente o passado. O espetáculo busca, antes, observar como as memórias continuam presentes e podem adquirir novos significados quando compartilhadas.
Novas descobertas
A circulação também permitiu que a montagem encontrasse públicos distintos em diferentes regiões do Distrito Federal. Para Tatiana, uma das descobertas mais importantes desse percurso foi perceber como a obra se transforma de acordo com quem a assiste. “Talvez a grande descoberta tenha sido perceber ainda mais a importância de manter vivas as histórias de quem não pôde falar, de quem não foi escutado ou de quem foi sendo esquecido com o tempo”, afirma.

Essa dimensão também apareceu nas sessões destinadas a estudantes da rede pública. O projeto promoveu apresentações para alunos, além de mediações culturais, oficinas, recursos de acessibilidade e outras ações formativas. A proposta foi ampliar o contato com as artes cênicas e criar espaços de escuta e compartilhamento para diferentes públicos.
Segundo Tatiana, justamente por lidar com experiências íntimas, o espetáculo ganha novos sentidos a cada encontro. “Para mim, esse é um dos maiores presentes desta circulação: perceber que o espetáculo se completa de maneiras muito diferentes em cada pessoa que o encontra”, diz.
Na cena, mãe e filha também estabelecem uma relação com as próprias origens e com as gerações que as antecederam. “Quando penso em CAMOCIM e na relação com a minha mãe, penso nisso: duas mulheres que seguem juntas, às vezes em águas tranquilas, às vezes atravessando correntezas, mas reconhecendo uma na outra um lugar de pertencimento”, resume Tatiana.
Serviço
CAMOCIM
Local: Teatro Hugo Rodas — Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul
Datas e horários: 25 de setembro, às 20h; e 26 de setembro, às 20h
Ingressos: gratuitos, mediante doação de 1kg de alimento